Facada Leite-Moça

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03/07/2009 · Deixe um comentário

.. o livro A IMPORTANTE DAS PALAVRAS ORDEM É.

por Stevz*

* Stevz é brasiliense, ilustrador e músico. De vez em quando ele escreve.

Aqui também tem PDF da Bongolê #1

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3 – Uma corrida de comitê e uma longa história

26/06/2009 · 1 Comentário

por Lewis Carroll e John Tenniel*

(de Alice no país nas maravilhas)

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Aquela era com certeza uma turma estranha que se reunia nas margens do lago: os pássaros com suas plumas arrastando, os animais com o pêlo grudado no corpo, e todos pingando, irritados e desconfortáveis.

A primeira questão era, evidentemente, como se secarem: eles estavam reunidos em conselho para decidirem sobre isso e depois de poucos minutos parecia natural para Alice encontrar-se conversando familiarmente com eles, como se ela os tivesse conhecido toda a vida. Na verdade, ela travava uma longa discussão com o Papagaio australiano, que no final tornara-se zangado, e falara, “Eu sou mais velho que você, e devo saber mais.” E com isso Alice não podia concordar, sem saber a idade dele, e como o Papagaio recusava-se terminantemente a dizer sua idade, nada mais havia a dizer.

Finalmente o Rato, que parecia ser a pessoa de maior autoridade entre eles, bradou, “Sentem-se, todos vocês, e ouçam-me! Eu vou fazê-los secar.” Eles sentaram-se então em círculo, com o Rato no meio. Alice mantinha seus olhos fixados ansiosamente nele, pois ela tinha certeza que pegaria um resfriado se não secasse logo.

“Aham!” disse o Rato com um ar de importante. “Vocês estão todos prontos? Essa é a coisa mais seca que eu conheço. Silêncio na roda, por favor! William o Conquistador, cuja causa foi favorecida pelo Papa, logo submetido pela Inglaterra, que desejava líderes, acostumada à usurpação e à conquista. Edwin e Morcar, os condes de Mercia e Northumbria…”

“Ugh!”, disse o Papagaio, com um calafrio.

“Desculpe-me” interferiu o Rato, carrancudo, mas educadamente. “Você falou alguma coisa?”

“Eu não!” respondeu o Papagaio, rapidamente.

“Pensei que tivesse”, retrucou o Rato. “Prosseguindo: Edwin e Morcar, os condes de Mercia e Northumbria, declararam para ele; e ainda Stingand, o patriótico arcebispo de Canterbury, achou que…”

“Achou o quê?”, perguntou o Pato.

“Achou que”, o Rato replicou irritadamente, “é claro que você sabe o que que significa.”

“Eu sei o que que significa muito bem, quando sou eu que acho”, afirmou o Pato, “geralmente é um sapo ou uma minhoca. A questão é: o que o arcebispo achou?”

O Rato não entendeu a pergunta, mas apressadamente foi em frente: “achou que era aconselhável conhecer William e oferecer-lhe a coroa. O procedimento de William no início era moderado. Mas a insolência dos seus normandos…como você está indo, minha querida”, ele continuou, virando-se para Alice enquanto falava.

“Tão molhada quanto antes”, respondeu a menina em um tom melancólico, “isso não está parecendo me secar afinal.”

“Nesse caso”, disse o Dodo solenemente, levantando-se, “eu proponho que a assembléia seja suspensa para a adoção imediata de medidas enérgicas…” “Fale inglês”, gritou o Papagaio.

“Eu não sei o significado de metade dessas palavras, e mais, não acredito que você saiba.” E o Papagaio torceu a cabeça para esconder um sorriso: alguns dos outros pássaros riram às escondidas audivelmente.

“O que eu estava dizendo”, retomou o Dodo em um tom ofendido, “é que a melhor coisa para nós secarmos seria uma corrida de comitê.”

“O que é uma corrida de comitê?”, perguntou Alice. Não que ela quisesse mesmo saber, mas o Dodo fizera uma pausa como se pensasse que alguém deveria falar, e ninguém parecia inclinado a dizer nada.

“Bem”, disse o Dodo, “a melhor maneira de explicar isso é fazendo.”

(E, como talvez você queira tentar essa corrida em algum dia de inverno, vou contar como o Dodo fez.)

Primeiro ele delimitou a pista de corridas como um tipo de círculo (a forma exata não importa, ele dissera) e então todo o destacamento foi distribuído pela pista, aqui e ali. Não houve o tradicional “Um, dois, três e já!”, mas todos começavam a correr quando queriam e paravam quando queriam, daí não era fácil saber quando a corrida terminava. Entretanto, quando eles já estavam correndo há mais ou menos meia-hora, e já estavam quase secos, o Dodo repentinamente gritou: “A corrida está acabada”.

Então, todos se aglomeraram em torno dele, ofegando e perguntando:

“Mas quem ganhou?”

Essa pergunta o Dodo não poderia responder sem pensar muito, e ficou parado um bom tempo com um dedo sobre a testa (a posição na qual você normalmente vê Shakespeare nas gravuras) enquanto o resto do pessoal ficava em silêncio.

“Todos ganharam, e todos devem ganhar prêmios.”

“Mas quem dará os prêmios?”, um coro de vozes perguntou.

“Ora, ela, claro”, respondeu o Dodo, apontando Alice com o dedo, e já toda a turma rodeava a menina, gritando de maneira confusa: “Prêmios! Prêmios!”

Alice não tinha a menor idéia sobre o que fazer, e, em desespero, colocou a mão no bolso e puxou uma caixa de confeitos (felizmente a água salgada não entrara nela), e distribuiu as balas como se fossem prêmios. Deu na conta exata, um para cada um.

“Mas ela precisa ganhar um prêmio também”, lembrou o Rato.

“É claro”, replicou o Dodo solenemente. “O que mais você tem no bolso?”, e se virou para Alice.

“Apenas um dedal”, respondeu a menina tristemente.

“Dê-me”, pediu o Dodo.

Então novamente eles a rodearam, enquanto o Dodo solenemente a presenteava com o dedal, dizendo:

“Nós gostaríamos que você aceitasse esse elegante dedal”, e ao final desse pequenino discurso, todos o aplaudiram.

Alice achou a coisa toda muito absurda, mas eles pareciam tão sérios que ela não ousou rir, e, como não podia pensar em nada para dizer, simplesmente fez uma reverência e apanhou o dedal, parecendo o mais solene possível.

A próxima coisa a fazer era comer os confeitos; isso causou algum barulho e bagunça, pois os pássaros grandes reclamavam que não podiam saborear os seus e os pequenos engasgavam e tinham que levar palmadas nas costas. Entretanto, afinal todos terminaram e sentaram-se em círculo, pedindo ao Rato para lhes contar alguma coisa.

“Você prometeu nos contar sua história, você sabe”, disse Alice, “e o porque você odeia G e C”, ela terminou sussurrando, com medo que ele se ofendesse novamente.

“A minha é uma longa e triste história!”, disse o Rato, virando-se para Alice, suspirando.

“É uma longa cauda, certamente”, replicou Alice, olhando para o rabo do Rato com admiração, “mas porque você a chama de triste?”

Alice continuava confusa sobre isso enquanto o Rato estava falando, pois a história que ele contava era mais ou menos assim:

O Monstro disse

ao rato,

Que ele

conheceu

em casa,

“Vamos

logo para o

tribunal: nós dois

Eu vou te

processar! —Pode,

vir logo,

não vou querer

adiar nem

um minuto

o julgamento

vai ser agora

Não tenho mesmo

nada para

fazer

esta manhã.”

Disse o

rato para o

monstro, “Este

processo,

prezado senhor,

sem

júri

ou jurados,

vai ser

uma grande

perda

de tempo.”

“Eu serei o

júri. Eu

serei o juiz,”

respondeu

o esperto

Furioso.

“Eu vou te

julgar

agora

e agora,

vou

condená-lo

à

morte!”

“Você não está prestando atenção!”, disse o Rato para Alice, severamente. “No que você está pensando?”

“Desculpe-me”, respondeu Alice humildemente, “você já estava na quinta volta, não é?”

“Eu não!”, gritou o Rato com voz aguda, muito bravo. “Você não presta atenção em nós!”

“Um nó!”, disse Alice, sempre pronta para ajudar, olhando para todos os lados. “Deixe-me ajudar a desfazer esse nó.”

“Eu não disse nada desse tipo”, disse o Rato, levantando-se e andando. “Você me insulta falando estas besteiras.”

“Eu não quis dizer isso”, suplicava a pobre Alice. “Mas você se ofende tão facilmente!”

O Rato apenas rosnou em resposta.

“Por favor, volte e termine sua história!”, Alice chamava. E todos os outros juntaram-se em coro:

“Sim, por favor, conte!”

Mas o Rato apenas balançava a cabeça impacientemente e caminhou ainda mais rapidamente.

“Que pena que ele não queira ficar”, suspirou o Papagaio, e logo o Rato já estava longe. E uma velha Carangueja aproveitou a oportunidade para dizer à sua filha:

“Ah!, minha querida. Que isso lhe sirva de lição para que você nunca perca o seu humor.”

“Segure sua língua, Mãe”, retrucou a jovem Carangueja, de um jeito meio impertinente. “Você acaba com a paciência de qualquer ostra.”

“Eu queria que nossa Dinah estivesse aqui”, disse Alice em voz alta, dirigindo-se a ninguém em particular. “Ela iria logo logo trazê-lo de volta.”

“E quem é Dinah? Se é que eu posso fazer esta pergunta”, interveio o Papagaio.

Alice replicou ansiosamente, porque ela estava sempre pronta para falar do seu animalzinho de estimação:

“Dinah é a nossa gata. E ela é muito boa para pegar ratos, você nem pode imaginar…E, oh, eu queria que você a visse atrás de pássaros! Ela pode comer um passarinho tão rápido quanto olhar para ele!”

Esse discurso causou uma forte sensação entre o destacamento. Alguns pássaros fugiram: uma velha Matraca começou a se agasalhar muito cuidadosamente, observando: “Eu realmente preciso ir para casa, o sereno não cai bem para minha garganta!”

E uma Canária chamou numa voz trêmula seus filhotes: “Vamos, meus queridos! Já está na hora de vocês estarem na cama!”

Com diversos pretextos todos se foram, deixando Alice sozinha.

“Eu acho que não deveria ter mencionado Dinah”, ela disse em um tom melancólico. “Parece que ninguém gosta dela aqui em baixo, e eu tenho certeza que ela é a melhor gata do mundo! Oh minha querida Dinah! Eu queria saber se volto a vê-la algum dia! E aqui a pobre Alice começou a chorar novamente, pois se sentia muito solitária e deprimida. Em pouco tempo, entretanto, ela novamente ouviu o barulho de passos à distância e olhou ao redor impacientemente, meio que esperando que o Rato tivesse mudado de idéia e voltado para terminar a história.

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.

*Lewis Carroll (Charles Lutwidge Dodgson 1832-1898) foi um escritor e um matemático britânico. Autor de Alice no país das maravilhas (1865), do qual extraímos este capítulo, e de sua continuação, Alice através do espelho (1872), entre outros livros.

John Tenniel (1820-1914), foi ilustrador britânico. Seu trabalho mais reconhecido são as ilustrações para as obras de Lewis Carroll: Alice no país das maravilhas, algumas delas publicadas aqui, e Alice através do espelho.

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A Ilha do Tesouro

20/06/2009 · Deixe um comentário

por Robert Louis Stevenson*

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O papel havia sido selado em diversos lugares por meio de um dedal, em vez de sinete; talvez o mesmo dedal que eu havia encontrado no bolso do Capitão. O Doutor abriu o lacre com muito cuidado e de lá caiu o mapa de uma ilha, com latitude e longitude, sondagens de profundidade, nomes de colinas, baías e angras e cada particular que pudesse ser necessário para levar um barco a uma ancoragem segura em suas praias. Tinha mais ou menos nove milhas de comprimento por cinco de largura e o formato aproximado de um dragão gordo empinado sobre as patas traseiras; tinha, além disso duas ótimas localizações para portos protegidos pela terra; e uma colina na parte central marcada “A Luneta do Marinheiro”. Havia várias adições de data posteriores; porém, acima de tudo, três cruzes em tinta vermelha – duas na parte norte da ilha e uma na sudoeste. Ao lado desta última, na mesma tinta vermelha, com uma letra pequena e clara, muito diferente dos caracteres meio tortos do Capitão, havia estas palavras: ” A parte principal do tesouro está aqui”.
Na parte de trás a mesma mão havia escrito estas informações:

” Árvore, alta, flanco da luneta, tendo um ponto voltado para N de NNE. Ilha do Esqueleto ESE por E. Três metros. A prata em barra está no depósito do norte; você pode encontrá-la seguindo a senda da colina do leste, dez braças ao sul do rochedo negro que tem um rosto. As armas são fáceis de encontrar, na colina de areia a N, na ponta norte do cabo da angra, na direção E e a um quarto de N.
JF.”

Isto era tudo, mas mesmo sendo breve e, para mim, incompreensível, o Conde e o Dr. Livesey ficaram cheios de alegria.

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* Robert Louis Stevenson (1850 – 1894) publicou suas primeiras obras em 1878. É mais conhecido por A ilha do Tesouro, de 1883 – a princípio uma história para entreter seu enteado – e O Médico e o Monstro, de 1886. Morreu em 1894, de hemorragia cerebral, enquanto trabalhava em sua obra-prima inacabada, Weir of Hermiston. O mapa aqui publicado também é de sua autoria.

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Zé Caipora

12/06/2009 · 1 Comentário

por Angelo Agostini*

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——

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.

* Angelo Agostini (Vercelli, 1843 — Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 1910) é um dos precursores dos quadrinhos no mundo e um dos primeiros quadrinistas brasileiros. Também foi um dos primeiros cartunistas brasileiros e considerado por muitos o mais importante artista gráfico do Segundo Reinado. Sua carreira teve início quando estouravam os primeiros combates da Guerra do Paraguai (1864) e prolongou-se por mais de quarenta anos. Em seus últimos trabalhos, testemunhou a queda do Império e a consolidação da República oligárquica.

Seu principais personagens foram Nhô-Quim e o Zé Caipora. Agostini também foi o inventor da “revista em quadrinhos”: devido ao grande sucesso de Zé Caipora, ele compilou os capítulos semanais do personagemem fascículos mensais, que também foram sucesso de vendas. Além disso, o artista ainda foi um dos fundadores da mais importante revista infantil brasileira: O Tico-Tico.

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Rio de Janeiro, século XIX

05/06/2009 · Deixe um comentário

* Coleção Thereza Christina Maria

Igreja Matriz

Igreja Matriz do Rio de Janeiro, vista frontal

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Cemiterio Novo
Cemitério Novo

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Estacao Nova Friburgo
Estação de Nova Friburgo

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Palacio Imperial
Palácio Imperial e adjacências

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Passeio
Passeio da Praça da Confluência e residencia do Barão de Mauá

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*A coleção Thereza Christina Maria é composta por 21.742 fotografias reunidas pelo Imperador Dom Pedro II (1825-91) ao longo de sua vida e por ele doadas  à Biblioteca Nacional do Brasil. A coleção abrange uma ampla variedade de assuntos. Documenta as conquistas do Brasil e dos brasileiros no século XIX e também inclui muitas fotografias da Europa, África e América do Norte. A Igreja da Matriz (Igreja Principal) de Petrópolis estava localizada naRua da Imperatriz, agora conhecida como Rua Sete de Setembro. A igreja foi demolida em 1924, mas um dos seus painéis interiores foi conservado no Museu Imperial. Esta é uma fotografia de uma série tirada no final da década de 1860 por Pedro Hees, considerado por muitos o pai da fotografia brasileira, mostrando os locais mais importantes de Petrópolis, um local popular de férias de verão dos brasileiros abastados, situada na serra fora da cidade do Rio de Janeiro.

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Motivo Onze (ou Valsa nº 6 dos Mutantes)

29/05/2009 · 1 Comentário

por Biu e Stevz*

1. Eu consigo ouvir o tilintar dos segundos que escorrem do relógio de parede quando caem quicando no chão atrás de mim. Em breve a sala estará cheia deles e será difícil transitar, mais um pouco e o lugar estará inundado, e sufocaremos todos.

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2. Lá embaixo o tempo vai ficando cada vez mais curto à medida que avança, a sala afundou até a medida dos pés do cristo pendurado na parede, até os pés da cruz – o cristo não está mais lá, despregou-se e saiu andando sobre as águas do tempo, não sei se volta. Lá embaixo, agora, a sala vazia, cheia de si, em seu meio boia o esquife, muda testemunha desse estranho naufrágio. Lá fora crianças brincando na rua…

Cá em cima eu espero a minha hora tocando uma valsinha, uma que compus especialmente para o Manoel Manco, mas que é dedicada a todos os que vieram aqui hoje, vieram porque quiseram, não os convidei, nem fui convidada, nem eu nem minha irmã, tenho certeza, e agora ela está lá embaixo com os outros, submersa, como os outros. Chegaram, entraram, foram se sentando e se servindo e nem sequer para perguntar quem é o morto. E afinal quem é o morto? – Pergunta-me Johnny.

Eu páro a música. Ou a música me pára, não estou bem certa.

- Bem, eu tenho uma teoria sobre isso, meu caro Johnny, e ela é a seguinte:
Você sabe o endereço daqui?
- Não.
- Esse casarão onde estamos, você observou alguma janela?
Várias – Respondeu Johnny.

- E você já tentou apreciar a paisagem? Não? É porque não há paisagem. Estamos aqui morrendo de medo da morte enquanto nos velamos uns aos outros, Johnny. E você me pergunta quem é o morto…

- E volto a perguntar: Quem é o morto?

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* Stevz é brasiliense, ilustrador e músico. De vez em quando ele escreve.

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O tal negócio de “Prestações”

22/05/2009 · Deixe um comentário

por Lima Barreto*

O senhor Jose de Andrade era contramestre de uma oficina do Estado, situada nos subúrbios.

Era ele o único homem da casa, pois, do seu casamento com dª Conceição, só lhe nasceram filhas, que eram quatro: Vivi, Loló, Ceci e Lili.

Era homem morigerado, sem vícios, exemplar chefe de família, que ele governava com acerto e honestidade. Só tinha um fraco: jogar no bicho; mas, isso mesmo, não era diariamente; fazia-o de longe em longe.

Um belo dia, ganhou na centena. Adquiriu, por quinhentos mil-réis, um terreno, em Inhaúma; comprou algumas peças de uso doméstico e distribuiu cem mil-réis, igualmente, entre a mulher e as quatro filhas. dª Conceição tinha visto nas mãos do Benjamim, vendedor ambulante, por prestações, uma saia de casimira muito boa. Quis comprá-la, mas não tinha de mão a quantia que devia dar de sinal. Entretanto, agora, com aqueles vinte mil-réis, estava de posse dela.

Nem de propósito! No dia seguinte, Benjamim passa, e ela adquire a saia, dando o sinal e obrigando-se a pagar doze mil-réis, mensalmente.

Vivi também tinha visto nas mãos de Sárak uns borzeguins de cano alto, de pelica, muito bons; mas não tivera o dinheiro na ocasião, para fazer o primeiro adiantamento.

Esperou Sárak e adquiriu dois pares: um preto e outro amarelo. Estava no dever de pagar doze mil-réis por mês, que ela esperava obter com o produto de suas costuras.

Loló, essa gostava de jóias e vivia sonhando com um relogiozinho-pulseira que o Nicolau lhe quisera vender a prestações de quinze mil-réis. Avisou a sua amiga Eurídice que, quando ele lhe fosse cobrar, o mandasse falar com ela, Loló.

Assim foi feito; e, no domingo seguinte, ia ao cinema com o adorno cobiçado que logo se desarranjou.

Pagaria as prestações com o dinheiro que os bordados lhe dariam.

Ceci e Lili não eram lá muito inclinadas para esse negócio de prestações; mas o exemplo das irmãs animou-as.

Ceci tinha uma linda saia de voile azul-marinho, que o papai lhe dera no mês passado, quando fizera dezessete anos; mas não gostava da blusa que era branca. Queria uma creme; e, justamente, o Ivã, um ambulante de prestações, que lhe não deixava a porta, tinha uma em condições, e magnífica. Ficou com ela; e a sua contribuição era modesta: seis mil-réis mensais, quantia ínfima que o pai lhe daria certamente.

Lili, a mais moça, não tendo ainda dezesseis anos, parecia resistir à atração, à fascinação de obter um adorno ou uma peça de vestuário, por meio de quotas mensais.

Guardou, durante uma semana, os vinte mil-réis intactos; mas apareceu-lhe no portão, pela primeira vez, um vendedor ambulante de jóias, a prestações; e ela, dando-lhe o dinheiro, que tinha reservado, fez dª de umas “africanas” com a promessa de pagar dez mil-réis por mês. Chama-se o ambulante José Síki.

Ela ajudava a mais velha, a Vivi, nas costuras e, por isso, lhe dava esta uma parte do que ganhava.

O mês correu e não bem para os cálculos das moças, pois Vivi adoeceu e não pudera trabalhar na “Singer”. A moléstia da mais velha refletiu-se em toda a economia da família, pois houve aumento de despesas com medicamentos, dieta, etc. dª Conceição não pôde fazer economias nas compras, pois tinha que atender ao acréscimo de despesa com o aleitamento de Vivi; à segunda, Loló, tendo que cuidar da irmã, não foi permitido bordar; ao pai, devido aos dispêndios com o tratamento da mais velha, não foi dado oferecer qualquer dinheiro à sua filha de estimação, Ceci; e, finalmente, não tendo Vivi trabalhado, Lili não ganhava a gorjeta que a primogênita lhe dava.

No começo do mês seguinte, um atrás do outro, lá batiam à porta, Benjamim, Sárak, Nicolau, Ivã, José Síki, a cobrar as prestações de dª Conceição, de Vivi, de Loló, de Ceci e de Lili.

Desculparam-se do melhor modo e os homens se foram resignadamente.

No mês que se seguiu, as coisas não correram tão bem como elas esperavam. Fizeram alguma coisa, mas insuficiente para pagar aos russos das prestações.

Não ficaram estes contentes e procuraram indagar quem era o dono da casa. José de Andrade não sabia da história de prestações e ficou espantado quando eles o procuraram, para a cobrança. No começo pensou que era só um; mas quando viu que eram cinco, e que as prestações alcançavam a respeitável soma de cinqüenta e nove mil réis – o pobre homem quase ficou louco.

Ainda quis restituir os objetos; mas as peças de vestuário estavam usadas, o relógio desarranjado e, até, as “africanas” precisavam de consertos no fecho.

Não houve remédio senão pagar, e, ainda hoje, quando o modesto operário encontra um homem de prestações, diz com os seus botões:

– Não sei como a polícia deixa essa gente andar solta… Só se lembra de perseguir o “bicho” que é coisa inocente.

Publicado originalmente em O Malho, Rio, 10-1-1920.

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* Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 – Rio de Janeiro, 1 de Novembro de 1922), mais conhecido apena como Lima Barreto, foi um jornalista e um dos mais importantes escritores libertários brasileiros.

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Rótulos de cigarro

15/05/2009 · 1 Comentário

Coleção Brito Alves*

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*A Coleção Brito Alves é composta por 1.252 rótulos de cigarros na técnica litográfica. Foi iniciada pelo comerciante Vicente de Brito Alves e continuada pelo seu filho, o advogado pernambucano José de Brito Alves. Em 1964, a coleção foi doada pela família ao então Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Constitui-se em um raro e valioso patrimônio cultural e artístico, registrando fatos históricos, usos e costumes e aspectos da vida cultural da sociedade brasileira e, particularmente, da pernambucana, no final do século XIX até as primeiras décadas do século XX.

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Procissão em Sevilha e Cenas de Touradas

08/05/2009 · Deixe um comentário

por Irmãos Lumière*

*Auguste Marie Louis Nicolas Lumière (1862-1954) e Louis Jean Lumière (1864-1948) foram os criadores do Cinematógrafo, um dispositivo de projeção elegante e tecnicamente bem simples que revolucionou o início da indústria do filme. Os Lumières enviaram equipes pelo mundo todo para gravarem uma grande variedade de cenas e imagens. O catálogo da empresa Lumière chegou a incluir uns 1.200 títulos, todos disponíveis para venda e que eram exibidos aos públicos de diversos países.

Estes curta-metragens dos Irmãos Lumière retratam dois eventos tradicionais de Sevilha, na Espanha, conforme ocorreram nos últimos anos do século XIX: a Semana Santa e as touradas (la corrida de toros). A procissão da Semana Santa, realizada durante a semana antes da Páscoa, incluia um magnífico espectáculo de carros alegóricos (pasos) transportados pelas ruas da cidade por equipes de carregadores (costaleros). Os penitentes (nazarenos), vestidos em trajes teatrais com capas e capuzes, acompanhavam a procissão. O filme a seguir mostra os matadores lutando contra os touros na arena, auxiliados por uma comitiva de porta-bandeiras, espadachins e lanceiros montados a cavalo e, ao fundo, uma multidão aplaudindo.

(extraído da Biblioteca Digital Mundial)

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01/05/2009 · 2 Comentários

por Biu

Minha dúvida, minha única dúvida, eu já superei a morte, passei incólume por esse presépio, aleluia, eu já superei toda essa merda existencialista, My shit is perfect, já caguei toda a merda do mundo, um mundo de merda… Minha única dúvida era se derretia ou se explodia.

Não estou bem certo se o que então percorria minha espinha era eletricidade ou apenas calafrios, tanto faz, por pura ironia, haja visto minha situação, vocês em breve entenderão, por pura ironia minha única preocupação era se o tamborete em que trepei me aguentaria, uma vez que a corda já havia me certificado que sim. Ao contrário do que se pode imaginar, o nó nem é tão importante assim, uma ponta atei a uma viga, a central, tudo bem espetaculoso, a outra ponta ateia-a ao meu pescoço, e esse nó que me desatasse a vida.

E é engraçado, não se pára de ser. De todas as formas que há para se fazer isso essa me era a mais alienígena, mas era o que estava à mão, fazer o quê?

Boa pergunta, a propósito…

Seria um pequeno passo para a humanidade, seria um nada, e no entanto, para mim, um salto gigantesco. O que me afligia nem é se veria mamãe novamente, por assim dizer, era o que os outros iriam pensar, acho que vão pensar… Sei lá o que vão pensar, o tamborete aguenta? Era isso que me afligia. Achei meio bamba uma de sua perninhas, “Isso tudo pode subitamente vir abaixo”, pensei, vai que o “cão atenta”, como dizia minha avó… Será que ela vai estar por lá também?

Acho que não. Eu acho que vou explodir.

E de qualquer maneira foi isso mesmo, uma explosão, mijei-me todo, caguei-me, ora veja você, mesmo com toda aquela merda… Retesei-me…

A corda estirou, estalando em sol maior sustenido, acho, uma blue note, definitivamente, e minhas canelas também estiraram.

Antes de meu pequeno passo fatal surgiu-me esse monstro metafísico em forma de Besta, um Leviatã de mil olhos chamado Morte, ele arrastou-se melindrosamente até mim, estirou-me a língua de fogo, e ficou nisso. Fala, véi, ou vai ficar só dando pinta, indaguei, ao que me respondeu – Creck!

Esperava mais de uma Besta-Fera de mil olhos, devo admitir, mas foi o suficiente.

Shit happens, Shits Happen? Shit Happy. Perdi minha vida, maldito tamborete paralítico de merda. Mas não perdi o senso de humor. Restou-me o que no final resta a todos: Uma boa, gostosa e contagiante gargalhada.

Bum, explodi.

Morri de pau duro. Agora é com vocês.

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A cozinha renascentista

24/04/2009 · 2 Comentários

por Bartolomeo Scappi*

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* Bartolomeo Scappi (?1500-??1577) foi o mais famoso chefe do século XVI. Scappi cozinhou em Roma durante mais de 30 anos, para seis pontífices, de Paulo III a Pio V. Por isso, chamavam-no “o cozinheiro dos papas”. Seu livro Ópera, de onde foram retiradas essas ilustrações, foi publicado em 1570 e é um tratado culinário, não apenas um livro de receitas. Foram incluídas, além de receitas, imagens de louças e utensílios de cozinha e relatada sua experiência com a comida italiana regional.

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Cinema de classe

10/04/2009 · Deixe um comentário

por Roberta

Toda a arte é carregada de ideologia. Não seria diferente com o cinema. Mas, apesar de toda obra ser permeada das idéias políticas, sociais e filosóficas de seus autores, algumas tratam disso de maneira bem explícita. É sobre o cinema que trata da causa operária, um cinema de classe, que se tratará aqui, numa espécie de mini-guia do gênero.

Não se pode falar de cinema sobre a causa proletária sem citar o Cinema Revolucionário Soviético. Sergei Eisenstein foi o principal representante do gênero e é mais conhecido pelo seu Encoraçado Potemkim (1925), que trata da rebelião dos marinheiros deste navio por maus tratos. A cena do massacre nas escadarias de Odessa é uma referência para o cinema ainda hoje.

Antes, Eisenstein realizou A Greve (1924), que conta a triste história do movimento grevista que antecedeu a revolução de 1917. Uma fotografia impecável, numa história que traz no seu trágico final as justificativas para a revolução bolchevique.

Em 1964, o cineasta Mikhail Kalatozov concluiu Soy Cuba, numa parceria entre a União Soviética e Cuba. Este épico relata os acontecimentos que desencadearam na ascensão de Fidel Castro ao poder. O filme, falado em espanhol e russo, não agradou nenhum dos dois países e foi engavetado, apesar do enorme gasto e tempo dedicado para sua execução. O documentário brasileiro Soy Cuba – o mamute siberiano (2004), de Vicente Ferraz, recupera a história desta fita, que se tornou um clássico tardio do gênero.

O cineasta britãnico Ken Loach dedicou sua carreira a realizar filmes sobre as condições de vida da classe operária. Seu filme mais conhecido no Brasil é Terra e Liberdade (1995), que conta a história da Revolução Espanhola e das atividades do grupo anarquista Poum, que uniu forças da esquerda para derrotar o franquismo e foi traída por Stalin.

Segunda-feira ao sol (2003) conta a história de um grupo de estivadores desempregados que buscam ocupar seus dias ao sol conversando no bar. O filme, dirigido por Fernando León de Aranoa, relata os tempos do desemprego em massa e a desorientação pela falta de trabalho, aquilo que seria o suporte para a dignidade. O filme foi premiado em Gramado.

Do Brasil, podemos citar o filme Eles não usam black-tie (1981), baseado na peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri e dirigido por Leon Hirzman. Um conflito familiar acontece em meio a um movimento grevista, um cenário comum nos bairros operários na década de oitenta.

Também brasileiro, o documentário Terra para Rose (1987) relata a história da companheira Rose, militante sem-terra e sua luta pela reforma agrária no Rio Grande do Sul. A história do sonho de transformar a realizada sofrida e a perseguição que isso resulta.

Muitos outros filmes poderiam entrar nesta lista, mas creio que aqui temos um bom começo. Para encerrar, uma dica de quem “nasceu no subúrbio operário”: Rota ABC (1991), de Francisco César Filho. O filme conta a história de filhos de operários ao som dos Garotos Podres.

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A velha a fiar

03/04/2009 · 1 Comentário

por Humberto Mauro*

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* Humberto Mauro (1897 – 1983) foi um dos pioneiros do cinema brasileiro. Fez filmes entre 1925 e 1974 sempre com temas regionais. A Velha a Fiar (1964) ilustra a canção popular de mesmo nome, executada pelo Trio Irakitã. O filme é considerado o primeiro videoclipe brasileiro e um dos primeiros do mundo.

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