Estilhaço um

23 jul

por Biu

Eu sou um mau agouro. Sequer sei se estou morto ou vivo, mas isso não importa, se estou vivo é porque todos estão mortos, então, eu também. O tempo é cruel com quem o desafia. Esse é meu lamento. Tem o som de estilhaços, os cacos de um espelho inquebrantável.

Minha história é nebulosa, sem pé nem cabeça, uma nuvem de dados, como costumam agora chamar, seu começo é incerto, a conto um pouco por tédio, um pouco por necessidade, e, mal começada, já lhe anseio o ponto final.

Eu sou brasileiro de nascença, não sei mais de que região, filho de índios, negros e brancos vira-latas, primo de mouros, sobrinho de tudo quanto é bicho do mato, católico da porta pra fora, da porta pra dentro depende da lua. Em minhas veias, se ainda as tenho, correm o Paraíba, o São Francisco, o Negro, o Solimões, o Amazonas… Cheio de mim mesmo, tenho de transbordar minha história para poder esvaziar-me dela e livrar você de mim, porque, creia-me, eu sou um mal, um cancro que deve ser extirpado para que os outros gozem a vida em sua plenitude.

Ouça, nem sempre foi assim, eu já temi a morte, como todo mundo, como todo mundo nasci de uma mulher, cresci em casa de muita gente, uma casa grande, imponente, esparramada na paisagem como um buda em seu assento, cheia de regalias, um jardim, um galinheiro, um pomar, um açude, um chiqueiro, estribaria, curral, servos, escravos, e imensas plantações de cana-de-açúcar, ou café, ou algodão, ou borracha. Branco, verde, amarelo ou negro, não importa a cor do ouro.

Ouro: Espadas para extraí-lo, paus para mante-lo, copas para perpetua-lo. E foi assim, traçando essas cartas marcadas, que logo cedo começou para mim a relação que me definiu: Em meu corpo as marcas que no começo exibia com orgulho, depois com medo, depois com indiferença, pois já não sei onde termino eu e começam elas, minhas espiroquetas. Foi por iniciativa delas, para satisfazer seus caprichos, que mandei construir a sala dos espelhos, meu esquife de vidro reluzente de onde observo o mundo que me ignora. Mas eu existo, eis aí um abacaxi que vocês vão ter de descascar. Para o seu azar, eu existo. Vá até o espelho mais próximo, encare o fato de frente e tente não se assustar.

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Tupinambás

16 jul

por Hans Staden*


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* Hans Staden (Homberg (Efze), c. 1525 — Wolfhagen, c. 1579) foi um aventureiro mercenário alemão. Por duas vezes Staden passou pela América Portuguesa no início do século XVI, onde teve oportunidade de participar de combates na Capitania de Pernambuco e na Capitania de São Vicente, contra corsários franceses.
Em sua segunda viagem ao Brasil, enquanto caçava sozinho, Staden foi feito prisioneiro por uma tribo Tupinambá que o conduziu a Ubatuba. Desde o início ficou claro que a intenção dos seus captores era devorá-lo. Pouco tempo depois, os tupiniquins aliados dos portugueses atacaram a aldeia onde ele era mantido prisioneiro. Mesmo cativo, e não tendo escolha, lutou ao lado dos tupinambás. Seu desejo era tentar fugir para unir-se aos atacantes. Mas, estes, vendo que a luta era inútil, logo desistiram.

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Cartografia do século XVI

9 jul

por Giacomo Franco*


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Giacomo (Jacomo) Franco (1550-1620) passou toda sua vida em Veneza, onde trabalhou como um gravador e editor cartográfica no negócio da família. As placas Viaggio (64 no total da série “Carte geografiche”) descrevem todas as grandes cidades, ilhas e marcos visíveis ao longo da rota vela recomendada através do mar Adriático, Jônico, Mediterrâneo e do Mar Egeu. A coleção está disponível no site da Biblioteca da Universidade de Zagreb.

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Caricaturas francesas do século XIX

3 jul

por Alfred Le Petit, G. Gaillard*

Mapa humorístico da Europa em 1870

Imperatriz Eugénie, esposa de Napoleão III, retratada como uma vaca e lançando sua família longe. Gravura de Alfred Le Petit.

A ascensão ea queda de Napoleão III (litografia), de Alfred Le Petit


(Um porco de engorda de 20 anos para o rei da Prússia) – Napoleão III como o traseiro de um porco. Caricatura G. Gaillard, litografia por Morand.

A águia imperial, retrata Napoleâo III. Do caricaturista Alfred Le Petit,  ilustração publicada em sua revista, “La Charge”, que ele fundou em 1870.

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Caricaturas dos anos 1870 – A Guerra Franco-Prussiana de 1870-71 e A Comuna de Paris de 1871

Ilustrações de Alfred Le Petit, G. Gaillard e outros disponíveis na galeria – ‘Collection de Caricatures et de Charges Pour Servir à l’Histoire de la Guerre et de la Révolution de 1870-1871′ , da Universidade de Heildelberg

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I love my gun

27 jun

por Biu, Bruno Azevêdo e Evandro Esfolando*

1. O homem é o lobo do homem, já dizia Severino Miguel, vereador emboscado no adro da Matriz de Santa Rita de Cássia, em Rio Tinto, Paraíba. E eu não duvido. O homem é o lobo do homem, é na animosidade dos instintos que se especializa a raça. Então não sejamos nós a tentar tapar o Sol com uma peneira cheia de cascalhos quentes, vamos pôr tudo às claras, embora a noite gema no escuro: forjados a ferro e fogo pela mão cascuda da própria natureza, dois super-homens duelam até a morte na mata ao lado do circo onde está o trailer de um deles, este que foi quase pego de surpresa em seu trailer, mas que, por princípio, nunca descola de seu trabuco, um apêndice de metal. É por isso que ainda está vivo, apesar de ferido, ainda que não tanto quanto seu oponente, que levou a pior na troca de tiros dentro do trailer e embrenhou-se no mato. Mas não se engane, ele vai voltar, e, sabendo disso, o outro saiu em seu encalço. É lua cheia, mas o céu está fechado, então as coisas às vezes ficam claras por aqui, mas, no geral, tão pretas, reluzindo de vez em quando pelos disparos das duas armas que se batem às cegas. Por instinto os canos uivam, comem balas e cospem fogo um no outro, e que (perca o pior) vença o melhor. Para a glória da donzela perversa, esses filhos de Darwin, dados do acaso, rolam sobre a mesa da necessidade, um deles nu, como pego na emboscada, arma em riste, o outro caindo pelas tabelas, deixando atrás de si um rastro de sangue, ambos arfando e de orelhas em pé. Onde não se pode ser leão, é preciso saber ser hiena, então o mais gravemente ferido estanca o sangue e dá a volta, ele falhara na primeira tentativa, se apenas tentar fugir, morrerá cedo ou tarde. A lua brilha no céu, cúmplice, iluminando seu rastro, está armada a arapuca. O silêncio que se segue a camufla. O leão aproxima-se, cheio de si, prestes a virar pato. Uma coruja pia em sinal de alerta, avisando a todas as criaturas, inclusive aos mamíferos bípedes, que existe um movimento estranho na mata. A lua volta a se esconder. Eles estão frente à frente, separados um do outro por uma clareira, um deles apoia-se em uma árvore com uma mão e faz mira trêmula com a outra, mas é o outro quem dispara primeiro, um último tiro, certeiro, em cheio.  Antes de espatifar-se, o cérebro registra uma última imagem que nunca saberemos qual é, isso é com os cientistas. O juiz encerra a luta, o vencedor comemora em silêncio: o homem é o bobo do homem.

Sob a lua alta, cheia e vermelha, de um céu agora deserto, mirando o vazio complacente dos olhos de seu oponente vencido, o lobo do homem examina seu ferimento, não é fatal, mais uma cicatriz… Senhores, chegamos juntos até aqui,  para quê dourar a pílula no final? Ele então baixa lentamente sua arma quente, ainda fumegante, expira o ar para fora de si e sente os pulmões murcharem e o coração debrear, enquanto uma brisa leva o cheiro da pólvora pra longe, e, ante a presa abatida, experimenta uma completa e irresistível ereção.

O circo estava armado. O show tem que continuar.
Monta o morto e lhe toma os sapatos e as calças, cigarros, fósforos e dinheiro pequeno vem de brinde. Só lhe deixa a camisa furada e empapada de plasma. Nunca o viu, mas carrega o respeito fraterno da profissão, como o guarda da estação, que às seis e meia desce do trem e diz bom dia aos carteiristas. Mungango is dead e de manhã o circo vai ser grande com os refletores e as crianças que preferem o palhaço assim, com a boca cheia de formiga. A festa com remela nos olhos, o rabecão, o sol que nasce e a trupe que reconhece pro delegado o palhaço que nunca viram porque o palhaço que há anos dava estripulias não tinha nome nem história, só uma pintura triste no rosto que fazia rir como ninguém e não titubeava na hora de furar um porco, não importa o quanto o bicho berrasse.
Ele então tem a idéia que vai fazer essa novela render…
Por mais que as cornetinhas do espetáculo, os rugidos dos leões, os roncos das motocas no globo da morte e os espantos nos queixos imberbes caídos dos meninos ante a mulher barbada tivessem abafado os tiros, e o ferimento não impedisse sua subida ao picadeiro – a clown who bleeds is better – chega uma hora que a gente fica vesgo e enxerga o próprio nariz vermelho.
De volta ao trailer, depois desse showzinho privê, pega as roupas e a maquiagem. Mesmo sozinho, tenta esconder o pau ainda duro com uma cueca e fica com aquele mini-circo nas ancas. Sabe que em algumas horas lhe doerão os ovos e esvazia o cofrinho pra comprar alívio, ah! Esporra numas fotos antigas de palhaços decadentes bebendo cerveja, a maquiagem borrada, os olhos tão vermelhos quanto os narizes. La petit mort, dizem os franceses, deve ser, porque a grande, à vera, quem curtiu foi o cadáver lá na mata, o outro palhaço, de um outro circo, mas, a mando de quem?
Volta à mata e veste o defunto com suas roupas. Você já tentou pintar um sorriso na cara de um morto? Alargar seu pau com uma bombinha então nem pensar, né?
E agora o circo está desarmado. Próxima parada: Santana dos Garrotes.

Não se falava em outra coisa que não fosse a morte do palhaço durante o monótono caminho entre as cidades. Especulações dos mambembes sobre Mungango ajudavam a matar o tempo dentro dos velhos caminhões ciganos. Seria vingança, porque palhaço o que é? Ladrão de muié? A anã Dora Dorinha poderia reconhecer o corpo com 100% de exatidão, se visse o pênis duro de Mungango, mole, ficou na dúvida. Ela adorava pisar nos sapatos gigantes de palhaço, enquanto ele lhe socava a pica goela abaixo…
Indo na direção oposta à dos mambembes, Mungango lembra da goela da anã e ri sozinho, em meio à poeira da estrada de barro. Aquilo tudo ficou para trás, tão rápido quanto anda a charrete que lhe deu carona. Mugango is dead: longa vida a Zoitão, o palhaço matador. Ou matador palhaço, orever.

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* Bruno Azevêdo é maranhense e escritor. Autor do livro Breganejo blues, mantém o blog O PUTAQUIPARIU!

Evandro Vieira é escritor e músico, autor de Esfolando os Ouvidos (sobre o rock em Brasília) e de Grosseria Refinada (contos) e vocalista da banda Quebraqueixo.

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Cinco Anos

18 jun

por Roberta*

Já são cinco anos sem ela. Quando decidi ir embora talvez eu ainda não tivesse ideia de que desta vez seria para sempre.

De vez em quando aparece uma notícia, ou ela mesma. Da última vez fui eu que a procurei, já fazia dois anos sem contato, porque ela me pediu. Depois disso, ela foi embora daqui, se mudou para o outro lado do mundo.

Nosso relacionamento sempre foi difícil, éramos muito iguais.

- Cem anos de solidão, estou lendo agora, – ele diz – é maravilhoso.

- Li mês passado. Tive que desenhar a árvore genealógica da família, para não me perder na história. – ela responde, pensando no tempo que tinha passado sem ele.

Sentados na mesa de um bar, depois de dois anos sem se encontrar, eles conversavam sobre a vida de uma maneira bem superficial, considerando que antes desse intervalo costumavam conversar praticamente todo o dia, durante anos.

Ela parecia não se importar muito com o que estava acontecendo, talvez fosse fake essa impressão que causava. Ele se esforçava para restabelecer o contato, nada longe do esperado, depois de tanto tempo sem se ver.

Ele acabara de terminar um relacionamento, um dos motivos porque estavam sem se ver há tanto tempo. Ela estava apaixonada, namorando um estrangeiro há mais de um ano, mas não disse nada sobre isso.

- E a sua família, como vai? – ele pergunta.

- A mesma coisa…

- Minha irmã casou com o Osoaldo.

- É o mesmo menino que eu conheci? – Ela pergunta meio desinteressada.

- É sim. No casamento revi muita gente. O… – ele fala um tempão sobre o assunto.

- … – ela quer mudar de assunto, mas decide ficar calada ouvindo

Ela estava com o coração longe, no estrangeiro. Tinha vindo para a cidade apenas dar andamento a alguns documentos e arrumar a mudança. A vida tinha mudado muito rápido, em menos de um ano já estava quase casada e saindo da cidade que ama tanto.

- Te falei que estou de mudança para o estrangeiro?

- Como assim?

- Estou na cidade apenas para arrumar a mudança.

- Sabe, achei quase um milagre ter conseguido falar com você hoje. Já faz dois meses que te ligo praticamente todo o dia, mas só a secretária eletrônica atendia.

- É que passei esse tempo lá, arrumando as coisas para a minha chegada. – ela começa a falar do estrangeiro.

- … – ele olha intrigado.

Estou com saudade da cidade. Talvez eu volte para lá, mas não agora. Tenho muito o que fazer no estrangeiro ainda. Estou me sentindo mais feliz. Uma boa companhia.

Sempre me relacionei com pessoas que me fizeram muito bem, apesar do fim nunca ser bom. Recebi uma mensagem dele esta semana. Essas coisas de internet, o mundo fica tão pequeno. Ele continua na cidade, perguntou dos meus sonhos.

Lembrei do fim. Um amigo me achou sozinha em casa e me chamou para sair, uma balada na cidade. Éramos dois casais, apesar de ninguém namorar ninguém. Voltamos andando, bêbados, a caminho da casa de um deles, que eu não ia voltar para casa naquela noite.

Ao lado do muro de um cemitério, no meio do caminho, encontramos um tarô jogado no chão. Decidi propor um jogo: “cada um pega uma carta”. Um pegou o Sol, os outros dois eu não me lembro. Na minha vez: A Roda da Fortuna. Nem de tarô eu entendia naquele tempo, mas nesse momento a roda começou a girar.

- Com licença,  – um rapaz da outra mesa decide invadir a conversa – você conhece o estrangeiro? Eu sou de lá, faz tanto tempo que não tenho notícias.

- Eu estava lá dois dias atrás. Está tudo como sempre pareceu estar. – Ela decide ter a conversa invadida.

Lembro de uma tarde em que fui buscá-la no trabalho. Fomos a uma lanchonete que era considerada ponto de encontro homossexual, tinha uns lanches muito bons e ela gostava de ficar na varanda, olhando a rua cheia de carros na hora do rush, antes de anoitecer. Conversamos muito tempo, como em todas as vezes que nos encontramos.

Hoje eu me lembrei de uma conversa que tivemos naquela lanchonete que nem existe mais. Aqui no estrangeiro tem um café com uma varanda parecida, mas a paisagem é outra.

- Desculpe perguntar, mas como é que você conhece tão bem esse lugar?

- Meu namorado é de lá.

- …

Aqueles foram tempos difíceis de adolescentes com pais alucinados. Loucos mesmo. Foi quando me tornei mulher e passei a apreciar as pequenas características do mundo feminino. Não o cor de rosa, ou maquiagens e revistas femininas, mas as mudanças hormonais, o crescimento do corpo, o humor, a delicadeza, o carinho. Coisas assim. Foi lindo, mas imensamente dolorido.

- Há quanto tempo estão juntos?

- Algum. Foi tudo muito rápido. Muito certo.

- Ele tem que idade.

- A sua.

- Signo.

- O mesmo que o meu.

- Isso é bom. Pessoas do seu signo costumam sempre a se dar bem. E a enfrentar os piores problema sem que isso afete o relacionamento.

- Isso deve ser bom então.

- Sim, claro que é…

Quando ele foi embora, me disse que não me queria porque precisava de mais. De algo que ali não conseguia. Tudo me pareceu uma bobagem, uma desculpa. Exigi a verdade. Chorei muito, tentei não ser melodramática, mas os fins só ficam bem mesmo em novelas mexicanas. Absolutamente verossímeis.

- Vamos para outro lugar?

- Como?

- Dançar? Não quer dançar?

- Vai ser bom para me despedir da cidade.

Na última vez que nos vimos, fomos dançar num bar na vila. A casa estava cheia e ela bebia o tempo todo. Pensava em algo que não conseguia identificar. Fomos para a pista, mas de minuto em minuto ela se afastava. Ia para o bar. Para o banheiro. Conversávamos aos gritos, o som estava alto, e ríamos à vontade. Bom estar com ela assim, solta. Em certo momento tocou a música que ela gosta tanto e ela não estava na pista. Corri por todo o bar até encontrá-la. Eu precisava deste momento com ela.

- Tá tocando Ashes to Ashes lá embaixo, você não vai descer.

- …

- Vamos lá, tá tocando Bowie.

- Ah, tá. Já vou…

Na última vez que nos vimos fomos dançar. Eu já tinha bebido mais do que de costume, tinha comido um cachorro quente, que já estava no vaso sanitário. Uma garota me disse naquele momento, me olhando de cima da divisória do banheiro: “vomita mesmo, gata, é o melhor que você faz”. Depois de tudo isso, estava esperando minha bebida nova no balcão, ele chegou correndo e gritando alguma coisa sobre o Bowie, que eu demorei para entender. Disse que já ia, sem saber do que se tratava, até chegar na pista cantando junto “oh no, not again” e todo o resto. Quando cheguei em casa é que me dei conta do que tinha acontecido.

Dançamos, ela cantava com aquele rostinho contaminado pela voz do cantor que gosta tanto.  No bar encontrei com uns amigos que quis apresentar pra ela e conversamos até o dia amanhecer. Ficamos de nos encontrar antes de ela ir embora. Ela deve aparecer por aqui qualquer dia.

Ele queria me ver antes de eu ir para o estrangeiro. Nos encontramos por acaso mais uma vez numa outra casa noturna. Quase não conversei com ele. No pouco que falou, me disse que um casal que ele me apresentou no outro bar tinha sofrido um acidente naquela mesma noite. Ainda estavam no hospital. Pensei nos nossos ossos quebrados durante os anos em que estivemos juntos. Cicatrizes que me orgulho em carregar por não serem mais feridas expostas.

- Ouve. Você gosta tanto…

- “I’m happy hope you’re happy too”…

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Do novo ídolo

13 jun

por Gomez
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ASSIM FALOU ZARATUSTRA

por Friedrich Nietzsche*


DO NOVO ÍDOLO

Estado, chamo eu, o lugar onde todos, bons ou malvados, são bebedores de veneno; Estado, o lugar onde todos, bons ou malvados, se perdem a si mesmos; Estado, o lugar onde o lento suicídio de todos chama-se – “vida”!
Olhai esses supérfluos! Roubam para si as obras dos inventores e os tesouros dos sábios; “culturas” chamam a seus furtos – e tudo se torna, neles, em doença e adversidade!
Olhai esses supérfluos! Estão sempre enfermos, vomitam fel e lhe chamam “jornal”. Devoram-se uns aos outros e não podem, sequer digerir-se.
Olhai esses supérfluos! Adquirem riquezas e, com elas, tornam-se mais pobres. Querem o poder e, para começar, a alavanca do poder, muito dinheiro – esses indigentes!
Olhai como sobem trepando, esses ágeis macacos! Sobem trepando uns por cima dos outros e atirando-se mutuamente, assim no lodo e no abismo.
Ao trono, querem todos, subir: é essa a sua loucura. Como se no trono estivesse sentada a felicidade! Muitas vezes, é o lodo que está no trono e, muitas vezes, também o trono no lodo.
Dementes, são todos eles, para mim, e macacos sobre excitados. Mau cheiro exala o seu ídolo, o monstro frio; mau cheiro exalam todos eles, esses servidores de ídolos!
Porventura, meus irmãos, quereis sufocar nas exalações de seus focinhos e de suas cobiças? Quebrai, de preferência, os vidros das janelas e pulai para o ar livre!
Fugi do mau cheiro! Fugi da idolatria dos supérfluos!
Fugi do mau cheiro! Fugi da fumaça desses sacrifícios humanos!
Também agora, ainda a terra está livre para as grandes almas. Vazios estão ainda para a solidão a um ou a dois, muitos sítios, em torno dos quais bafeja o cheiro de mares calmos.
Ainda está livre, para as grandes almas, uma vida livre. Na verdade, quem pouco possui, tanto menos pode tornar-se possuído. Louvado seja a pequena pobreza!
Onde cessa o Estado, somente ali começa o homem que não é supérfluo – ali começa o canto do necessário, essa melodia única e insubstituível.
Onde o Estado cessa – olhai para ali, meus irmãos! Não vedes o arco-íris e as pontes do além do homem?

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* Friedrich Wilhelm Nietzsche (Röcken, 15 de Outubro de 1844 — Weimar, 25 de Agosto de 1900) foi um influente filósofo alemão do século XIX.

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O Corvo

28 mai

por Edgar Allan Poe*

(Tradução de Machado de Assis – 1883)

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais.”

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará jamais.

E o rumor triste, vago, brando,
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto e: “Com efeito
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais.”

Minhalma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: “Imploro de vós – ou senhor ou senhora -
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo prestemente,
Certificar-me que aí estais.”
Disse: a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta:
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro co’a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais tarde; eu, voltando-me a ela:
“Seguramente, há na janela
Alguma coisa que sussurra. Abramos.
Ela, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso.
Obra do vento e nada mais.”

Abro a janela e, de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre Corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto
Movendo no ar as suas negras alas.
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo – o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: “Ó tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais:
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta,
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é o seu nome: “Nunca mais.”

No entanto, o Corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: “Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora.”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
“Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: “Nunca mais.”

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera.
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: “Nunca mais.”

Assim, posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe falava mais; mas se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava,
Conjecturando fui, tranqüilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto,
Onde os raios da lâmpada caiam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso.
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: “Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora.”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: “Existe acaso um bálsamo no mundo?”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais.
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”

“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa!, clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fica no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua,
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua.”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”

E o Corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

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* Edgar Allan Poe (Boston, 19 de janeiro de 1809 — Baltimore, 7 de outubro de 1849) foi um escritor, poeta, romancista, crítico literário e editor estadunidense. Poe é considerado, juntamente com Jules Verne, um dos precursores da literatura de ficção científica e fantástica modernas, muito conhecido por sua literatura de suspense.

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Anatomia das partes da geração do homem e da mulher

21 mai

por Gautier D’Agoty*

Anatomie des parties de la génértion de l’homme et de la femme

Paris, 1773. Colored mezzotint. National Library of Medicine

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* Jacques Fabian Gautier D’Agoty nasceu em Marselha em torno de 1716 e morreu em Paris em 1785, foi um pintor e gravador francês de anatomia.

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Interlúdio

14 mai

por Biu e Stêvz*

Mais uma página da novela gráfica Aparecida Blues, que está em produção.

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* Stevz é brasiliense, ilustrador e músico. De vez em quando ele escreve.

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Coceirinha aqui

7 mai

Por FErio*

Em dois tempos a mancha aumentou de tamanho. De pequenina gota penetrando em tecido morno, era agora espessa e empapada, gotejando pelo braço abaixo. O epicentro da coceira era uma pequena eczema avermelhada no comecinho do ombro. Passou a unha assim, como quem não quer nada. A coceira era boa, satisfazia-lhe o roçar na pele, a dorzinha. Essa era ainda melhor, pedia coçadas mais agressivas e concentradas. Um descamar leve,  riscos esbranquiçados  na área afetada, que se avermelhavam fazendo vergões ruborizados. A coceira, tem esse prazer proibido, crescente que leva a dar uma coçadinha extra, uma coçadinha pós coçadinha, e mais outra e outra. Rompe-se uma parte de pele e a gotinha de sangue surge brilhante. Ele se assusta, mas a coceira, que já se espalhou pelo braço é boa. Enquanto faz outras coisas, torna a dar algumas coçadinhas matreiras, descompromissadas, mas em lampejos de vontade a raspagem da epiderme torna-se mais e mais violenta, mais sangue brota, pedaços de carne se expõem. A dor pós coceira é absurda, traz junto com ela, o arrependimento de tentar ir cada vez mais longe. Ele se deita, fica com os olhos fechados, esperando parte da dor passar, já que elegeu novos pontos de coceira no outro braço e no peito. E no ombro. E na virilha. Nas coxas. A vontade ressurge num roçar de algo leve com a mão, numa cócega do cobertor às costas, e a coçada é cada vez mais brutal, quase animalesca, com urros e sons de raspar, e sangue brotando por todos os lados, delicioso, deliciosa sensação, tão ampla, e efêmera.
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* Rodrigo se esconde em uma parede fantástica inexistente e se engana que é FErio. FErio convence Rodrigo que este, não é nenhum dos dois, mas que ambos são outras pessoas que ele desconhece mas que escrevem a respeito dessa terceira.

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O saguão das pessoas que eu não gosto

30 abr

por Roberta

Uma festa ao ar livre. Ou quase. Era o saguão de um prédio. O andar térreo rodeado de pilotis com um único cômodo, em que estava instalado o elevador do prédio.

Eu tento colocar uma música para animar o ambiente, mas parece que o aparelho já está programado para uma musiquinha de dentista, que deixa aquela luz da manhã ainda mais bucólica.

São muitas pessoas sentadas por todos os lados, conversando com certa animação. De repente eu me dou conta de que são todas as pessoas de quem eu não gosto. Pessoas de muitos períodos da minha vida. Desentendimentos de todas as espécies, daquele tipo sem retorno, sem chance de reconciliação.

Dou dois passos para trás e quase caio em cima de um grupo que está sentado no chão conversando animadamente. De cara vejo uma colega do colégio. Ela me parece igual à última vez que a vi, com aquele penteado ridículo que fez depois que começou a namorar aquele balconista.

Nos tempo do colégio andávamos três coladas, as três cabeludas. Com os cabelos cacheados sem pentear, falávamos de revolução e de montar uma república juntas. De repente ela aparece com uma escova no cabelo, que agora tinha um corte todo repicado. Fora as roupas de senhora, um conjuntinho de viscose estampada. E isso com menos de dezoito anos de idade! Isso tudo nos atropelou e nunca mais falei com ela.

Reencontrar pessoas nesta festa acaba me deixando angustiada. Me distancio vou para trás da única parede escondida do saguão e encontro, sozinha, uma das pessoas mais irritante que já conheci. Está sozinha sentada no chão, parece que está imobilizada de alguma forma que não identifico.

A conheci no estrangeiro. Na verdade ela dirigiu a palavra a mim apenas uma vez, quando me deu um chacoalhão, fingindo alguma preocupação com o que eu penso para agradar alguém. Mas, imóvel naquele canto, ela me chamou diversas vezes, pedindo para eu me sentar com ela. Eu apenas continuei andando.

Sigo em frente e descubro um quarto que eu ainda não tinha visto. Um quarto escuro, em que estava o metido a lider espiritual alguma coisa que conheci no estrangeiro. Ele me chama com vigor para ir a seu encontro, mas alguém que estava caminhando comigo me segura e diz para eu ter cuidado. Neste momento percebo que não há piso, ele está sentado em uma poltrona colada à parede e assiste  televisão naquele quarto escuro. No que deveria ser o chão, uma fossa cheia de lama mal cheirosa escorrendo por debaixo do saguão.

Numa área aberta, um grupo conversa alto e de maneira performática para que todos prestem atenção. Eram “os de sempre”. Um deles grita para outro: “gênio”. A que o outro responde: “mestre”. E continua a lambeção em tom bem alto para que todo mundo, inclusive eles próprios, se convençam da sua grandeza.

Decido que devo ir embora. Aquela música me irrita bastante. E toda aquela gente. Por que será que se reuniram todos de uma única vez? Um rapaz me aborda para discutir filosofia, não há momento mais inoportuno que esse. Fala num tom autoritário, querendo provar que estou errada em algo que não entendo. Talvez por não prestar tanta atenção quanto ele gostaria que eu prestasse.

Só penso em sair dali. Quando estou quase deixando o saguão, alguém me segura pelo braço.
- Mãe?

(versão livre de um sonho, ou pesadelo, que tive há anos, ou desabafo mascarado)

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23 abr

por Rafazolis*

Uma xícara de chá de camomila bem concentrado.

Suou frio e escorregou junto com o esgoto da cidade. No meio dos dejetos, ratos e outros habitantes da escória. Um longo e caído salto, daqueles que você bate no fundo esperando quebrar no mínimo a clavícula, mas a profundidade é imensa! Tanto que a densidade te torna inerte em uma mistura pegajosa no breu. Lá é onde vivem os crocodilos chatos e encouraçados eles praticamente deslisam deliciosamente pelo chorume.

Um deles chegou até mim e disse

– Ei! Que tal um encontro?
“Merda” pensei, achei que seria dilacerado, mas eu me tornei um deles.

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Rafael e rafazolis são ambos o mesmo observador, um engole outro processa. Um consome outro assume, um escreve outro desenha.
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