Facada Leite-Moça

Travessia

20/12/2009 · 1 Comentário

O rio, a balsa, o monstro e o livro: Um sonho.
Eu não sei. Ganges, Yamuna, Kaveri, Narmada e Brahmaputra, o Negro e o Solimões, o Tigre e o Eufrates, o Aqueronte, o Cócito e o Flagetonte. O Lete, ou o Estige. O meu rio atravessa um deserto, o meu livro branco de letras pretas, sem entrelinhas. Minha balsa uma balança, e meu monstro real como a gravidade.
Eu sonhei o sonho novamente, novamente desci o rio lendo o livro que relata a viagem. É estranho esse rio, sua travessia faz-se ao longo e não de margem à margem, ao sabor da correnteza, que em meu sonho chama-se Acaso. Sua outra margem é um novo rio chamado Oceano. E é estranho esse livro, que ao mesmo tempo é relato e guia da viagem que é única. E é horrível esse monstro, que é pressentido mas nunca visto, e nos ronda durante todo o percurso, tão real quanto maior forem nossos medos.
E assim descemos o rio que atravessa um deserto. Ao meu lado um homem começa a me contar seus pecados, a balsa pende para seu lado e esteve a ponto de virar. Foi preciso redirecionar uma criança para o outro extremo para que não fossemos todos a pique.
Uma velha saca de sua bolsa um ramo e começa a nos benzer, um senhor atira cédulas a torto e a direito, distribui as notas indistintamente entre os passageiros, cada um faz o que acha correto, simpatia e lógica dão no mesmo aqui. Bombordo é Estibordo.
Eu tomo nota, descrevo minhas impressões. Se for perspicaz em minhas observações, se chegar vivo ao final, se um dia acordar, minha jornada será mais um livro nas mãos de mais um sonhador. Eu só acordo de meu sonho quando ele chega à outra margem.

Manuscrito contemporâneo, encontrado no caminho subterrâneo que liga o Congresso Nacional a Machu Picchu (isto não é apenas uma lenda).

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Isto também é Brasília

11/12/2009 · 4 Comentários

por Roberta

Evandro Esfolando

Experiência de videorreportagem com Evandro Esfolando, escritor, quadrinista, músico e demiurgo de Brasília. Ele fala sobre livros, discos, gibi, filmes…

Realizado com o auxílio luxuoso do Biu.

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CONIC

O que é o CONIC? Ponto cultural? Centro histórico? Zona?

Conversas com Alex Vidigal, Natinho e Lima, figuras lendárias do pedaço que tentam explicar o que afinal é o CONIC.

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New Fé

04/12/2009 · 3 Comentários

2020. Foi quando os mutantes entraram na moda. Todos queriam ter um Coelhalado. Ratorelhas já eram out. A biotecnologia avança rápido. Está a uma cabeça de vantagem das demais ciências, de apenas uma cabeça, e a duas voltas de vencer o páreo. Apostas encerradas.

2020. Os Engenheiros de  Crick e Watson, metalúrgicos da carne, erigem seus novos templos orgânicos e atestam a nova fé.

2020. Em que estamos nos transformando? Não é em nós mesmos, certamente. Então, nos outros? Estamos nos transformando nos outros? E eles, por sua vez, em nós? A humanidade é autoreferente? Isso é saudável?

- Oh, mas eles são tão fofos. Eu vou querer dois. Daqui a pouco é Natal, só vão sobrar Ratorelhas…

Durante a noite sonhou com um homem  coruja verde de olhos de girassóis que vivia em um tronco oco da mata. Ele ora aproximava-se ora fugia da criatura que o observava imóvel.

- Não aceitamos devolução.

2020. 14/12. O Sol se põe na praça. Kin Xu Pao observa a luz escorrendo pelos paralelepípedos e não consegue parar de perguntar-se onde porra tudo isso vai dar. Ele mesmo não conhece seus pais biológicos, mas agora até essa expressão perdeu o sentido. Já outras, como Eugenia, voltaram ao léxico. Talvez, sem pais, pensa Kin, deixe de haver país, quem sabe? Como os índios. Todos tornem-se realmente responsáveis por todos, e por tudo. Mas acha que não, acha que ninguém quer isso não. Então pensa logo no pior: Escravidão 2.0!

É difícil pensar nisso, quando a gente dá-se o trabalho de pensar nisso.

Então Kin foi até um lugar mais reservado, desfez o embrulho, abriu as duas grades da caixa e mandou-se. A primeira coisa que aconteceu foi um sair, o outro não, e o que saiu entrar no lado do outro e o devorar. Mas Kin já estava longe da praça, quase em casa. Infelizmente para Kin em se tratando da humanidade nunca se está longe o suficiente. Antes de chegar em casa, parou em um bar, lá aproximou-se de um cara por achar tratar-se de um velho amigo de infância, desfeito o mal entendido acabaram continuando a conversa, este lhe pagou uma dose, Kin retribuiu a gentileza com outra rodada, e várias delas depois Kin e seu novo amigo estavam trocando confidências.

- Ei, Kin, meu amigo, tenho que lhe confessar uma coisa… Eu matei minha mulher.

- Certo. E transgenia, o que tu acha de transgenia?

- Acho coisa de viado. Para mim, se o sujeito nasceu homem tem que morrer homem.

- Não, você não entendeu.

- Quem não entendeu foi você. Eu disse que matei minha mulher. Eu fiz isso e vim para cá.

- Tem certeza que você não é o Serginho, da oitava bê do Salusiano?

- Não.

- Não? Bem, é que hoje eu não soube o que fazer com as últimas novidades da ciência, sabe…

- Eu tenho um i pod.

- E eu tinha dois coelhalados, mas abandonei-os. Fiquei sem poder olhar para eles.

- Foi mais ou menos isso que senti em relação à minha mulher, também.

- Nós estamos a acelerar um trem descarrilhado, percebe?

- Não, até que era bonita. Mas peguei nojo. Ontem chamou-me de egoísta. Foi a gota d’agua… Agora tenho de livrar-me do corpo.

- Exatamente. Livrar-se do corpo. É o que acabaremos fazendo. Informação pura, sem interferências…

- Ela era muito intrometida mesmo.

- Cara, nós vamos acabar preservando nossa memória em um chip, clonando nossos corpos e vivendo para sempre.

- Tipo Faraó? Que original.

- Tu não tá entendendo o que eu digo mesmo, né?

- Se você diz…

Na saída do bar, depois que se despediram, o novo amigo de Kin  abateu-o pelas costas com uma coronhada e esvaziou-lhe os bolsos. Kin amaldiçoou o bandido que o roubou? Não. Kin Xu Pao amaldiçoou a sorte.

No leito do hospital para onde foi levado por um casal de velhos que na volta do Bingo toparam com seu corpo vazio, Kin rumina a notícia recente de que não voltará a andar sem a valorosa ajuda da ciência, se puder pagar por ela, claro. Em um canto, da tv ligada os neoprofetas mastigam chicletes de gafanhotos enquanto pregam no deserto do quarto de Kin:

“Irmãos, estamos  aqui reunidos para celebrar uma missa negra. Haverá sangue e orgia. Vai passar sábado na tv à cabo. A coisa toda consiste em auto exultar-se, o resto vem rápido e muito naturalmente. Aleluia.”

Kin muda o canal, engole alguns analgésicos opiáceos e desconecta-se. O mundo lá fora, cheio de ruído e caos entra em seu quarto de hospital pela janela de plasma. Aquilo não lhe diz respeito, absolutamente. Kin quer voar para longe da gravidade, ele quer ir para um lugar longe das leis de Newton. Mas quando fecha os olhos e a realidade dobra-se sobre si mesma, sonha com engrenagens ruidosas debulhando um terço conta à conta, lentamente, eternamente.

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Sensações e fatos sobre Beleléu

27/11/2009 · 7 Comentários

por André

Escrever resenha não é fácil. A cada texto que faço, especialmente sobre os livros lançados pelos artistas que rondam o Facada, me sinto desafiado. O primeiro problema é fincar uma opinião absurdamente subjetiva. O segundo, e mais difícil, é encontrar os argumentos para racionalizar o que em princípio é uma sensação. E, não raramentem, perceber que minha opinião primeira estava enganada. No texto sobre a Samba, minha intepretação surgiu literalmente enquanto dissecava cada história e cada autor. Coisa de iluminação, mesmo.

Estava eu torcendo para que essa luz batesse de novo — e de uma maneira menos, digamos, trabalhosa –, pois tinha em mãos mais um lançamento: Beleléu, criação coletiva de Daniel Lafayette, Eduardo Arruda, Elcerdo e Stêvz, além de convidados. Esperei a visão, mas esta não veio, então vou do jeito que vou.

Sensação 1: “Que legal! Os meninos estão construindo uma carreira legal!”

Argumento 1: Antes de Beleléu, li Quebraqueixo e a Kowalski, todas com a colaboração de um ou de outro quadrinhista da trupe do novo lançamento, bem como de Bongolê 1 e 2 e Samba. A Beleléu tem sido bem comentada em blogs e twitters da vida – foi dada como um dos melhores lançamentos de outubro pelo Universo HQ.

Sensação 2: “Será que é hora desse grupo expandir a área de atuação?”

Argumento 2: Roberta AR, editora do Facada e amiga, contou no Twitter que o Beleléu já está disponível para compra em sites especializados no exterior.

Pitaco para Argumento racional 2: E se os desenhistas e escritores do Facada pusessem os originais e exemplares de seus livros debaixo do braço e seguissem o caminho que os gêmeos Moon e Bá, fazendo contatos em feiras como a Comi-Con San Diego? Ou então aproveitassem melhor os contatos feitos em Portugal?

Sensação 3: “Cacete! Eles conseguiram uma contribuição do Kioskerman!”

Argumento 3: O desenhista em questão é argentino e seu nome tem circulado na blogosfera brasileira quase do mesmo modo — e no mesmo ritmo — do também argentino Liniers. Não posso afirmar que o Kioskerman tenha a mesma projeção do seu compatriota, mas a colaboração não deixa de ser uma prova da capacidade de aglutinar talentos da trupe de Beleléu. Em tempo: Berliac, outro convidado do livreto, também é estrangeiro. Mais um ponto pros meninos.

Sensação 4: “Putz… acabei de ler e não gostei.”

Explicação para Sensação 4: Como disse, quando peguei a Beleléu, estava no pique de Kowalski e Quebraqueixo. A sensação é que faltava algo. Só descobri o que era no dia anterior ao início da redação desta resenha. Meu cunhado botou em minhas mãos uma revista que comprara numa banca por aí. Subversos 4 é uma produção de 60 páginas, cujo nome mais conhecido por mim é o do Gazy Andraus, quadrinhista do universo independente paulista que, entre outros feitos, nomeou um símbolo criado por mim, o Arrobalão (e foi parar no meu blog semi-morto e twitter). Pois bem, me perdi em devaneios. O negócio é que a revista prendeu minha leitura por mais que o acabamento em preto e branco — e muitas de suas histórias — estivesse(m) anos luz atrás do Beleléu e senti que era aquilo que estava faltando em Beleléu: histórias. O formato maior da concorrente ajuda: 28cm X 21cm contra o quadro de 18cmX18cm. É um pensamento simplista, mas quanto mais papel, mais espaço o quadrinhista tem para contar a história. A HQ mais cumprida de Beleléu tem seis páginas daquele formatinho.
Argumento 4: Peguei o livreto para uma repassada para não cometer a injustiça de etiquetar erroneamente a Beleléu. Ok. Fui um pouco injusto: Entrega (Elcerdo) e Como uma atitude precipitada pode levar a uma boa ideia quando já não é possível colocá-la em prática (Elcerdo e Arruda), Insônia (Elcerdo) e Monstro (Gomez) são belíssimos contra-argumentos para minha sensação. Em compensação, algumas histórias tem o argumento vencido ou batido, como a tira do esquilo tostado por turbinas de um jato, das orelhas decepadas de Mickey para servir de chapéu a um moleque e Lobo Mau que mostra uma versão punk da história dos três porquinhos (todas de Daniel Lafayette). As histórias dissonantes ou levemente ininteligíveis são a minoria.

Opinião formada com base em sensações e argumentos: Vale a pena ler Beleléu e vai ser melhor ainda quando o grupo tiver mais espaço para desenvolver suas histórias e perder alguns vícios das HQs independentes.

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A sombra

24/11/2009 · Deixe um comentário

por Igo Estrela*

Sombra – Proporcionada pela existência de um obstáculo. Ou não…

Presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad em visita ao Brasil

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Lula na visita do presidente do Irã ao Brasil

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Hipertrofia do olhar
Shimon Peres em visita ao Senado Federal


* Igo Estrela é brasiliense. Fotógrafo de esportes, política e o que aparecer, está disponível para trabalhos.

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Ave, Lúcifer

13/11/2009 · 3 Comentários

(trecho)

por Biu e Gabriel Mesquita*

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*Gabriel Mesquita é brasiliense, desenhista e quadrinista.

A HQ completa estará na coletânea portuguesa Seitan, Seitan, Scum, a ser lançada no final de Novembro pela Edições El Pep, em parceria com a CCC.

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Muerteens

06/11/2009 · Deixe um comentário

por Evandro Esfolando*

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*Evandro Esfolando é cigano, demiurgo e mais um monte de coisas, é só checar aqui.

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Oroboro

30/10/2009 · Deixe um comentário

por Stevz*

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Oroboro


* Stevz é brasiliense, ilustrador e músico. De vez em quando ele escreve.

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The Van Gogh Letter Sketches

23/10/2009 · 1 Comentário

por Van Gogh*

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O Quarto
para Theo de Arles
Outubro de 1888

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O Quarto
para Paul Gaugin de Arles
Outubro de  1888

“Olha aqui, eu lhe escrevi outro dia que a minha visão estava estranhamente cansada. Bem, eu descansei dois dias e meio e depois voltei a trabalhar. Mas ainda não me atrevi a sair, eu fiz, para minha decoração mais uma vez, um não. 30 telas do meu quarto com os móveis whitewood que você conhece. Ah, bem, seria muitíssimo divertido fazer este interior vazio. Com uma simplicidade à la Seurat.

Em tons lisos, mas grosseiraramente escovado em puro impasto, as paredes pálidas lilases, no chão, um vermelho quebrado e desbotado, as cadeiras e o leito em amarelo cromo, os travesseiros e as folhas num verde limão muito pálido, a colcha em vermelho sangue, a penteadeira laranja, o lavatório azul, a janela verde. Eu tinha a intenção de expressar repouso absoluto com todos esses diferentes tons, entende, entre os quais o único branco é a pequena nota dada pelo espelho com uma moldura preta (para decorar um quarto par de complementos também).

Enfim, você vai vê-lo com os outros, e nós vamos falar sobre isso. Porque muitas vezes eu não sei o que estou fazendo, trabalhando quase como um sonâmbulo. “

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O salgueiro Pollard
para Theo de  Hague
Julho de 1882

Eu tenho trabalhado num velho gigante salgueiro Pollard e eu acredito que tornou a melhor das aquarelas. Uma paisagem sombria – que a árvore morta ao lado de um lago estagnado coberto de erva daninha, à distância de um depósito onde as linhas ferroviárias Rijnspoor se cruzam, a fumaça enegrecida dos edifícios – também prados verdes, uma estrada e um céu cinza em que as nuvens estão correndo, cinza com uma borda branca brilhante ocasional, e uma profundidade de azul que as nuvens rasgam por um momento.

Em suma, eu queria fazer isso da forma como eu imagino, o agente com o seu avental e a bandeira vermelha deve ver e sentir isso enquanto ele pensa: como está sombrio hoje.

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Noite estrelada sobre o Rhône
para Theo de Arles
Setembro de  1888

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O jardim público (‘O jardim dos poetas’)
para Theo de Arles
Setembro de 1888

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Cinco homens e uma criança na neve
para Theo de Hague
Março de 1883

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Man in a village inn
para Theo de Hague
Março de 1883


* Vincent Willem van Gogh (Zundert, 30 de Março de 1853 — Auvers-sur-Oise, 29 de Julho de 1890) foi um pintor pós-impressionista neerlandês, freqüentemente considerado um dos maiores de todos os tempos. Aos 37 anos, sucumbiu a uma doença mental, suicidando-se. Mais cartas e desenhos podem ser encontrados no site Vincent van Gogh The Letters.

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Café Concerto [trilha sonora do livro MEDÍOCRE]

16/10/2009 · Deixe um comentário

por Zefirina Bomba*

café concerto – zefirina bomba

Medíocre é uma pequena coletânea de Biu, com capa serigrafada, ilustrada por Stêvz, e com tiragem de 200 exemplares numerados. O livro vem com trilha sonora do selo Sirva-se Records. No CD, músicas compostas por Cumulus Absurdum, Zefirina Bomba, Lúcio Maia (da Nação Zumbi) e André Pâncreas. A produção é de Robx.

Café Concerto é, ou era, um cabaré em João Pessoa e que fica, ou ficava, na Rua da Areia.

o audio você tem no livro e na trama virtual


* Zefirina Bomba é uma banda que surgiu na Paraíba e está em São Paulo há alguns anos. Formada por Ilsom, Guga e Martim (e assessorada pela Thelma), pode ser encontrada no Myspace, Trama Virtual, Fotolog e no Twitter.

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Os Artesãos de Dionísio – parte 1

03/10/2009 · 6 Comentários

por Hipólito José da Costa*

Os mistérios dos antigos, e as associações em que suas doutrinas foram ensinadas, foram mal considerados nos tempos modernos, mas com o propósito de desacreditá-los e ridicularizá-los.

Os sistemas de mitologia antiga foram tratados como absurdos monstruosos, rebaixando a razão humana, conduzindo à idolatria e favorecendo a depravação dos modos.

Entretanto, mais do que o esbanjamento e a ignorância com que seus corruptores os contemplaram, merece a atenção os motivos de seus inventores.

Quando os homens foram privados da luz da revelação, aqueles que deram forma a códigos morais para guiar seus companheiros segundo os preceitos de uma razão superior merecem os agradecimentos da humanidade, por mais deficientes que estes sistemas sejam, ou que o tempo possa tê-los alterado; o respeito, não o mofo, deve atender aos esforços daqueles bons homens; mesmo seus trabalhos sendo não comprováveis.

Neste ponto de vista, deve ser considerada uma associação, seguida desde a mais remota antiguidade, preservada apesar das inúmeras vicissitudes, retendo, contudo, as marcas originais de sua fundação, escopo e princípios.

Isso aparece em um período muito adiantado, alguns homens contemplativos eram desejosos de deduzirem, pela observação da natureza, regras morais para a conduta da humanidade. A astronomia era a ciência selecionada com esta finalidade; a arquitetura foi chamada mais tarde para complementar este sistema; e seus seguidores deram forma a uma sociedade ou a uma seita, que foi o objeto deste inquérito.

A continuidade deste sistema será encontrada quebrada às vezes, um efeito natural de teorias de oposição, da alteração das maneiras e da mudança das circunstâncias, mas fará suas aparências em períodos diferentes, e a mesma verdade será considerada constantemente.

A importância de calcular com precisão as estações do ano para regular a agricultura, navegação e outras necessidades, deve ter feito à ciência da astronomia um objeto de grande cuidado no governo de todas as nações civilizadas; e a predição de eclipses e outros fenômenos deve ter sido para o instruído nesta ciência motivo de respeito e veneração por parte da multidão ignorante, bem como extremamente útil aos legisladores na escrituração de leis que regulassem a conduta moral de seus povos.

As leis de natureza e as regras morais deduzidas delas foram explicadas nas histórias alegóricas, que nós chamamos fábulas, e aquelas histórias alegóricas foram imprimidas na memória por cerimónias simbólicas denominadas mistérios, e que, embora mal e tardiamente entendidas, contêm os sistemas das mais profundas, sublimes e úteis teorias da filosofia.

Entre aqueles mistérios são notáveis por sua peculiaridade o Eleusianismo. Dionísio, Baco, Orisis, Adonis, Thamuz, Apollo, etc., eram nomes adotados em várias línguas e em diversos países para designar o Divino, que era o objeto daquelas cerimónias, e admite-se geralmente que o sol estêve representado por estas diversas denominações.

Deixe-nos começar com o fato, não refutado, de que nestas cerimónias, uma morte e uma ressurreição sejam representadas, e que o intervalo entre a morte e a ressurreição fosse às vezes três dias, às vezes quinze dias.

Agora, pelo testemunho simultâneo de todos os autores antigos as deidades chamadas Osiris, Adonis, Bacchus, etc. eram nomes dados ao, ou a, tipos representando o sol, considerados em situações diferentes, e contemplados sob vários pontos de vista.

Conseqüentemente, estas respresentações simbólicas, que descreviam o sol como morto, ou escondido, por três dias sob o horizonte, devem ter sua origem em um local onde o sol, quando no hemisfério mais baixo, está, em uma determinada estação do ano, escondido por três dias das vistas dos habitantes.

Tal lugar é, de facto, encontrado tão ao norte quanto a latitude 66°, e é razoável concluir, que, de uma pessoa que vive perto do círculo polar é que a adoração do sol, com tais cerimónias, deve ter se originado; e alguns supõem que este pessoa era um Atlantide.

A adoração do sol é seguida geralmente aos ritos de Mitra, e àqueles inventados pelos Magi de Persia. Mas fazer do sol um objeto de adoração, e da preservação do fogo cerimônia religiosa, deve ser natural a um pessoa que vive em um clima congelado, para quem o sol é o grande conforto, cuja ausência no horizonte por três dias é um evento deplorável, e cuja reaparição seja uma fonte real de alegria.

Não na Persia, onde o sol nunca esconde-se por três dias, e onde seus raios estão longe de ser uma fonte de prazer, onde desviar-se deles e apreciar a sombra é reconfortante, exercendo-se para isso todo tipo de arte. A adoração do sol e da manutenção de seu fogo sagrado, consequentemente deve ter sido uma introdução estrangeira na Persia.

A conjectura é reforçada por alguns fatos importantes, que, por alusões e referências astronômicas, coloca a cena fora da Persia, embora a teoria seja encontrada lá.

No Boun Dehesch (traduzido da pág. 400 de Anquetil Du Perron) nós encontramos “que o dia o mais longo do verão é igual aos dois mais curtos do inverno; e que a mais longa noite do inverno é igual às duas noites mais curtas do verão.“

Esta circunstância pode somente ocorrer na latitude de 49° 20 onde o dia mais longo do ano é de dezesseis horas e dez minutos, e o mais curto de oito horas e cinco minutos.

Esta latitude é para além dos limites de Persia, onde a história coloca Zoroaster, a quem as doutrinas sagradas do livro persa Boun Dehesch são atribuídas. Esta proporção, então, de dias e de noites, em regra geral podia somente ser verdadeira em Scythia, nas fontes do Irtisch, do Oby, do Jenisci, ou Slinger.

Nós não sabemos nada da história daqueles Scythians ou Massagetes, mas nós conhecemos que disputaram sua antiguidade com os egípcios, e que o princípio acima, embora atribuído ao persa Zoroaster, é somente aplicável ao país dos Scythians.

Mas, deixando a origem dos mistérios do sol um pouco de lado, eles foram comemorados na Grécia, em vários lugares, dentre os quais Appollonia, uma cidade dedicada a Apollo, e situada na latitude 41° 22 ‘. 2 Nesta latitude o dia mais longo tem quinze horas, diferindo três horas do comprimento do dia em que o sol está no equinocial: o reverso dá-se com as noites.

Esta circunstância esclarecerá a preservação de três dias nestes mistérios, mesmo quando comemorado em Grecia, e igualmente para os quinze dias, ou a respresentação do número quinze em alguns dos ritos dos Eleusinianos.

Os números misticos foram empregados para designar tais e similares operações da natureza, por isso diz-se que os símbolos e os segredos pitagóricos eram emprestados dos ritos Órficos ou Eleusinianos; e que isso consistia o estudo das ciências e das artes, mais a teologia e a ética, sendo comunicados nas cifras e nos símbolos. Enunciados similares, a respeito da importação mística dos números, são encontrados em muitos outros autores.

As letras, representando números formam nomes cabalísticos, expressivos das qualidades essenciais do que querem representar; e também os gregos, quando traduziram os nomes extrangeiros, cujo significado cabalístico conheciam, fizeram-no pelas letras gregas correspondentes, a despeito de conservar a mesma interpretação nos números, que nós encontramos exemplificados no nome Nilo.

Ν {Greek N} 50

Ε {Greek E} 5

Ι {Greek I} 10

Λ {Greek L} 30

Ο {Greek O} 70

Σ {Greek S} 200

365

No número três, a que tantas alusões místicas e morais são feitas, há uma referência aos três círculos celestiais, dois dos quais o sol toca, passando sobre o terceiro em seu curso anual.

Os mistérios dos Eleusis, os mesmos de Dionysius ou de Bacchus, foram supostamente introduzidos na Grecia por Orpheus: Podendo ter lá chegado pelo Egipto, mas o Egipto pode tê-os recebido em um período precedente dos persas, e estes por sua vez dos Scythians; mas levando em consideração que nós os encontramos apenas na Grecia, daremos aqui um esboço de suas cerimónias.

O aspirante a estes mistérios não era admitido até que chegasse em uma determinada idade, e pessoas particulares eram apontadas para examiná-lo e prepará-lo para os ritos de iniciação. Aqueles cuja conduta era tida como irregular, ou que tinham sido culpado de crimes atrozes, eram rejeitados, aqueles tidos como dignos da admissão eram instruídos então por símbolos significativos aos princípios da sociedade.

Na cerimônia da admissão nestes mistérios, o candidato era primeiro levado a um quarto escuro, chamado a capela mística. Determinadas perguntas eram-lhe impostas. Quando introduzido, o livro sagrado era apresentado entre duas colunas ou pedras: ele foi recompensado pela visão: uma multidão de luzes extraordinárias eram-lhe apresentadas, algumas dignas de observação particular.

Vestiam-no em uma pele de carneiro; a pessoa oposto era chamada a revelar as coisas sagrados e era vestida igualmente em uma pele de carneiro ou com um véu roxo, e em seu ombro direito uma pele de mula manchada, representando os raios do sol e das estrelas. Em uma determinada distância estava o lanterneiro, representando o sol; e ao lado do altar uma terceira pessoa, que representava a lua.

Perceba assim que aquela assembléia era presidida por três pessoas, em funções diferentes, e nós podemos observar, que no governo das caravanas, nos países orientais, três pessoas igualmente as dirigiam, embora houvesse cinco oficiais principais, além de três matemáticos; aquelas três pessoas eram: o comandante-chefe, que governa tudo; o capitão da marcha, que tem o poder de dirigente, contanto que a caravana esteja em movimento; e o capitão do descanso, ou rafrescamento, que a governa quando parada.

Alguns autores observaram a mesma divisão de poder na marcha dos Israelitas através do deserto, sendo Moisés o comandante-chafe, Joshua o capitão da marcha; e talvez Aarão como o capitão do descanso.

A sociedade de que nós estamos falando, foi governada por três pessoas, com deveres diferentes atribuídos a eles por um costume vindo desde a mais remota antiguidade.

Os mistérios, entretanto, não eram comunicados imediatamente, mas por gradação, em três etapas diferentes. A iniciação, propriamente dita, era dividida em cinco seções, como nós encontramos em uma passagem de Theo, que relaciona a filosofia daqueles ritos místicos.

Estas cerimónias, até aqui, parecem conter mistérios menores, as duas primeiras etapas do candidato no curso de suas iniciações. Havia, entretanto, um terceiro estágio, quando o candidato simbolicamente morria, e então retornava à vida.

Neste terceiro estágio da cerimónia, o candidato era esticado sobre um leito, representando assim sua morte.

A respeito das festividades, em que aqueles mistérios foram comemorados, nós encontramos que no dia 17 do mês Athyr (Novembro, solstício de inverno) as imagens de Osiris eram encerradas em um caixão ou em uma arca: no dia 18 eram procuradas; e no dia 19 eram encontradas.

Remexendo em fábulas ou em histórias simbólicas, em relação a estes mistérios, nós encontramos Adonis massacrado e reanimado; as mulheres sírias chorando por Thamuz, etc.

Deixe-nos agora examinar o significado deste simbolismo de morte e ressurreição, ou de certos personagens, que visitavam o Hades e retornavam.

Parece que esta prática, em todas as suas várias formas e denominações, representa a passagem do sol pelo hemisfério mais baixo, e seu retorno à parte superior.

Os egípcios, que praticavam esta adoração do sol, sob o nome de Osiris, representaram o sol na figura de um homem idoso, imediatamente antes do solsticio de inverno, e representavam-no por Serapis, tendo a constelação de Leo oposta a ele, a Serpente ou Hydra sob ele, a de Lobo a leste da de Leão, e a de Cão no oeste. Este é o estado do hemisfério sul na meia-noite desse período do ano.

Os mesmos egípcios representaram o sol pelo menino Harpocrates, no equinócio vernal; e era então a festividade da morte, do enterro, e da ressurreição de Osiris; que significa o sol no hemisfério mais baixo; retornando, e nascendo no hemisfério superior.

Nesta situação superior o sol foi chamado Horus, Mitra, etc. e saudado como sol invictus. Nós indicaremos agora alguns outros símbolos para expressar os mesmos fenômenos, embora diferentes dos tipos que nós tratamos até agora.

Nos monumentos astronômicos de Mitra, onde a figura de um homem é representada conquistando e matando um touro, há duas figuras em seus lados com tochas; uma que aponta para baixo, a outra para cima.

Nestes monumentos, onde os mistérios em questão foram descritos, o homem que mata e que conquista o touro, representa o sol, passando ao hemisfério superior, através do signo de Touro, que nesse período remoto (quatro mil e seiscentos anos antes de nossa era) era signo equinocial. Os dois lanterneiros, apontando suas tochas para baixo e para cima, representam o sol que desce ao hemisfério mais baixo, e retorna outra vez.

Em um tempo ainda mais remoto que o aludido, no equinócio de verão, o sol encontrava-se no signo de Touro, e o ano começava neste período para os astrónomos egípcios. Mais tarde, em decorrência da precessão dos equinócios, o equinócio do verão ocorreu no signo de Aries; quando parte dos egípcios transferiu sua adoração do touro ao cordeiro; enquanto outros continuaram a adorar o touro.

Nós podemos explicar este na língua de nossos astrónomos modernos dizendo, esses alguns dos egípcios instruídos continuaram a contagem pelo zodíaco móvel, quando outro contavam o ano pelo zodíaco fixo; e esta circunstância produziu uma divisão das seitas nos povos, porque era uma divisão de opinião.

Do mesmo modo, pela mesma precessão dos equinócios, o sol passou de Aries a Peixes no equinócio vernal, em aproximadamente trezentos e trinta e oito anos antes de nossa era; contudo o começo do ano continuou a ser contado do Aries. Se a astronomia e a religião egípcias existissem então com o mesmo vigor, talvez sofressem uma alteração similar; mas os sistemas egípcios nesse período estavam quase aniquilados. Nós podemos observar, entretanto, que os cristãos, no início de nossa era, marcaram seus túmulos com peixes como um emblema da cristandade, para distinguir seus sepulcros dos sepulcros pagões.

Retornando desta digressão curta a nossa finalidade imediata, nós temos que observar, que se aquelas cerimónias e símbolos representavam o sol e as leis de seus movimentos, estes fenômenos da natureza foram estudados de um ponto de vista moral, como sendo eles mesmos representações de uma filosofia mais sublime ou mais metafísica; e as regras morais deduzidas daí foram imprimidas na memória por aquelas imagens e respresentações vívidas.

A imersão do sol no hemisfério mais baixo, e seu retorno foram contemplados como uma prova ou como um símbolo da imortalidade da alma; um dos mais importantes, assim como um dos mais sublimes princípios da filosofia platônica.

*Hipólito José da Costa (Colônia do Sacramento, 13 de agosto de 1774 — Londres, 11 de setembro de 1823) foi um jornalista, maçom e diplomata brasileiro, patrono da cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras. Ele foi preso por ser maçom pela Inquisição em Portugal em 1802, fugiu em 1805 e se estabeleceu em Londres. Escreveu um livro de dois volumes sobre as suas experiências, Narrativa da Perseguição, em 1811. Publicou o primeiro jornal brasileiro, o Correio Braziliense ou Armazém Literário, (1808-23), e é conhecido como “o fundador da imprensa brasileira”.

Este ensaio, publicado em 1820, foi uma tentativa de provar que a Maçonaria moderna é derivada das antigas idéias filosóficas e religiosas gregas.

Traduzido por Biu do original em inglês

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Rei de Ouros

25/09/2009 · 1 Comentário

por Gomez*

reideouros


* Gomez é brasiliense, ilustrador, quadrinista e misantropo.

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A História (em quadrinhos) de Alexandre, o Grande.

21/09/2009 · 2 Comentários

por Pseudo-Callisthenes*

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*Atribuído a um autor desconhecido chamado Pseudo-Callisthenes, “O Romance de Alexandre o Grande” foi originalmente produzido em grego por volta de 200-300 dC.

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