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Respirando em canudinhos

por Roberta

Subitamente perdi o medo da morte. Sentir o coração acelerado, fruto de alguma disfunção que carrego há algum tempo, já não me assusta mais. Às vezes parece que pulsa descompassado, mas sei que isso é apenas fruto da respiração difícil, conseqüência inevitável deste clima desértico a que me exponho por anos seguidos e que seguidas vezes já me levou ao PS.

Pontos distintos do corpo doem. Sei que é porque me encolho no esforço de que o ar entre no peito. Penso nos fumantes que chegam a um ponto da vida que seus pulmões decidem limitar a quantidade de ar que entra. “É como respirar por um canudinho de refrigerante, daqueles fininhos”, alguém me disse uma vez.

Tive um pesadelo: “uma guerra, estou na trincheira. Minhas canelas estão geladas, pois meu pé está na lama fria, e me sinto febril. Uma bomba e a fumaça toma conta de tudo. Eu não consigo respirar”.

Acordo no meio da fumaça com a canela gelada. A janela ficou aberta tentando dissipar o ar venenoso. A colônia de bactérias no meu rosto parece estar em pleno carnaval, é o que a dor fina na base da nuca quer anunciar.

“Frescura”, minha mãe disse na sala de espera do otorrinolaringologista, pouco antes do médico informar que eu teria que tomar antibióticos por três meses para combater a placa de bactérias nos “seios da face”, causa do meu sono constante e da labirintite.

O que não é visível não incomoda o outro e falar é sempre dar-se importância demais. Que tal ficar assim, em silêncio. O ar entrando cada vez em menos quantidade até. Daí, fim.

Is This It?

por Biu

9. A coisa toda começou no início de maio e durou quase até seu final – Escreveria mais tarde em meu diário – e ainda não estou bem certo do que me aconteceu. Em parte é por isso que registro aqui o ocorrido, ao menos de como acho que foi, e em parte para que, se eu não conseguir entender, que outro entenda, ao menos, e me explique.

Estive fora do ar por um tempo, não sei quanto tempo, essa é uma das questões que me afligem, inclusive, não exatamente quanto, eu tenho relógio, mas aquilo tudo não pode ter ocorrido em apenas… Bem, eu fui agredido, acho que perdi a consciência, talvez para sempre. Eu não consigo discernir muito bem as coisas, parece que vivi mais em um mês que em minha vida inteira, contando os anos que estão por vir. Em um mês eu vivi várias vidas, algumas delas concomitantemente, por sinal, fui orador e interlocutor de mim mesmo, eu fui o fato e seus desdobramentos, todos os seus desdobramentos possíveis, e era como se tentasse fugir de uma situação que me devorava, de mim mesmo, portanto, e em minha fuga acabasse de volta à boca do lobo, sem nunca, no entanto, ser por ele devorado de vez. Um Karma Instatâneo. Uma prisão que chamei Monstro de Mil Olhos. Eu era então o mundo todo, e o mundo estava em seu estado primordial, o caos. E quando o caos partiu-se ao meio foi aí o dia de meu juízo e também o dia em que nasci novamente. Eu nasci sabendo muita coisa e com uma capacidade enorme de esquecer vinda de outra maior ainda, a de deduzir, só comparável em sua magnitude à de imaginar, daí o ciclo vicioso inevitável, o Monstro, que veio à luz comigo e que aqui, à luz desta outra realidade, chamo de Estado, e de Igreja, uma variação sua, uma I-2 situacional, para os braços da qual corri em meu desespero, reproduzindo assim, mais uma vez, aqui como ali, o karma. Aqui como lá, o Status Quo, a Besta, e o que o legitima, a caguetagem, a pilantragem, o ego inflado, o 6×1, o que em minha inconsciência aprendi a chamar de Os Libélulas. Hoje mesmo topei com eles, me trancaram na rua, à caminho do banco, onde ia justamente pagar minhas contas, o dízimo, para que me deixem em paz, os indigentes, seis deles, armas apontadas para minha cabeça, me apalparam, me cheiraram, mexeram em minha mochila, e me deixaram ir, não acharam o que queriam, os cães, claro que não, eles teriam que ter morrido mais vezes do que eu, eles teriam que saber mais de mim do que eu deles.

– Corpo estreito, dois pares de asas membranosas muito transparentes, carnívoras e voracíssimas. Senhoras blindadas da gravidade pairando absolutas sobre nossas vidas. Ok. This is it.

(do Sirva-se Records)

Humor científico

por André

Castelo Branco. Rodovia de alta velocidade. 100 km/h… 120 km/h… Ele pára no acostamento. Talvez tocasse algo no rádio. Talvez um programa jornalístico, contando como o trânsito fluía bem naquela manhã de domingo. Tinha algo a provar. Olhar perdido. Pela janela aberta sentia o vento dos carros que passavam ao seu lado. Se fumasse, aquele seria o momento ideal para acender um. Só mesmo depois de jogar a bituca na estrada, a mente teria a frieza científica para provar a graça da piada. Estava calmo, mesmo assim. Olhou no retrovisor e esperou um intervalo para voltar à pista. Entrou e pegou a contramão. Não atravessou o canteiro. Foi pela que veio. O rádio ainda ligado daria uma nota sobre um escândalo de Brasília. Sobre ele, nada. Um carro assovia na faixa ao lado. A sensação de velocidade é maior quando se segue em sentido contrário. Deve ter se lembrado das aulas de física: as forças assim se somam. Um quilômetro e, no rádio, nada dele. Outro passa. A buzina de alerta segue num crescendo, fortíssimo e diminuendo. Palavrão. E ele lá e uma propaganda. Dois quilômetros. Os motoristas, ao vê-lo, freiam e jogam para o acostamento. Três quilômetros e começa a procurar onde pode estar seu erro e onde o português acertou. Um ônibus quase o acerta em cheio. Faltava o último fator da equação. Em condições normais de pressão e temperatura, deveria escutar, no jornal, o repórter aéreo avisar: “- Atenção motoristas que trafegam pela Castelo Branco. Tem um louco correndo na contramão”. Ceticamente retrucaria: “Um não, são dezenas”, registrando qualquer alteração do seu humor e  a eficácia de sua blague. Quatro quilômetros. Um caminhão que vinha a oitenta com barras de aço, não conseguiu sair. O comediante cientista morreu poeta atrapalhando o tráfego.

por Stevz*

Deu no único jornal da cidade, entre os classificados e o resultado da loteria: “Palhaço Paçoquinha finalmente consegue”. Isso porque não era a primeira vez que tentava. Nem a segunda ou terceira, diga-se de passagem. A mais notória, sem dúvida, fora a décima quarta mirabolante tentativa, no verão de 85, que mobilizou todo o corpo de bombeiros e o guincho do Seu Zackarias no resgate do fusca no pântano. Mas outras também acabaram tornando-se lendárias, principalmente pela criatividade e variedade de métodos, dignos do artista que era.

Acontece que, como nas armadilhas dos vilões americanos, faltava-lhe objetividade e, justamente por conta disso, jamais fora bem sucedido em seu propósito. A torta envenenada na cara causou-lhe apenas um incontrolável soluço que o atormentou por uma semana, além de uma diarréia dos infernos. Sobreviveu também ao choque da torradeira na banheira, mas o patinho de borracha não teve a mesma sorte. Da velha pistola d’água nem se fala. Certa vez tentou, ainda, intoxicar-se com o hélio dos balões, e acabou permanentemente com a voz esganiçada, o que atribuia-lhe efeito cômico mesmo nos momentos mais embaraçosos e inoportunos que vivesse.

Mas Agenor Ladeira, o nosso ilustre palhaço, não fora sempre este incorrigível e deprimido suicida. Já tivera próspera carreira no circo. Respeitado por todos, era casado com a mulher barbada Marilu. Certo dia, porém, pedalando sua mini-bicicleta do trabalho para casa, pegou-a no flagra aos beijos com o barbeiro, com quem fugiu dias depois. Afogado em mágoas e dívidas de engraxate, Agenor nunca mais foi o mesmo. Desde então, decidido a dar cabo da própria vida, aprimorou-se nas entradas triunfais e saídas estratégicas. E, quando percebia a deixa do destino, não hesitava em concluir a piada. Mas nunca ria por último, coitado. Quando pulou da ponte José Pergolato Filho, ficou pendurado durante 5 longas horas, preso pelo cadarço desamarrado. Quando se jogava na frente dos carros, todos sempre paravam, confundindo o seu nariz com o semáforo.

Enquanto isso, o palhaço Paçoquinha precisava continuar trabalhando. E lá ia ele, montado na sua bicicletinha, alegrar a festa de todas as crianças da cidade. E elas nunca se divertiram tanto, apesar dos pais acharem estranho o palhaço que modelava forcas e guilhotinas em balões coloridos e espirrava lágrimas pelas flores de lapela. Acontece que Paçoquinha era um palhaço nato, mesmo que não quisesse. E nunca foi tão aplaudido ou provocou tantas gargalhadas como quando engasgou naquele pedaço de marmelada, mudou de cor, abanou os braços, deu duas cambalhotas desengonçadas e estatelou-se no chão.

(publicado originalmente em http://cumulusabsurdum.blogspot.com)

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* Stevz é brasiliense, ilustrador e músico. De vez em quando ele escreve.

PDF da Bongolê #1 na LOJA

O almanaque Bongolê Bongoró #1 está esgotado na sua versão impressa, mas, para não deixar os fãs na mão, o sr. Melius Zapiranga fez a gentileza de disponibilizar a edição em .PDF.

Você poderá baixar o exemplar num link disponível na nossa LOJA, aqui mesmo no Facada. Baixe o seu!

por Roberta

A primeira vez que ouvi falar da Groovie Records foi em 2006. Era uma nova gravadora independente portuguesa, que só edita em vinil e que, já no seu início, trabalhava com um pé no Brasil. Literalmente. Foi quando conheci Edgar Raposo, um dos homens por trás do selo, em sua primeira viagem ao país, o outro é Luís Futre. Trocamos figurinha sobre rock brasileiro e português, apresentei umas bandas obscuras dos anos 80, o difícil foi achar algo novo, o cara já conhecia até Akira S. e As Garotas Que Erraram!

Naquele tempo, começaram as parcerias no nosso país. A partir dali, a Monstro Discos se tornou distribuidora da Groovie Records, no Brasil, e a Groovie da Monstro, em Portugal. Logo depois veio a gravação de um vinil split 7” com os Autoramas de um lado e Green Machine, de Portugal, do outro. Em seguida foi lançado o LP Brazilian Surf A-Go-Go volume 1, com mais de vinte bandas brasileiras, entre elas de novo os Autoramas, Pata de Elefante, The Dead Rocks, Estrume’N'Tal, Cochabambas, Super Stereo Surf, Los Tornados e Capitao Parafina e Os Haoles.

A série Fuck CD Sessions, do MQN, impressa em vinil, também faz parte do catálogo do selo. Mas isso é só o começo.

Em 2007, foi lançado o vinil de 10” The Jam Messengers, de Rob K. e Uncle Butcher. Rob K é estadunidense e está na estrada desde os anos 70 e Uncle Butcher atualmente se apresenta com sua monobanda (And His Oneman Band) e é ex-integrante do Thee Butchers’ Orchestra, de São Paulo

Mas foram Os Haxixins a grande aposta do selo ano passado. O grupo é da zona leste de São Paulo e tinha feito pouquíssimos shows quando fechou contrato com a gravadora. Eu cheguei a fazer uma entrevista com eles nessa época, para o programa Plano B, da Rádio Castrense, em Portugal, apresentado pelo Edgar.

A banda acabou virando grande revelação para o público de garagem, de acordo com diversas publicações e podcasts europeus, entre elas a Luv Radio, em que Gary Wilde afirmou ser “uma das mais autênticas bandas de garagem que ouvi em muito tempo”. No início de abril deste ano, Os Haxixins partiram para uma turnê em quase trinta cidades de Portugal, Espanha e Itália, produzida pela Groovie Records.

Os Autoramas também já fizeram pelo menos três turnês por lá com o apoio do selo e devem fazer mais uma em 2008. Além disso, muitos músicos acabam tendo guarita na casa do Edgar. No Bananada 2008, bati um papo com o Kuti, o Lendário Chucrobillyman, que esteve hospedado por lá ano passado, quando fez alguns shows em Lisboa com sua monobanda.

Recordar é viver
Nem só de revelações vive a Groovie Records. Eles têm apoiado todo o tipo de trabalho de registro histórico do rock português. A exposição Nova Vaga – O Rock em Portugal, uma de suas produções, é um passeio no Rock’n'roll, Pop Music, Garage e Psych Rock produzido em Portugal entre 1955 e 1974.

A Groovie também editou um compacto do primeiro roqueiro português, Joaquim Costa, que faleceu no começo deste ano, além de ajudar na distribuição dos LPs Portuguese Nuggets, que editam clássicos do rock daquele país.

Mas o que o Brasil tem a ver com isso? Não são só os clássicos portugueses que estão na mira do selo. Em 2008, foram editados dois LPs de bandas brasileiras dos anos 60: Baobás, “para muitos eles são uma das melhores bandas de garagem já gravadas no Brasil no final dos anos 60”, e The Brazilian Bitles, “a mais prolífica banda dos anos 60 no Brasil. Eles lançaram muitos EPs e alguns LPs, gravando mais de 30 músicas”.

E não deve parar por aí. Há alguns meses mandei para Lisboa um LP de uma banda que gravou nos anos 70, em Natal. Vamos ver o que rola.

Um braço no quadrinho
Uma das atividades do Edgar é seu trabalho com ilustração. Ele é um dos colaboradores do almanaque Bongolê Bongoró #2, que traz trabalhos de mais três portugueses, uma estadunidense e mais dezoito brasileiros. Em fevereiro deste ano, quatro representantes da revista, entre eles, eu, foram convidados para o Brucutumia 2008- Encontros de Arte Urbana Luso- Brasileira, que teve uma feira de fanzines com várias publicações brasileiras.

O evento foi promovido pela Groovie Records e pela Associação Chili com Carne (CCC), em Lisboa. Viajamos com o apoio do Ministério da Cultura e fomos gentilmente hospedados por Edgar e Flávia Diab, a esposa brasiliense. Deste encontro resultaram parcerias de trabalho e de distribuição da CCC pela Kingdom Comics, em Brasília, além da venda da Bongolê #2 e algumas outras revistas brasileiras pela CCC.

Integração continua
A banda portuguesa Born a Lion fez um turnê no Brasil com o MQN, em meados de 2007, por conta dessas parcerias encabeçadas pela Groovie Records, principalmente com a Monstro Discos, e que deverá continuar nos próximos anos. Assim, mais bandas brasileiras irão para a Europa e mais bandas portuguesas virão ao Brasil. O Edgar falou um pouco sobre isso no programa da Tramavirtual que tratou da produção internacional e que foi ao ar no último mês de abril:

Mais sobre a Groovie Records em:
Site: www.groovierecords.com
Myspace: www.myspace.com/groovierecords

(texto originalmente publicado no Overmundo)

Alberto Caeiro

por José Feitor *

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Estas verdades não são perfeitas porque são ditas
Alberto Caeiro

Estas verdades não são perfeitas porque são ditas.
E antes de ditas pensadas.
Mas no fundo o que está certo é elas negarem-se a si próprias.
Na negação oposta de afirmarem qualquer cousa.
A única afirmação é ser.
E ser o oposto é o que não queria de mim.

O mistério das cousas, onde está ele?
Alberto Caeiro

O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

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* José Feitor é português, ilustrador e editor da Imprensa Canalha.
** Poemas extraídos do site Domínio Público.