Facada Leite-Moça

Enfim: o homem-máquina

27/02/2009 · Deixe um comentário

por Roberta

A humanidade tem demonstrado, nas últimas décadas, uma grande preocupação com o avanço tecnológico que pode desencadear na inteligência artificial independente. Dizer “a humanidade” pode parecer um tanto exagerado, pois o tema tem sido tratado principalmente pela literatura de ficção científica e pelo cinema. Apesar disso, é provável que todo mundo já tenha pensado no assunto e ter sentido um princípio de pavor.

Máquinas que começam a tomar decisões por conta própria é algo realmente assustador. HAL é o computador que tomas as rédeas de uma missão espacial em 2001, Uma Odisséia no Espaço. Em Matrix, a humanidade é escravizada para gerar energia para as máquinas que dominam a terra. Esses são apenas alguns exemplos do que seria esse tal futuro iminente.

Pensar no caminho inverso, entretanto, não é tão comum. Mas é o caminho que temos trilhado. Hoje, homens são tratados como máquinas com naturalidade, sem que ninguém se dê conta do fato. Aliás, quase ninguém.

Em Aprender a Rezar na Era da Técnica, do português Gonçalo M. Tavares, o personagem principal, Lenz Buchmann, é um médico que trata a humanidade racionalmente e com indiferença para atingir seus objetivos pessoais. Sua relação com os doentes e com a doença é puramente técnica: “a sua aproximação do sofrimento era individual; não aceitava o sofrimento emprestado de outros; a compaixão era um sentimento desnecessário, ou, como o próprio Lenz referia, uma ferramenta inútil para a existência, que tecnicamente nada resolvia; alguém segurava num martelo para unir dois tecidos” (p.66).

Com o avanço tecnológico e científico, somos tratados como coisas que podem ser divididas em pedaços. Assim a medicina consegue se especializar em partes do corpo e não somos mais algo vivo e uno, mas uma máquina com engrenagem a ser estudada. Essa indiferença ao indivíduo é demonstrada de maneira divertida, e bastante crítica, pelo grupo inglês Monty Python, quando o barulho das máquinas é mais importante que a ação complexa da natureza, nesse trecho do filme O Sentido da Vida:

É, então, com naturalidade que aceitamos e nos submetemos a uma avaliação antes feita às máquinas. Conceitos como desempenho, eficiência e resultado, antes aplicados pela engenharia a maquinários, agora são usados para avaliar (ex) seres humanos, que precisam competir com seu próprio invento, já que são inúmeros os postos de trabalho que são mecanizados e extintos. Temos que otimizar nossa existência e nosso tempo, pois tempo é dinheiro e dinheiro é o que mede tudo.

Em Manifesto Contra o Trabalho, o Grupo Krisis estuda essa adoração ao “deus” trabalho, que está cada vez mais escasso, em vias de extinção, segundo os autores, o que pode ser o reflexo dessa crise internacional que estamos passando hoje. E quanto menos trabalho há, mais eficientes precisamos ser, assim vestimos a camisa da empresa e agimos “para o trabalho” quando estamos em casa, de férias, com amigos. Somos neo-máquinas prontas para sermos indispensáveis ao sistema. “Cada segundo é calculado, cada ida ao banheiro torna-se um transtorno, cada conversa é um crime contra o fim autonomizado da produção” (p.34).

Nos submetemos a isso, porque precisamos ser os melhores. Não melhores pessoas hoje do que fomos ontem, mas melhores que os outros. Se é o dinheiro que mede tudo, na prática, para sermos melhores, precisamos nos apresentar como os mais eficientes. Temos que ter a família mais aparentemente adequada, essa obsessão da classe média, não é possível dizer feliz, porque isso não está em questão. Somos melhores quando vivemos no primeiro mundo, somos brancos, homens, adultos, temos o carro do ano mais caro e exclusivo, além de todo o tipo de acessório top de linha e de marcas caras que nos tornarão capazes de desempenhar de maneira mais eficiente nossos papéis nas engrenagens sociais.

Mas isso gera consequências nefastas nas pessoas. Solidão, ansiedade, depressão são as companheiras de grande parte da população mundial. Como novos mecanismos produzidos pela tecnologia, buscamos a cura em “manuais de instrução”, daquele mesmo tipo que procuramos quando o liquidificador enguiça. E são manuais que te ajudam a se auto-ajudar com processos simples e eficazes. Você aprenderá a ser alguém vencedor e ter amigos, a otimizar seu tempo, a educar seu filho para um desempenho de sucesso e assim por diante.

Caso os manuais não ajudem, a indústria farmacêutica o fará. Com muita facilidade desajustes que podem diminuir seu desempenho serão eliminados por algum medicamento. Uma cápsula para dormir, outra para acordar. Um comprimido para deixar de ficar ansioso, outro para eliminar a tristeza. Crianças com seus distúrbios de atenção controlados e domesticados. Homens com total controle de suas ereções. Num futuro próximo, poderemos até eliminar os traumas com apenas uma pílula.

Inventamos as máquinas porque éramos seres frágeis diante da natureza selvagem, e desde o uso da primeira lança de madeira, nos primórdios da humanidade, as coisas perderam um tanto o controle. No livro Cabeça de Ferro, editado pela Imprensa Canalha, Luiz Luiz afirma que “com a máquina metamorfoseando-nos. De animal subjugado e indefeso fomo-nos gradualmente nos tornando em ser dominante.(…) Admirados pelas suas capacidades e pelo nosso engenho, acabamos por vezes submetidos a ela. Depois de vencidos pela Máquina num jogo de xadrez, parece estarmos agora a perder o jogo da Humanidade (…)”.

É neste ponto que estamos. Ao invés das máquinas pensarem como homens e dominarem o mundo, são os homens que passam a (não) pensar como elas e se subjugam por livre espontânea vontade. É tão grande a carência de humanidade, que isso passa a se refletir até na ficção comercial. A animação vencedora do Oscar este ano conta a história de um robô emotivo, que sente saudade do tempo em que o planeta era habitado por seres vivos. Wall-e pode ser apenas mais uma projeção do que já é real e está instaurado entre nós, mas ainda não estabelecido, por enquanto.

O filósofo alemão Martim Heidegger manifestou sua indignação com os rumos que o homem escolheu para si, preferindo ser um “monstro da técnica” e se afastar daquilo que devia importar e que faz do homem, homem. No livro Introdução à Metafísica, de 1953, ele escreve algo que resume um pouco tudo isso e é esse trecho que uso como conclusão. Que fique como uma reflexão:

“Quando o mais afastado rincão do globo tiver sido conquistado tecnicamente e explorado economicamente; quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com qualquer rapidez: quando um atentado a um Rei na França e um concerto sinfônico em Tóquio puder ser ‘vivido’ simultaneamente; quando tempo significar apenas rapidez, instantaneidade e simultaneidade e o tempo, como História, houver desaparecido da existência de todos os povos; quando o pugilista valer, como o grande homem de um povo; quando as cifras em milhões dos comícios de massa forem um triunfo, – então, justamente então continua ainda a atravessar toda essa assombração, como um fantasma, a pergunta: para quê? para onde? e o que agora?”(p. 64).

UPDATE – Entre as milhões de coisas que esqueci de citar neste texto, não poderia deixar de fora a música Man Machine, do Kraftwerk, que é a posição do grupo sobre este assunto. Vídeozinho da tour Minimum-Maximum que encontrei no youtube.



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