Facada Leite-Moça

Criados e educados pela babá eletrônica

01/06/2006 · Deixe um comentário

por Roberta

“A TV é a grande vilã da aculturação contemporânea”. Não é a falta de educação decente, de distribuição de renda, nem o imperialismo de qualquer espécie.

Já há algum tempo a TV foi escolhida por certa classe intelectual, ou que o valha, como a grande responsável da pobreza cultural. Sempre me assusta essa história de criar um vilão bode expiatório para algo que na verdade é muito maior.

Somos frutos de uma educação tecnicista, que apenas nos prepara para sermos mão de obra qualificada e não para sermos pessoas com o mínimo de senso crítico. Pessoas que crescem sem se sentir responsáveis pelas consequências de seus atos, porque somos meras peças da engrenagem social.

Daí é a TV que faz com que as pessoas votem ou deixem de votar em alguém. Faz comprar. Dita modismos. Definitivamente isso é reduzir demais o problema.

O que dizer das rádios com sua programação repleta de jabá, que faz com que os ouvintes escutem uma música deplorável cinco vezes por hora? E da nossa literatura, repleta de auto-ajuda e livros-biografia de celebridades instantâneas? E os cinemas, que tem 90% de sua programação importada dos EUA, com a maior parte de lixo que faz apologia ao grande império? E nossos jornais, patrocinados por bancos, que defendem o ponto de vista dos 5% mais ricos do país? Então não se aproveita nada de nada?

Por ser o veículo mais popular, companhia para os inúmeros solitários desa sociedade desigual, é que a TV vira a grande vilã da burrice terceiro-mundista. Não é que ela não colabore com isso, mas e as boas experiências que ninguém lembra?

A beleza corajosa da série “Os Maias”. O vanguardismo do “Olhar Eletrônico” e da “TV Mix”, que traziam à tona a cultura independente e criaram uma linguagem nacional para o vídeo. São muitos os exemplos: “TV Pirata”, “Ernesto Varella”, “Matéria Prima”, até mesmo o “Perdidos na Noite”, do Faustão. E para as crianças: “Bambalalão”, “Rá Tim Bum” e seus derivados, “Sítio do Picapau Amarelo”.

Parace tudo muito velho, mas um bom telespectados, munido de seu senso crítico, usa o poder do controle remoto. Encontrar uma trama de novela no estilo Agatha Christie acontece de vez em quando. Não podemos nos esquecer de que os grandes da literatura tiveram suas obras publicadas como folhetins: Dostoieviski, Machado de Assis, Eça de Queiroz…E nós temos folhetins memoráveis como “Roque Santeiro” e o “Saramandaia”.

E dizer que telespectador só gosta de lixo é mito. O que dizer de “A Grande Família” e de programas como “Saca-Rolha”, que estão no ar hoje. Há tempo o que é bom e vem de fora. Séries com críticas de costumes, como “Os Simpsons”, com seu humor politicamente incorreto, ou que trata da morte com uma proximidade incômoda como “Six Feet Under”. Produtos de TV para TV e com qualidade.

É claro que boa parte das boas produções são das TVs públicas, é essa mesma sua função, mas com seres pensantes que simplesmente desistiram do veículo, como é que esse quadro pode ser mudado? Acabar com a TV?

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