Facada Leite-Moça

Uma vida em segredo

15/06/2006 · Deixe um comentário

por Flávia Diab*

Suzana Amaral revisita a literatura, adaptando o romance de Autran Dourado, Uma Vida em Segredo. O filme teve sua estréia no 34º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

As experiências concretizadas pelo cinema brasileiro através da literatura, somente neste ano de 2001, foram inúmeras. De Machado de Assis a Rubem Fonseca, passando por Raduan Nassar e Jô Soares, uma vasta diversidade de estilos e épocas foram adaptadas para telas. Somando-se a essas produções, Suzana Amaral leva ao público Uma Vida em Segredo, seu segundo longa metragem, da obra do escritor Autran Dourado.

Não é a primeira vez que a cineasta dialoga com o mundo literário. Em 86 adaptou A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. O filme foi o mais premiado de toda a história do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Levou 24 prêmios nacionais e internacionais, além de ter sido exibido em 25 países diferentes.

Uma Vida em Segredo narra a história de Biela (interpretada por Sabrina Greve, estreante no cinema), uma menina do interior, simples e tímida. A trama se passa no começo do século passado, em algum lugar desse “interiorzão” do Brasil.

Após a morte do pai, a moça passa a viver com a família do primo Conrado (Cacá Amaral). Em seu novo lar, a protagonista encontra um ambiente hostil aos seus hábitos. Biela não possui maneiras finas nem roupas elegantes. Sua falta de leveza e graça se vê contrastada com as etiquetas dos parentes com quem passa a conviver. Biela emudece, passar a viver pelos cantos, trancada em seu mundo interior. Prefere a companhia dos criados a da família, de seu cão, Vismundo, sobretudo.

“O espelho refletia uma figura encurvada, o rosto pálido e apático, uns olhos inexpressivos que pareciam não ver(…). Nenhuma leveza, nada que revelasse naquele corpo uma alma feminina”, diz o autor Autran Dourado sobre Biela em trecho de seu livro, de 1964. A imagem que se tem a princípio da personagem é de uma moça feia, discreta e desinteressante. Aos poucos a complexidade e poesia da protagonista se revelam, numa história singela repleta de sutilezas.

“Biela é rica em mudanças e percorre um caminho de sucessivas escolhas, com grande densidade interior. Em nenhum momento, ela se deixa ultrapassar pelo destino, assume-o e o recria para finalmente conduzi-lo a uma nova dimensão”, define Suzana. A protagonista nos remete quase que imediatamente à triste Macabéia, de A Hora da Estrela. São personagens oprimidos por suas realidades, desajeitadas, mas que emocionam em sua terna simplicidade.

O livro de Autran Dourado é uma sensível construção a respeito do contraste entre os costumes, dos hábitos e gentes do interior. “Uma Vida em Segredo mostra-se na melhor regência de seus poderes da expressão, ambiguidade e discernimento. (…) Uma pequena obra-prima da novelística brasileira”, segundo o crítico literário Hélio Pólvora. Resta saber, agora, de que maneira a riqueza e inventividade do livro foram percebidas pelas lentes da cineasta…

Atualmente Susana Amaral já trabalha em dois novos projetos, mais uma vez ligando cinema e literatura! Trata-se de Hotel Atlântico, da obra de João Gilberto Noll e Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector. Ela ainda não sabe qual dos dois iniciará; o que primeiro decolar será filmado.

Suzana Amaral

A diretora iniciou seus estudos em cinema em 1968, quando participou da segunda turma de alunos da Escola de Comunicações e Arte (ECA-USP). Mais tarde fez uma especialização nos Estados Unidos, cursando a Universidade de Nova York e a Actors Studio.

Além do longa A Hora da Estrela (86), realizou os curtas Eu Sou Você, Nós Somos Eles (69), Sua Majestade O Piolim (71), Semana de 22 (71) e Minha Vida, Nossa Luta (79).

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*Flávia Diab é brasiliense, produtora cultural, se interessa por cinema, música e atividades terroristas. Mora em Lisboa.

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