Facada Leite-Moça

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Travessia

20/12/2009 · 1 Comentário

O rio, a balsa, o monstro e o livro: Um sonho.
Eu não sei. Ganges, Yamuna, Kaveri, Narmada e Brahmaputra, o Negro e o Solimões, o Tigre e o Eufrates, o Aqueronte, o Cócito e o Flagetonte. O Lete, ou o Estige. O meu rio atravessa um deserto, o meu livro branco de letras pretas, sem entrelinhas. Minha balsa uma balança, e meu monstro real como a gravidade.
Eu sonhei o sonho novamente, novamente desci o rio lendo o livro que relata a viagem. É estranho esse rio, sua travessia faz-se ao longo e não de margem à margem, ao sabor da correnteza, que em meu sonho chama-se Acaso. Sua outra margem é um novo rio chamado Oceano. E é estranho esse livro, que ao mesmo tempo é relato e guia da viagem que é única. E é horrível esse monstro, que é pressentido mas nunca visto, e nos ronda durante todo o percurso, tão real quanto maior forem nossos medos.
E assim descemos o rio que atravessa um deserto. Ao meu lado um homem começa a me contar seus pecados, a balsa pende para seu lado e esteve a ponto de virar. Foi preciso redirecionar uma criança para o outro extremo para que não fossemos todos a pique.
Uma velha saca de sua bolsa um ramo e começa a nos benzer, um senhor atira cédulas a torto e a direito, distribui as notas indistintamente entre os passageiros, cada um faz o que acha correto, simpatia e lógica dão no mesmo aqui. Bombordo é Estibordo.
Eu tomo nota, descrevo minhas impressões. Se for perspicaz em minhas observações, se chegar vivo ao final, se um dia acordar, minha jornada será mais um livro nas mãos de mais um sonhador. Eu só acordo de meu sonho quando ele chega à outra margem.

Manuscrito contemporâneo, encontrado no caminho subterrâneo que liga o Congresso Nacional a Machu Picchu (isto não é apenas uma lenda).

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Isto também é Brasília

11/12/2009 · 4 Comentários

por Roberta

Evandro Esfolando

Experiência de videorreportagem com Evandro Esfolando, escritor, quadrinista, músico e demiurgo de Brasília. Ele fala sobre livros, discos, gibi, filmes…

Realizado com o auxílio luxuoso do Biu.

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CONIC

O que é o CONIC? Ponto cultural? Centro histórico? Zona?

Conversas com Alex Vidigal, Natinho e Lima, figuras lendárias do pedaço que tentam explicar o que afinal é o CONIC.

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New Fé

04/12/2009 · 3 Comentários

2020. Foi quando os mutantes entraram na moda. Todos queriam ter um Coelhalado. Ratorelhas já eram out. A biotecnologia avança rápido. Está a uma cabeça de vantagem das demais ciências, de apenas uma cabeça, e a duas voltas de vencer o páreo. Apostas encerradas.

2020. Os Engenheiros de  Crick e Watson, metalúrgicos da carne, erigem seus novos templos orgânicos e atestam a nova fé.

2020. Em que estamos nos transformando? Não é em nós mesmos, certamente. Então, nos outros? Estamos nos transformando nos outros? E eles, por sua vez, em nós? A humanidade é autoreferente? Isso é saudável?

- Oh, mas eles são tão fofos. Eu vou querer dois. Daqui a pouco é Natal, só vão sobrar Ratorelhas…

Durante a noite sonhou com um homem  coruja verde de olhos de girassóis que vivia em um tronco oco da mata. Ele ora aproximava-se ora fugia da criatura que o observava imóvel.

- Não aceitamos devolução.

2020. 14/12. O Sol se põe na praça. Kin Xu Pao observa a luz escorrendo pelos paralelepípedos e não consegue parar de perguntar-se onde porra tudo isso vai dar. Ele mesmo não conhece seus pais biológicos, mas agora até essa expressão perdeu o sentido. Já outras, como Eugenia, voltaram ao léxico. Talvez, sem pais, pensa Kin, deixe de haver país, quem sabe? Como os índios. Todos tornem-se realmente responsáveis por todos, e por tudo. Mas acha que não, acha que ninguém quer isso não. Então pensa logo no pior: Escravidão 2.0!

É difícil pensar nisso, quando a gente dá-se o trabalho de pensar nisso.

Então Kin foi até um lugar mais reservado, desfez o embrulho, abriu as duas grades da caixa e mandou-se. A primeira coisa que aconteceu foi um sair, o outro não, e o que saiu entrar no lado do outro e o devorar. Mas Kin já estava longe da praça, quase em casa. Infelizmente para Kin em se tratando da humanidade nunca se está longe o suficiente. Antes de chegar em casa, parou em um bar, lá aproximou-se de um cara por achar tratar-se de um velho amigo de infância, desfeito o mal entendido acabaram continuando a conversa, este lhe pagou uma dose, Kin retribuiu a gentileza com outra rodada, e várias delas depois Kin e seu novo amigo estavam trocando confidências.

- Ei, Kin, meu amigo, tenho que lhe confessar uma coisa… Eu matei minha mulher.

- Certo. E transgenia, o que tu acha de transgenia?

- Acho coisa de viado. Para mim, se o sujeito nasceu homem tem que morrer homem.

- Não, você não entendeu.

- Quem não entendeu foi você. Eu disse que matei minha mulher. Eu fiz isso e vim para cá.

- Tem certeza que você não é o Serginho, da oitava bê do Salusiano?

- Não.

- Não? Bem, é que hoje eu não soube o que fazer com as últimas novidades da ciência, sabe…

- Eu tenho um i pod.

- E eu tinha dois coelhalados, mas abandonei-os. Fiquei sem poder olhar para eles.

- Foi mais ou menos isso que senti em relação à minha mulher, também.

- Nós estamos a acelerar um trem descarrilhado, percebe?

- Não, até que era bonita. Mas peguei nojo. Ontem chamou-me de egoísta. Foi a gota d’agua… Agora tenho de livrar-me do corpo.

- Exatamente. Livrar-se do corpo. É o que acabaremos fazendo. Informação pura, sem interferências…

- Ela era muito intrometida mesmo.

- Cara, nós vamos acabar preservando nossa memória em um chip, clonando nossos corpos e vivendo para sempre.

- Tipo Faraó? Que original.

- Tu não tá entendendo o que eu digo mesmo, né?

- Se você diz…

Na saída do bar, depois que se despediram, o novo amigo de Kin  abateu-o pelas costas com uma coronhada e esvaziou-lhe os bolsos. Kin amaldiçoou o bandido que o roubou? Não. Kin Xu Pao amaldiçoou a sorte.

No leito do hospital para onde foi levado por um casal de velhos que na volta do Bingo toparam com seu corpo vazio, Kin rumina a notícia recente de que não voltará a andar sem a valorosa ajuda da ciência, se puder pagar por ela, claro. Em um canto, da tv ligada os neoprofetas mastigam chicletes de gafanhotos enquanto pregam no deserto do quarto de Kin:

“Irmãos, estamos  aqui reunidos para celebrar uma missa negra. Haverá sangue e orgia. Vai passar sábado na tv à cabo. A coisa toda consiste em auto exultar-se, o resto vem rápido e muito naturalmente. Aleluia.”

Kin muda o canal, engole alguns analgésicos opiáceos e desconecta-se. O mundo lá fora, cheio de ruído e caos entra em seu quarto de hospital pela janela de plasma. Aquilo não lhe diz respeito, absolutamente. Kin quer voar para longe da gravidade, ele quer ir para um lugar longe das leis de Newton. Mas quando fecha os olhos e a realidade dobra-se sobre si mesma, sonha com engrenagens ruidosas debulhando um terço conta à conta, lentamente, eternamente.

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Sensações e fatos sobre Beleléu

27/11/2009 · 7 Comentários

por André

Escrever resenha não é fácil. A cada texto que faço, especialmente sobre os livros lançados pelos artistas que rondam o Facada, me sinto desafiado. O primeiro problema é fincar uma opinião absurdamente subjetiva. O segundo, e mais difícil, é encontrar os argumentos para racionalizar o que em princípio é uma sensação. E, não raramentem, perceber que minha opinião primeira estava enganada. No texto sobre a Samba, minha intepretação surgiu literalmente enquanto dissecava cada história e cada autor. Coisa de iluminação, mesmo.

Estava eu torcendo para que essa luz batesse de novo — e de uma maneira menos, digamos, trabalhosa –, pois tinha em mãos mais um lançamento: Beleléu, criação coletiva de Daniel Lafayette, Eduardo Arruda, Elcerdo e Stêvz, além de convidados. Esperei a visão, mas esta não veio, então vou do jeito que vou.

Sensação 1: “Que legal! Os meninos estão construindo uma carreira legal!”

Argumento 1: Antes de Beleléu, li Quebraqueixo e a Kowalski, todas com a colaboração de um ou de outro quadrinhista da trupe do novo lançamento, bem como de Bongolê 1 e 2 e Samba. A Beleléu tem sido bem comentada em blogs e twitters da vida – foi dada como um dos melhores lançamentos de outubro pelo Universo HQ.

Sensação 2: “Será que é hora desse grupo expandir a área de atuação?”

Argumento 2: Roberta AR, editora do Facada e amiga, contou no Twitter que o Beleléu já está disponível para compra em sites especializados no exterior.

Pitaco para Argumento racional 2: E se os desenhistas e escritores do Facada pusessem os originais e exemplares de seus livros debaixo do braço e seguissem o caminho que os gêmeos Moon e Bá, fazendo contatos em feiras como a Comi-Con San Diego? Ou então aproveitassem melhor os contatos feitos em Portugal?

Sensação 3: “Cacete! Eles conseguiram uma contribuição do Kioskerman!”

Argumento 3: O desenhista em questão é argentino e seu nome tem circulado na blogosfera brasileira quase do mesmo modo — e no mesmo ritmo — do também argentino Liniers. Não posso afirmar que o Kioskerman tenha a mesma projeção do seu compatriota, mas a colaboração não deixa de ser uma prova da capacidade de aglutinar talentos da trupe de Beleléu. Em tempo: Berliac, outro convidado do livreto, também é estrangeiro. Mais um ponto pros meninos.

Sensação 4: “Putz… acabei de ler e não gostei.”

Explicação para Sensação 4: Como disse, quando peguei a Beleléu, estava no pique de Kowalski e Quebraqueixo. A sensação é que faltava algo. Só descobri o que era no dia anterior ao início da redação desta resenha. Meu cunhado botou em minhas mãos uma revista que comprara numa banca por aí. Subversos 4 é uma produção de 60 páginas, cujo nome mais conhecido por mim é o do Gazy Andraus, quadrinhista do universo independente paulista que, entre outros feitos, nomeou um símbolo criado por mim, o Arrobalão (e foi parar no meu blog semi-morto e twitter). Pois bem, me perdi em devaneios. O negócio é que a revista prendeu minha leitura por mais que o acabamento em preto e branco — e muitas de suas histórias — estivesse(m) anos luz atrás do Beleléu e senti que era aquilo que estava faltando em Beleléu: histórias. O formato maior da concorrente ajuda: 28cm X 21cm contra o quadro de 18cmX18cm. É um pensamento simplista, mas quanto mais papel, mais espaço o quadrinhista tem para contar a história. A HQ mais cumprida de Beleléu tem seis páginas daquele formatinho.
Argumento 4: Peguei o livreto para uma repassada para não cometer a injustiça de etiquetar erroneamente a Beleléu. Ok. Fui um pouco injusto: Entrega (Elcerdo) e Como uma atitude precipitada pode levar a uma boa ideia quando já não é possível colocá-la em prática (Elcerdo e Arruda), Insônia (Elcerdo) e Monstro (Gomez) são belíssimos contra-argumentos para minha sensação. Em compensação, algumas histórias tem o argumento vencido ou batido, como a tira do esquilo tostado por turbinas de um jato, das orelhas decepadas de Mickey para servir de chapéu a um moleque e Lobo Mau que mostra uma versão punk da história dos três porquinhos (todas de Daniel Lafayette). As histórias dissonantes ou levemente ininteligíveis são a minoria.

Opinião formada com base em sensações e argumentos: Vale a pena ler Beleléu e vai ser melhor ainda quando o grupo tiver mais espaço para desenvolver suas histórias e perder alguns vícios das HQs independentes.

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Os Artesãos de Dionísio – parte 1

03/10/2009 · 6 Comentários

por Hipólito José da Costa*

Os mistérios dos antigos, e as associações em que suas doutrinas foram ensinadas, foram mal considerados nos tempos modernos, mas com o propósito de desacreditá-los e ridicularizá-los.

Os sistemas de mitologia antiga foram tratados como absurdos monstruosos, rebaixando a razão humana, conduzindo à idolatria e favorecendo a depravação dos modos.

Entretanto, mais do que o esbanjamento e a ignorância com que seus corruptores os contemplaram, merece a atenção os motivos de seus inventores.

Quando os homens foram privados da luz da revelação, aqueles que deram forma a códigos morais para guiar seus companheiros segundo os preceitos de uma razão superior merecem os agradecimentos da humanidade, por mais deficientes que estes sistemas sejam, ou que o tempo possa tê-los alterado; o respeito, não o mofo, deve atender aos esforços daqueles bons homens; mesmo seus trabalhos sendo não comprováveis.

Neste ponto de vista, deve ser considerada uma associação, seguida desde a mais remota antiguidade, preservada apesar das inúmeras vicissitudes, retendo, contudo, as marcas originais de sua fundação, escopo e princípios.

Isso aparece em um período muito adiantado, alguns homens contemplativos eram desejosos de deduzirem, pela observação da natureza, regras morais para a conduta da humanidade. A astronomia era a ciência selecionada com esta finalidade; a arquitetura foi chamada mais tarde para complementar este sistema; e seus seguidores deram forma a uma sociedade ou a uma seita, que foi o objeto deste inquérito.

A continuidade deste sistema será encontrada quebrada às vezes, um efeito natural de teorias de oposição, da alteração das maneiras e da mudança das circunstâncias, mas fará suas aparências em períodos diferentes, e a mesma verdade será considerada constantemente.

A importância de calcular com precisão as estações do ano para regular a agricultura, navegação e outras necessidades, deve ter feito à ciência da astronomia um objeto de grande cuidado no governo de todas as nações civilizadas; e a predição de eclipses e outros fenômenos deve ter sido para o instruído nesta ciência motivo de respeito e veneração por parte da multidão ignorante, bem como extremamente útil aos legisladores na escrituração de leis que regulassem a conduta moral de seus povos.

As leis de natureza e as regras morais deduzidas delas foram explicadas nas histórias alegóricas, que nós chamamos fábulas, e aquelas histórias alegóricas foram imprimidas na memória por cerimónias simbólicas denominadas mistérios, e que, embora mal e tardiamente entendidas, contêm os sistemas das mais profundas, sublimes e úteis teorias da filosofia.

Entre aqueles mistérios são notáveis por sua peculiaridade o Eleusianismo. Dionísio, Baco, Orisis, Adonis, Thamuz, Apollo, etc., eram nomes adotados em várias línguas e em diversos países para designar o Divino, que era o objeto daquelas cerimónias, e admite-se geralmente que o sol estêve representado por estas diversas denominações.

Deixe-nos começar com o fato, não refutado, de que nestas cerimónias, uma morte e uma ressurreição sejam representadas, e que o intervalo entre a morte e a ressurreição fosse às vezes três dias, às vezes quinze dias.

Agora, pelo testemunho simultâneo de todos os autores antigos as deidades chamadas Osiris, Adonis, Bacchus, etc. eram nomes dados ao, ou a, tipos representando o sol, considerados em situações diferentes, e contemplados sob vários pontos de vista.

Conseqüentemente, estas respresentações simbólicas, que descreviam o sol como morto, ou escondido, por três dias sob o horizonte, devem ter sua origem em um local onde o sol, quando no hemisfério mais baixo, está, em uma determinada estação do ano, escondido por três dias das vistas dos habitantes.

Tal lugar é, de facto, encontrado tão ao norte quanto a latitude 66°, e é razoável concluir, que, de uma pessoa que vive perto do círculo polar é que a adoração do sol, com tais cerimónias, deve ter se originado; e alguns supõem que este pessoa era um Atlantide.

A adoração do sol é seguida geralmente aos ritos de Mitra, e àqueles inventados pelos Magi de Persia. Mas fazer do sol um objeto de adoração, e da preservação do fogo cerimônia religiosa, deve ser natural a um pessoa que vive em um clima congelado, para quem o sol é o grande conforto, cuja ausência no horizonte por três dias é um evento deplorável, e cuja reaparição seja uma fonte real de alegria.

Não na Persia, onde o sol nunca esconde-se por três dias, e onde seus raios estão longe de ser uma fonte de prazer, onde desviar-se deles e apreciar a sombra é reconfortante, exercendo-se para isso todo tipo de arte. A adoração do sol e da manutenção de seu fogo sagrado, consequentemente deve ter sido uma introdução estrangeira na Persia.

A conjectura é reforçada por alguns fatos importantes, que, por alusões e referências astronômicas, coloca a cena fora da Persia, embora a teoria seja encontrada lá.

No Boun Dehesch (traduzido da pág. 400 de Anquetil Du Perron) nós encontramos “que o dia o mais longo do verão é igual aos dois mais curtos do inverno; e que a mais longa noite do inverno é igual às duas noites mais curtas do verão.“

Esta circunstância pode somente ocorrer na latitude de 49° 20 onde o dia mais longo do ano é de dezesseis horas e dez minutos, e o mais curto de oito horas e cinco minutos.

Esta latitude é para além dos limites de Persia, onde a história coloca Zoroaster, a quem as doutrinas sagradas do livro persa Boun Dehesch são atribuídas. Esta proporção, então, de dias e de noites, em regra geral podia somente ser verdadeira em Scythia, nas fontes do Irtisch, do Oby, do Jenisci, ou Slinger.

Nós não sabemos nada da história daqueles Scythians ou Massagetes, mas nós conhecemos que disputaram sua antiguidade com os egípcios, e que o princípio acima, embora atribuído ao persa Zoroaster, é somente aplicável ao país dos Scythians.

Mas, deixando a origem dos mistérios do sol um pouco de lado, eles foram comemorados na Grécia, em vários lugares, dentre os quais Appollonia, uma cidade dedicada a Apollo, e situada na latitude 41° 22 ‘. 2 Nesta latitude o dia mais longo tem quinze horas, diferindo três horas do comprimento do dia em que o sol está no equinocial: o reverso dá-se com as noites.

Esta circunstância esclarecerá a preservação de três dias nestes mistérios, mesmo quando comemorado em Grecia, e igualmente para os quinze dias, ou a respresentação do número quinze em alguns dos ritos dos Eleusinianos.

Os números misticos foram empregados para designar tais e similares operações da natureza, por isso diz-se que os símbolos e os segredos pitagóricos eram emprestados dos ritos Órficos ou Eleusinianos; e que isso consistia o estudo das ciências e das artes, mais a teologia e a ética, sendo comunicados nas cifras e nos símbolos. Enunciados similares, a respeito da importação mística dos números, são encontrados em muitos outros autores.

As letras, representando números formam nomes cabalísticos, expressivos das qualidades essenciais do que querem representar; e também os gregos, quando traduziram os nomes extrangeiros, cujo significado cabalístico conheciam, fizeram-no pelas letras gregas correspondentes, a despeito de conservar a mesma interpretação nos números, que nós encontramos exemplificados no nome Nilo.

Ν {Greek N} 50

Ε {Greek E} 5

Ι {Greek I} 10

Λ {Greek L} 30

Ο {Greek O} 70

Σ {Greek S} 200

365

No número três, a que tantas alusões místicas e morais são feitas, há uma referência aos três círculos celestiais, dois dos quais o sol toca, passando sobre o terceiro em seu curso anual.

Os mistérios dos Eleusis, os mesmos de Dionysius ou de Bacchus, foram supostamente introduzidos na Grecia por Orpheus: Podendo ter lá chegado pelo Egipto, mas o Egipto pode tê-os recebido em um período precedente dos persas, e estes por sua vez dos Scythians; mas levando em consideração que nós os encontramos apenas na Grecia, daremos aqui um esboço de suas cerimónias.

O aspirante a estes mistérios não era admitido até que chegasse em uma determinada idade, e pessoas particulares eram apontadas para examiná-lo e prepará-lo para os ritos de iniciação. Aqueles cuja conduta era tida como irregular, ou que tinham sido culpado de crimes atrozes, eram rejeitados, aqueles tidos como dignos da admissão eram instruídos então por símbolos significativos aos princípios da sociedade.

Na cerimônia da admissão nestes mistérios, o candidato era primeiro levado a um quarto escuro, chamado a capela mística. Determinadas perguntas eram-lhe impostas. Quando introduzido, o livro sagrado era apresentado entre duas colunas ou pedras: ele foi recompensado pela visão: uma multidão de luzes extraordinárias eram-lhe apresentadas, algumas dignas de observação particular.

Vestiam-no em uma pele de carneiro; a pessoa oposto era chamada a revelar as coisas sagrados e era vestida igualmente em uma pele de carneiro ou com um véu roxo, e em seu ombro direito uma pele de mula manchada, representando os raios do sol e das estrelas. Em uma determinada distância estava o lanterneiro, representando o sol; e ao lado do altar uma terceira pessoa, que representava a lua.

Perceba assim que aquela assembléia era presidida por três pessoas, em funções diferentes, e nós podemos observar, que no governo das caravanas, nos países orientais, três pessoas igualmente as dirigiam, embora houvesse cinco oficiais principais, além de três matemáticos; aquelas três pessoas eram: o comandante-chefe, que governa tudo; o capitão da marcha, que tem o poder de dirigente, contanto que a caravana esteja em movimento; e o capitão do descanso, ou rafrescamento, que a governa quando parada.

Alguns autores observaram a mesma divisão de poder na marcha dos Israelitas através do deserto, sendo Moisés o comandante-chafe, Joshua o capitão da marcha; e talvez Aarão como o capitão do descanso.

A sociedade de que nós estamos falando, foi governada por três pessoas, com deveres diferentes atribuídos a eles por um costume vindo desde a mais remota antiguidade.

Os mistérios, entretanto, não eram comunicados imediatamente, mas por gradação, em três etapas diferentes. A iniciação, propriamente dita, era dividida em cinco seções, como nós encontramos em uma passagem de Theo, que relaciona a filosofia daqueles ritos místicos.

Estas cerimónias, até aqui, parecem conter mistérios menores, as duas primeiras etapas do candidato no curso de suas iniciações. Havia, entretanto, um terceiro estágio, quando o candidato simbolicamente morria, e então retornava à vida.

Neste terceiro estágio da cerimónia, o candidato era esticado sobre um leito, representando assim sua morte.

A respeito das festividades, em que aqueles mistérios foram comemorados, nós encontramos que no dia 17 do mês Athyr (Novembro, solstício de inverno) as imagens de Osiris eram encerradas em um caixão ou em uma arca: no dia 18 eram procuradas; e no dia 19 eram encontradas.

Remexendo em fábulas ou em histórias simbólicas, em relação a estes mistérios, nós encontramos Adonis massacrado e reanimado; as mulheres sírias chorando por Thamuz, etc.

Deixe-nos agora examinar o significado deste simbolismo de morte e ressurreição, ou de certos personagens, que visitavam o Hades e retornavam.

Parece que esta prática, em todas as suas várias formas e denominações, representa a passagem do sol pelo hemisfério mais baixo, e seu retorno à parte superior.

Os egípcios, que praticavam esta adoração do sol, sob o nome de Osiris, representaram o sol na figura de um homem idoso, imediatamente antes do solsticio de inverno, e representavam-no por Serapis, tendo a constelação de Leo oposta a ele, a Serpente ou Hydra sob ele, a de Lobo a leste da de Leão, e a de Cão no oeste. Este é o estado do hemisfério sul na meia-noite desse período do ano.

Os mesmos egípcios representaram o sol pelo menino Harpocrates, no equinócio vernal; e era então a festividade da morte, do enterro, e da ressurreição de Osiris; que significa o sol no hemisfério mais baixo; retornando, e nascendo no hemisfério superior.

Nesta situação superior o sol foi chamado Horus, Mitra, etc. e saudado como sol invictus. Nós indicaremos agora alguns outros símbolos para expressar os mesmos fenômenos, embora diferentes dos tipos que nós tratamos até agora.

Nos monumentos astronômicos de Mitra, onde a figura de um homem é representada conquistando e matando um touro, há duas figuras em seus lados com tochas; uma que aponta para baixo, a outra para cima.

Nestes monumentos, onde os mistérios em questão foram descritos, o homem que mata e que conquista o touro, representa o sol, passando ao hemisfério superior, através do signo de Touro, que nesse período remoto (quatro mil e seiscentos anos antes de nossa era) era signo equinocial. Os dois lanterneiros, apontando suas tochas para baixo e para cima, representam o sol que desce ao hemisfério mais baixo, e retorna outra vez.

Em um tempo ainda mais remoto que o aludido, no equinócio de verão, o sol encontrava-se no signo de Touro, e o ano começava neste período para os astrónomos egípcios. Mais tarde, em decorrência da precessão dos equinócios, o equinócio do verão ocorreu no signo de Aries; quando parte dos egípcios transferiu sua adoração do touro ao cordeiro; enquanto outros continuaram a adorar o touro.

Nós podemos explicar este na língua de nossos astrónomos modernos dizendo, esses alguns dos egípcios instruídos continuaram a contagem pelo zodíaco móvel, quando outro contavam o ano pelo zodíaco fixo; e esta circunstância produziu uma divisão das seitas nos povos, porque era uma divisão de opinião.

Do mesmo modo, pela mesma precessão dos equinócios, o sol passou de Aries a Peixes no equinócio vernal, em aproximadamente trezentos e trinta e oito anos antes de nossa era; contudo o começo do ano continuou a ser contado do Aries. Se a astronomia e a religião egípcias existissem então com o mesmo vigor, talvez sofressem uma alteração similar; mas os sistemas egípcios nesse período estavam quase aniquilados. Nós podemos observar, entretanto, que os cristãos, no início de nossa era, marcaram seus túmulos com peixes como um emblema da cristandade, para distinguir seus sepulcros dos sepulcros pagões.

Retornando desta digressão curta a nossa finalidade imediata, nós temos que observar, que se aquelas cerimónias e símbolos representavam o sol e as leis de seus movimentos, estes fenômenos da natureza foram estudados de um ponto de vista moral, como sendo eles mesmos representações de uma filosofia mais sublime ou mais metafísica; e as regras morais deduzidas daí foram imprimidas na memória por aquelas imagens e respresentações vívidas.

A imersão do sol no hemisfério mais baixo, e seu retorno foram contemplados como uma prova ou como um símbolo da imortalidade da alma; um dos mais importantes, assim como um dos mais sublimes princípios da filosofia platônica.

*Hipólito José da Costa (Colônia do Sacramento, 13 de agosto de 1774 — Londres, 11 de setembro de 1823) foi um jornalista, maçom e diplomata brasileiro, patrono da cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras. Ele foi preso por ser maçom pela Inquisição em Portugal em 1802, fugiu em 1805 e se estabeleceu em Londres. Escreveu um livro de dois volumes sobre as suas experiências, Narrativa da Perseguição, em 1811. Publicou o primeiro jornal brasileiro, o Correio Braziliense ou Armazém Literário, (1808-23), e é conhecido como “o fundador da imprensa brasileira”.

Este ensaio, publicado em 1820, foi uma tentativa de provar que a Maçonaria moderna é derivada das antigas idéias filosóficas e religiosas gregas.

Traduzido por Biu do original em inglês

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William Blake Experience

04/09/2009 · 3 Comentários

*
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Introdução

Atentos ao bardo inspirado!

O ontem, o hoje, o amanhã ora vos digo.

Eis que ouvi o enunciado

Pelo verbo sagrado,

Que caminhou pelo pomar antigo,

No orvalho da noite a chorar,

E a convocar de volta a alma perdida;

Que pode controlar

Até o polo estelar,

E também renovar a luz caída!

Retorna, oh Terra, vem agora!

Deixa a relva orvalhada em que tu dormes;

A noite vai embora,

E já desponta a aurora

Das massas sonolentas e disformes.

Não queiras mais te afastar.

Por que alguém como tu se afastaria?

Todo o chão estelar,

Toda a costa do mar,

Hão de ser teus até que rompa o dia.”

blake3O torrão e o Seixo

O Amor jamais a si quer contentar,

Não tem cuidado algum com o que é seu;

Sacrifica por outro o bem-estar,

E, a despeito do Inferno, erige um Céu.”

Esse era o canto de um Torrão de Terra,

Pisado pelas patas da boiada;

Mas um Seixo, nas águas do regato,

Modulava esta métrica adequada:

O Amor somente a si quer contentar,

Atar alguém ao própio gozo eterno;

Sorri quando o outro perde o bem-estar,

E, a despeito do Céu, ergue um Inferno.”

(mais…)

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Cenas de um dia daqueles

28/08/2009 · 3 Comentários


por Mauro Castro*

Cena 1 – O Bugio é um taxista de estilo clássico: bigode bem aparado, gel no cabelo, barriga de chope e um inseparável palito no canto da boca.

Dia desses, estávamos eu e o Bugio no ponto quando duas jovens bonitas passam pela calçada. Depois de uma breve conversa entre elas, uma das garotas chega até o Bugio e pergunta se poderia fazer uma foto ao lado dele.

Enquanto a outra pega a máquina fotográfica, Bugio se prepara ao lado da jovem. Ajeita a camisa, encolhe a barriga e, claro, joga o palito fora, ao que a garota olha pra ele e diz:

– Ah, deixa pra lá, sem o palito na boca não tem graça!

.

Cena 2 – Em uma dia de serviço fraco, uma passageira embarca no táxi e diz que precisa ir até o teatro da Fiergs, do outro lado da cidade. Finalmente uma corrida boa.

Quando vou engatar a primeira marcha, para um carro ao lado do meu táxi com uma mulher ao volante. Ela abre o vidro, explica que não é de Porto Alegre e me pergunta como faz para chegar ao teatro da Fiergs. É claro que minha passageira avisa à estrangeira que também está indo pra lá. Minha futura cliente se desculpa, passa para o carro da mulher perdida e me deixa no ponto, chupando o dedo.

.

Cena 3 – Minha colega Luciane está em uma perseguição. No banco de trás do táxi, a esposa traída pede que ela não perca o carro do marido de vista. Em um sinal fechado, Luciane é obrigada a parar o táxi ao lado do carro do marido. A esposa abaixa-se no banco de trás.

Está calor, os dois carros estão com os vidros abertos. O marido, então, pega o celular e faz uma ligação. O aparelho da esposa, com o volume no máximo, toca no táxi ao lado.

Ele olha para a Luciane, que, prontamente, pega seu celular, como se fosse ele que estivesse tocando. Enquanto minha colega fecha os vidros, a mulher atende à ligação do marido no banco de trás. Maior sufoco!

E há gente que ainda acha que vida de taxista é fácil
.
* Mauro Castro é taxista em Porto Alegre e é conhecido na internet por seu blog Taxitramas, em que publica crônicas sobre o cotidiano do seu ofício. Entrevistamos ele por aqui há alguns anos.

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Carta aos republicanos desconfederados

21/08/2009 · 3 Comentários

Por DigóesX*

Uma visão do Brasil musical

Ave tu ouvinte do irracional!
Em um Carnaval de rumores há música para meus ouvidos.

Olá como estão? Espero que muitíssimo bem e bem continuem quando nossos caminhos separarem-se, não que tenha que ser para hoje ou para amanhã, mas que venha quando lhe for apraz, não é verdade. É preciso falar-lhes um pouco o quanto cansa estar a par de tantas injustiças, não que vocês tenham que resolver, porém que apenas saibam que: Tão cansado estou, um misto de Atlas e Sísifo, não um cansaço físico ou mental, mas espiritual. Esta vida que até agora empreendi como músico (para os comuns) ou até mesmo tocador (como preferem os formados) é algo tão ilógico quanto é lutar para se formar na universidade, mas é uma vida de percalços, literalmente uma ida ao consultório, esta é a vida de músico.

O que faz movimentar o rock no Brasil na verdade: O underground? O inconsciente de ser um ídolo? O público? O desejo de hipnotizar o público feito Jim Morrison; de ser o eterno comedor de morcegos; de ser perseguido por multidões como os Beatles? Será que, o que faz sobreviver é tão somente uma incoerência entre o desconhecido e o reconhecido, onde por décadas esse tal de „rockeiro‟ foi um elemento aportuguesado como o que trazia a alcunha de inimigo público, um indivíduo desconhecido dos pais pelo o que fazia na calada da noite, mas bem reconhecido pela polícia como elemento anti-político? (Porque acredito que misturaram por falta de conhecimento o mainstream norte-americano porra-loca de visual punk com os punks?).

Será que o fim de uma geração plural e „ativista‟ (não importa quais grupos) gerou a visualização e uma corrida para um mainstream louco e sem noção baseado no imaginário popular de como é ser uma banda gringa e que precisando preencher essa mesma lacuna era preciso antes de qualquer coisa esquecer-se do Tropicalismo e da MPB para correr atrás de ser um blink182 da vida? Será que a ascensão e queda dos ritmos que embalaram os anos dourados e que hoje é trilha de universitários abriram fendas na represa Roosevelt do antiamericanismo nacional/cultural inundando de forma MTVística os pensamentos Jackssianos dos novos rockeiros de que tudo vale a pena se a alma é estreita e chapada? O que se percebe é que a fonte da qual bebemos hoje é de água de torneira e como sempre estamos perseguindo um mito do qual não pertenceremos e que por incrível que pareça possuímos inclinação natural, porém a nossa maneira, mas como bem se fala: “A grama do vizinho é sempre mais verde”.

Foi urubuservando a situação das bandas de rock no Brasil, de muito tempo, que resolvi escrever e tanto foi que me veio de tanto me questionar que realmente duas frases para mim se tornaram reais e inretaliáveis acerca da realidade rockeira do Brasil em toda a sua extrema-unção social: “A juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes.” (Engenheiros do Hawaii) e “O rock brasileiro é uma farsa comercial!” (R.D.P); questões que refleti bastante e outra destas é a relação da internet como meio de divulgação e foi algo bem Freudiano me perguntar depois de horas à frente do PC o que faria e o que farei diante de tão inóspita vida conjugal? Fui a esta novidade virtual “o myspace”, pois o Orkut está „morrendo‟ e fiquei lá, saltando de página em página e muitas questões me vieram.

1º. Porque um país tão grande de contrastes extremos de sentido musical tão amplo como é o Brasil, só possui uma meia dúzia de bandas no mainstream e esta promoção em especial só coincide com a mídia televisionada e fora dela parece que nada existe?
2º. Será que esse mesmo underground endeusado está se tornando a catapulta para um mainstream pré-mainstream? Existirão dois subterrâneos da música na música? 3º> Porque sempre as tendências da moda musical ou da música da moda, diga-se de passagem, internacional importada para o Brasil, deixam rastros que em muitos casos só servem de rastro? Será que nosso rock‟n‟roll é sempre ultrapassado e por isso nunca acertamos no ponto ou quando chegamos a gravar e divulgar demorou tanto que não percebemos o tempo passar?
3º.Porque não amparamos mais outras Legiões Urbanas? Cazuzas? Sepulturas? planet hemps? Engenheiro do Hawai? Raimundos (como ressalvas pessoais)? Será que grupos ou cantores dos mais diversos e espontâneos só existem na MTV ou no Raul Gil? Será que estamos procurando de forma errônea os mitos ou criar os mitos de forma errônea?
4º. O que então é esse país carnavalesco que dinamiza tudo que absorve e que defende o fútil com garras cristãs de jesuíta catequista?

Não se trata aqui de defender o rock como algo benéfico, pois ele não é, mas apenas de liberar a passagem para que seus adeptos possam viver do que criam assim como os demais gêneros. Este gênero por mais que esteja arraigado em nossos dia-a-dia urbanos não é o nosso ritmo base da nossa sociedade visceral e é percebido que a nossa música popular é a nossa música herdada das miscigenações. Os muitos americanizados aqui (já que latinos somos nós) por não possuírem uma formação esclarecida e aceitação do seu meio social acabam por se confrontar com costumes musicais bem caseiros e isto não vos agrada por não combinar com seu tom de pele, mas isto também é outro truque do qual não iremos querer discutir aqui e sim qual o sentido do rock ser domesticado sabendo que o rock do Brasil não passa de um Padrão Estético Radical Juvenil o que é uma falha onde quem defende este tipo de questão não passa de um frustrado mesmo que tenhamos uns 60% de amadores; vejamos que há duas formas avaliadas como o êxtase do ouvinte em relação ao rock: O estilo GLAMouroso de se ter uma banda de rock; o estilo HEADBANGER de viver no rock; o estilo PUNK de se envolver com as coisas do rock e em todos os citados o que os brasileiros mais com admiração procuram é a velha máxima do SEXO, DROGAS e ROCK‟N‟ROLL.

Será que este desmerecimento musical se encontra mais por não termos algo de concreto no Brasil em relação a um ATIVISMO o que é marca noutros lugares, pois os jovens daqui muitos só entendem de Carpe Diem uma similitude do sexo, drogas e rock‟n‟roll? O jovem também não deixaria de ser um ATIVISTA/politizado por motivos de crendices religiosas onde o medo de morrer e ir para o inferno é mais cruel do que passar fome em vida e ter sua família destruída por corruptos? Bem, inúmeras questões e poucas respostas, mas o fato é que: sem o capitalismo o rock mainstream não vive, pensem nisso. Há necessidade de ser ATIVISTA para ser do rock?

Com a queda das gravadoras e ascensão da internet não melhoramos tanto assim, ainda estamos escassos e em dívida com a musicalidade brasileira de Norte a Sul, de Leste a Oeste e sem ser esta que a TV endeusa e propaga. Há uma lacuna gigantesca em relação à divulgação/público e essa redução mal aplicada do mainstream no underground está se tornando uma nova hipocrisia virtual formando novos conglomerados „S/A‟ prontos a ganharem dinheiro com as bandas e de bandas prontas a se destacarem para a mídia televisiva tudo ao sabor da moda do verão; então te pergunto quando é que você chama uma banda de underground? E ridiculariza outra por ser do mainstream? Se no Brasil já existe uma linha tênue entre a fama e a lama?

Acordem ouvintes! Ainda dormimos nesta harmonia moderna de duvidar da capacidade dos outros membros desta sinfonia social a que chamamos Brasil e que sempre deixa por pender-se nesta balança do status social pelo peso do ouro de ser reconhecidos. Manifestações sarcásticas como esta adentram como convencedores militares em nossas mentes verdes politicamente para apenas espalhar o terror das superioridades regionais. A todos lembro que: “Quem vê o futuro na verdade está vislumbrando o presente”, pois os inúmeros contratantes desta sociedade vivem na verdade é em um passado sem futuro.

Para tentarmos começar a entender alguns dos problemas que vamos criando por região e empurrando com a barriga é bom lembrarem de que o Brasil nunca se recuperou da sua má gestão nesta questão intercontinental de que somos socialmente constituídos (intercontinental no sentido de nada sabermos e nada fazemos para saber o que há dentro do Brasil de dimensões continentais), os Estados em sua maioria não possuem um formato viário de movimentação de seus cidadãos e imagine isso em relação às suas construções culturais, esta falha persiste até hoje em inúmeros locais que possuem um tato social criativo e cosmopolita e outras menores que são satélites seus nem se quer são vistos.

Uma das características desta desorganização está na manipulação dos Estados competentes para o bem estar social fazendo com que muitas localidades reduzam-se a ilhotas culturais aonde com muita luta podem ser vistos alguns seres sociais conseguindo ultrapassar estes vales da incomunicabilidade? Se não fosse a ascensão da tecnologia de comunicação estaríamos cada vez mais separados, porém jamais incomunicáveis.

A música flui por nossos corpos e suamos nossa musicalidade com hits passageiros e populistas, pois nossas vidas estão cada vez mais como os “ficas” e vão ficando os esdrúxulos com aquilo que mais fácil aparenta e vamos formando poças musicais para outros beberem do nosso dia-a-dia sonoterápico. Fazemos música só não temos logística para vendê-las e as gravadoras com seus interpretes e suas bandas desconhecidas mais serviram para nos manter fora do comércio musical mundial (uma trama?) e produtores Brasil a fora defecando idiotices musicais quase plágios daquilo que mais vendeu, fingindo entender de mercado vendendo mesmices e mediocridades rarefeitas esse é o Brasil Dantesco de hoje e sempre.

Então você se pergunta: O que é que tudo isso tem a ver com a música e eu?

a) Os velhos padrões mudaram. Tudo então pode ser refeito, mas a mediocridade musical só tende a piora.
b) A tecnologia facilita. Todos vocês podem ser vistos e ouvidos, mas só uma minoria te aceitará.
c) Tudo é música no mundo. Todos os sons e instrumentos são válidos, mas só uma minoria é confiável para criar.
d) Você pode ser seu próprio agente. Todos poderão tocar por aí, Mas o jabá jamais morrerá e a logística ainda será uma barreira entre você e os ouvintes.
Bem as questões estão aí e o princípio das conclusões também, leia, reflita e veja o que você pode fazer pelos demais!

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* DigóesX é paraibano e não faz um blog próprio porque não acredita que teria leitores para repercutir e comentar.

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14/08/2009 · 3 Comentários

Prólogo:

No momento mesmo em que você começou ler este texto, Digitus Linhares, que por ora chamaremos de Sr. Finados, abriu os olhos e viu que havia uma faca peixeira cravada até a metade em seu bucho. Algumas tripas suas tinham dado uma saidinha pela porta que a lâmina deixou aberta quando lhe trespassou e fizeram amizade com umas moscas varejeiras que passeavam por ali. O sangue havia coalhado na faca. Estava uma linda tarde de outono.

Ao tentar sacar a faca de suas entrelinhas expostas, com as cócegas que isso lhe provocava, rindo baixinho, Sr. Finados entendeu que estava morto. Escavacando um pouco sua chaga terminou por achar melhor deixar a faca lá, ao menos por enquanto, afinal ela deve estar aí por alguma razão, não é mesmo? Descobriu também, remexendo em seus bolsos, que foi vítima de um crime passional – sua carteira ainda estava lá, com um monte de cédulas dentro. E que se chama Digitus Linhares, trinta e três anos, registro geral número um cinco oito cinco dois dois cinco, natural de…

Não importa. Digitus Linhares está morto e livre deste nome embaraçoso.

Sr. Finados, então, levantou-se e foi fazer a única coisa que resta a alguém em sua atual condição: Assombrar. Estar morto não é nada de mais, mas todo mundo tem direito a um enterro, e ele também quer o seu.

EM LINHA RETA

“É como se eu estivesse morto”, pensou o Sr. Linhares com seus miolos em decomposição, fumando um careta que catou no chão, observando as pessoas passarem impassíveis por ele na rua. Ele está já a algum tempo se esforçando por lembrar-se de alguém ou alguma coisa, mas não consegue lembrar de nada nem de ninguém. Levantou-se e foi tentar achar o próprio nome na lista telefônica. Não havia mais ninguém com esse nome na cidade. Digitus Linhares achou-se a pessoa mais solitária do mundo. E no mesmo instante sentiu que estava sendo observado. Havia mais alguém ali com ele, alguém que o via, que lhe podia ver, alguém com respostas, talvez.

E no entanto o mundo ao seu redor girava de soslaio.

Digitus Linhares decidiu ir fundo nessa questão, ir mais fundo até que o própio fundo, a la crack. E depois de meditar por horas a fio chegou a conclusão de que aquilo era sem condição, não podia ser, que sua situação era absurda, ou ele existia ou não, não havia meio termo para isso. Ou havia? E se até existir é relativo?

Deu um pulinho em uma mãe de santo pra ver qual é. Não pegou nada. Dona Maria de Xangô, uma novata, não soube entender o Sr. Linhares em toda sua complexidade, rolou um frevinho momentâneo, todos passam bem.

Digitus Linhares sonhou que caminhava com uma pá a tiracolo em meio a um enorme parque de diversões. A terra encantada, o castelo de cristal, o navio pirata, a cidade adormecida, a floresta de fogo que consome almas… Entre a caverna do dragão e o país dos duendes ele parou e começou a cavar uma cova rasa onde deitou-se e começou esperar pacientemente que algo acontecesse. Esperemos…

Mais um pouco…

Nada aconteceu. Digitus Linhares acordou. A faca ainda estava lá, ele ainda estava morto: Alguém ainda o está vigiando. Talvez você. Talvez o Sr. Linhares esteja profundamente equivocado, talvez ele esteja, em sua busca pela morte, vivo, e em sua ignorância pela vida, morto, de maneira que não são os outros que não podem vê-lo, é ele que se esconde em si dos outros, que assim acabam irrelevantes nessa história, a história do funeral do Sr. Linhares. Mas os outros são os outros, e você é você, que passou até aqui a discorrer sobre as vísceras literárias de Digitus Linhares, vítima de escrutínio.

Tenha, pois, dó desse coitado e pare de esfaqueá-lo com os olhos, abandone o texto, interrompa o aruspício de Digitus Linhares, e deixe cair enfim a última pá de cal sobre a memória oblíqua desse andarilho de linhas retas em sua viagem infinita até o ponto final, deslizando em espiral pelo ralo de um buraco negro de sete palmos luz de profundidade, descendo cada vez mais fundo para dentro da próxima frase.

Epílogo:

Aqui Jaz Digitus Linhares. Sua vida foi um livro aberto.

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Salvem a Roberta!

17/07/2009 · Deixe um comentário

por Roberta

A colônia se estabeleceu naquela região. O ambiente era propício. Relevo e clima, adequados. Eram os 16 anos de Roberta, na segunda fase de sua Era Fisiológica.

No início eram poucos, que, rapidamente, se tornaram milhões, nas sucessivas gerações que habitavam a fronte. “A civilização!”, os expansionistas exultavam em seus discursos inflamados, que empolgavam a população, em especial a que vivia nos seios da face.

- Temos que chegar ao topo do osso nasal! Esse será o nosso legado às futuras gerações!

Porém este não era um discurso que convencia a todos. Roberta não era mais um ambiente tão abundante em recursos quanto no início da colonização. Os ambientalistas previam um colapso iminente no corpo, que já estava no fim da sua terceira fase fisiológica.

- Não podemos esgotar todos os recursos. Corremos o risco de provocar um aquecimento global e tornar toda a Roberta inabitável.

Marchas “Salvem a Roberta” foram realizadas nos seios da face e no osso frontal. Em represália, atos de violência foram comandados pelos expansionistas, que controlavam as forças armadas.

Exatamente neste período, a umidade aumentou consideralvemente, e os ambientalistas afirmavam que já eram os efeitos do aquecimento global. Glóbulos brancos passaram a ser mais freqüentes e dizimavam grande parte dos germes, para a ira dos expansionistas, que decidiram pelo controle total do corpo.

- Salvem a Roberta! Salvem a Roberta! – gritavam os que queriam preservar aquele ecossistema.

Mas os germes passaram a habitar em toda a parte, exaurindo os recursos rapidamente. Roberta começou a aquecer de maneira drástica, pegando toda a população de surpresa. Chegou aos 42 graus centígrados, o que gerou um tsunami fleumático, que eliminou praticamente toda a colônia.

O resultado final: o ocaso. Era o fim de Roberta, como nas previsões mais pessimistas.

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Baixe aqui…

03/07/2009 · Deixe um comentário

.. o livro A IMPORTANTE DAS PALAVRAS ORDEM É.

por Stevz*

* Stevz é brasiliense, ilustrador e músico. De vez em quando ele escreve.

Aqui também tem PDF da Bongolê #1

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3 – Uma corrida de comitê e uma longa história

26/06/2009 · 1 Comentário

por Lewis Carroll e John Tenniel*

(de Alice no país nas maravilhas)

alice10a

Aquela era com certeza uma turma estranha que se reunia nas margens do lago: os pássaros com suas plumas arrastando, os animais com o pêlo grudado no corpo, e todos pingando, irritados e desconfortáveis.

A primeira questão era, evidentemente, como se secarem: eles estavam reunidos em conselho para decidirem sobre isso e depois de poucos minutos parecia natural para Alice encontrar-se conversando familiarmente com eles, como se ela os tivesse conhecido toda a vida. Na verdade, ela travava uma longa discussão com o Papagaio australiano, que no final tornara-se zangado, e falara, “Eu sou mais velho que você, e devo saber mais.” E com isso Alice não podia concordar, sem saber a idade dele, e como o Papagaio recusava-se terminantemente a dizer sua idade, nada mais havia a dizer.

Finalmente o Rato, que parecia ser a pessoa de maior autoridade entre eles, bradou, “Sentem-se, todos vocês, e ouçam-me! Eu vou fazê-los secar.” Eles sentaram-se então em círculo, com o Rato no meio. Alice mantinha seus olhos fixados ansiosamente nele, pois ela tinha certeza que pegaria um resfriado se não secasse logo.

“Aham!” disse o Rato com um ar de importante. “Vocês estão todos prontos? Essa é a coisa mais seca que eu conheço. Silêncio na roda, por favor! William o Conquistador, cuja causa foi favorecida pelo Papa, logo submetido pela Inglaterra, que desejava líderes, acostumada à usurpação e à conquista. Edwin e Morcar, os condes de Mercia e Northumbria…”

“Ugh!”, disse o Papagaio, com um calafrio.

“Desculpe-me” interferiu o Rato, carrancudo, mas educadamente. “Você falou alguma coisa?”

“Eu não!” respondeu o Papagaio, rapidamente.

“Pensei que tivesse”, retrucou o Rato. “Prosseguindo: Edwin e Morcar, os condes de Mercia e Northumbria, declararam para ele; e ainda Stingand, o patriótico arcebispo de Canterbury, achou que…”

“Achou o quê?”, perguntou o Pato.

“Achou que”, o Rato replicou irritadamente, “é claro que você sabe o que que significa.”

“Eu sei o que que significa muito bem, quando sou eu que acho”, afirmou o Pato, “geralmente é um sapo ou uma minhoca. A questão é: o que o arcebispo achou?”

O Rato não entendeu a pergunta, mas apressadamente foi em frente: “achou que era aconselhável conhecer William e oferecer-lhe a coroa. O procedimento de William no início era moderado. Mas a insolência dos seus normandos…como você está indo, minha querida”, ele continuou, virando-se para Alice enquanto falava.

“Tão molhada quanto antes”, respondeu a menina em um tom melancólico, “isso não está parecendo me secar afinal.”

“Nesse caso”, disse o Dodo solenemente, levantando-se, “eu proponho que a assembléia seja suspensa para a adoção imediata de medidas enérgicas…” “Fale inglês”, gritou o Papagaio.

“Eu não sei o significado de metade dessas palavras, e mais, não acredito que você saiba.” E o Papagaio torceu a cabeça para esconder um sorriso: alguns dos outros pássaros riram às escondidas audivelmente.

“O que eu estava dizendo”, retomou o Dodo em um tom ofendido, “é que a melhor coisa para nós secarmos seria uma corrida de comitê.”

“O que é uma corrida de comitê?”, perguntou Alice. Não que ela quisesse mesmo saber, mas o Dodo fizera uma pausa como se pensasse que alguém deveria falar, e ninguém parecia inclinado a dizer nada.

“Bem”, disse o Dodo, “a melhor maneira de explicar isso é fazendo.”

(E, como talvez você queira tentar essa corrida em algum dia de inverno, vou contar como o Dodo fez.)

Primeiro ele delimitou a pista de corridas como um tipo de círculo (a forma exata não importa, ele dissera) e então todo o destacamento foi distribuído pela pista, aqui e ali. Não houve o tradicional “Um, dois, três e já!”, mas todos começavam a correr quando queriam e paravam quando queriam, daí não era fácil saber quando a corrida terminava. Entretanto, quando eles já estavam correndo há mais ou menos meia-hora, e já estavam quase secos, o Dodo repentinamente gritou: “A corrida está acabada”.

Então, todos se aglomeraram em torno dele, ofegando e perguntando:

“Mas quem ganhou?”

Essa pergunta o Dodo não poderia responder sem pensar muito, e ficou parado um bom tempo com um dedo sobre a testa (a posição na qual você normalmente vê Shakespeare nas gravuras) enquanto o resto do pessoal ficava em silêncio.

“Todos ganharam, e todos devem ganhar prêmios.”

“Mas quem dará os prêmios?”, um coro de vozes perguntou.

“Ora, ela, claro”, respondeu o Dodo, apontando Alice com o dedo, e já toda a turma rodeava a menina, gritando de maneira confusa: “Prêmios! Prêmios!”

Alice não tinha a menor idéia sobre o que fazer, e, em desespero, colocou a mão no bolso e puxou uma caixa de confeitos (felizmente a água salgada não entrara nela), e distribuiu as balas como se fossem prêmios. Deu na conta exata, um para cada um.

“Mas ela precisa ganhar um prêmio também”, lembrou o Rato.

“É claro”, replicou o Dodo solenemente. “O que mais você tem no bolso?”, e se virou para Alice.

“Apenas um dedal”, respondeu a menina tristemente.

“Dê-me”, pediu o Dodo.

Então novamente eles a rodearam, enquanto o Dodo solenemente a presenteava com o dedal, dizendo:

“Nós gostaríamos que você aceitasse esse elegante dedal”, e ao final desse pequenino discurso, todos o aplaudiram.

Alice achou a coisa toda muito absurda, mas eles pareciam tão sérios que ela não ousou rir, e, como não podia pensar em nada para dizer, simplesmente fez uma reverência e apanhou o dedal, parecendo o mais solene possível.

A próxima coisa a fazer era comer os confeitos; isso causou algum barulho e bagunça, pois os pássaros grandes reclamavam que não podiam saborear os seus e os pequenos engasgavam e tinham que levar palmadas nas costas. Entretanto, afinal todos terminaram e sentaram-se em círculo, pedindo ao Rato para lhes contar alguma coisa.

“Você prometeu nos contar sua história, você sabe”, disse Alice, “e o porque você odeia G e C”, ela terminou sussurrando, com medo que ele se ofendesse novamente.

“A minha é uma longa e triste história!”, disse o Rato, virando-se para Alice, suspirando.

“É uma longa cauda, certamente”, replicou Alice, olhando para o rabo do Rato com admiração, “mas porque você a chama de triste?”

Alice continuava confusa sobre isso enquanto o Rato estava falando, pois a história que ele contava era mais ou menos assim:

O Monstro disse

ao rato,

Que ele

conheceu

em casa,

“Vamos

logo para o

tribunal: nós dois

Eu vou te

processar! —Pode,

vir logo,

não vou querer

adiar nem

um minuto

o julgamento

vai ser agora

Não tenho mesmo

nada para

fazer

esta manhã.”

Disse o

rato para o

monstro, “Este

processo,

prezado senhor,

sem

júri

ou jurados,

vai ser

uma grande

perda

de tempo.”

“Eu serei o

júri. Eu

serei o juiz,”

respondeu

o esperto

Furioso.

“Eu vou te

julgar

agora

e agora,

vou

condená-lo

à

morte!”

“Você não está prestando atenção!”, disse o Rato para Alice, severamente. “No que você está pensando?”

“Desculpe-me”, respondeu Alice humildemente, “você já estava na quinta volta, não é?”

“Eu não!”, gritou o Rato com voz aguda, muito bravo. “Você não presta atenção em nós!”

“Um nó!”, disse Alice, sempre pronta para ajudar, olhando para todos os lados. “Deixe-me ajudar a desfazer esse nó.”

“Eu não disse nada desse tipo”, disse o Rato, levantando-se e andando. “Você me insulta falando estas besteiras.”

“Eu não quis dizer isso”, suplicava a pobre Alice. “Mas você se ofende tão facilmente!”

O Rato apenas rosnou em resposta.

“Por favor, volte e termine sua história!”, Alice chamava. E todos os outros juntaram-se em coro:

“Sim, por favor, conte!”

Mas o Rato apenas balançava a cabeça impacientemente e caminhou ainda mais rapidamente.

“Que pena que ele não queira ficar”, suspirou o Papagaio, e logo o Rato já estava longe. E uma velha Carangueja aproveitou a oportunidade para dizer à sua filha:

“Ah!, minha querida. Que isso lhe sirva de lição para que você nunca perca o seu humor.”

“Segure sua língua, Mãe”, retrucou a jovem Carangueja, de um jeito meio impertinente. “Você acaba com a paciência de qualquer ostra.”

“Eu queria que nossa Dinah estivesse aqui”, disse Alice em voz alta, dirigindo-se a ninguém em particular. “Ela iria logo logo trazê-lo de volta.”

“E quem é Dinah? Se é que eu posso fazer esta pergunta”, interveio o Papagaio.

Alice replicou ansiosamente, porque ela estava sempre pronta para falar do seu animalzinho de estimação:

“Dinah é a nossa gata. E ela é muito boa para pegar ratos, você nem pode imaginar…E, oh, eu queria que você a visse atrás de pássaros! Ela pode comer um passarinho tão rápido quanto olhar para ele!”

Esse discurso causou uma forte sensação entre o destacamento. Alguns pássaros fugiram: uma velha Matraca começou a se agasalhar muito cuidadosamente, observando: “Eu realmente preciso ir para casa, o sereno não cai bem para minha garganta!”

E uma Canária chamou numa voz trêmula seus filhotes: “Vamos, meus queridos! Já está na hora de vocês estarem na cama!”

Com diversos pretextos todos se foram, deixando Alice sozinha.

“Eu acho que não deveria ter mencionado Dinah”, ela disse em um tom melancólico. “Parece que ninguém gosta dela aqui em baixo, e eu tenho certeza que ela é a melhor gata do mundo! Oh minha querida Dinah! Eu queria saber se volto a vê-la algum dia! E aqui a pobre Alice começou a chorar novamente, pois se sentia muito solitária e deprimida. Em pouco tempo, entretanto, ela novamente ouviu o barulho de passos à distância e olhou ao redor impacientemente, meio que esperando que o Rato tivesse mudado de idéia e voltado para terminar a história.

alice-tennile2-hall

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*Lewis Carroll (Charles Lutwidge Dodgson 1832-1898) foi um escritor e um matemático britânico. Autor de Alice no país das maravilhas (1865), do qual extraímos este capítulo, e de sua continuação, Alice através do espelho (1872), entre outros livros.

John Tenniel (1820-1914), foi ilustrador britânico. Seu trabalho mais reconhecido são as ilustrações para as obras de Lewis Carroll: Alice no país das maravilhas, algumas delas publicadas aqui, e Alice através do espelho.

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A Ilha do Tesouro

20/06/2009 · Deixe um comentário

por Robert Louis Stevenson*

treasure-island-map

O papel havia sido selado em diversos lugares por meio de um dedal, em vez de sinete; talvez o mesmo dedal que eu havia encontrado no bolso do Capitão. O Doutor abriu o lacre com muito cuidado e de lá caiu o mapa de uma ilha, com latitude e longitude, sondagens de profundidade, nomes de colinas, baías e angras e cada particular que pudesse ser necessário para levar um barco a uma ancoragem segura em suas praias. Tinha mais ou menos nove milhas de comprimento por cinco de largura e o formato aproximado de um dragão gordo empinado sobre as patas traseiras; tinha, além disso duas ótimas localizações para portos protegidos pela terra; e uma colina na parte central marcada “A Luneta do Marinheiro”. Havia várias adições de data posteriores; porém, acima de tudo, três cruzes em tinta vermelha – duas na parte norte da ilha e uma na sudoeste. Ao lado desta última, na mesma tinta vermelha, com uma letra pequena e clara, muito diferente dos caracteres meio tortos do Capitão, havia estas palavras: ” A parte principal do tesouro está aqui”.
Na parte de trás a mesma mão havia escrito estas informações:

” Árvore, alta, flanco da luneta, tendo um ponto voltado para N de NNE. Ilha do Esqueleto ESE por E. Três metros. A prata em barra está no depósito do norte; você pode encontrá-la seguindo a senda da colina do leste, dez braças ao sul do rochedo negro que tem um rosto. As armas são fáceis de encontrar, na colina de areia a N, na ponta norte do cabo da angra, na direção E e a um quarto de N.
JF.”

Isto era tudo, mas mesmo sendo breve e, para mim, incompreensível, o Conde e o Dr. Livesey ficaram cheios de alegria.

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* Robert Louis Stevenson (1850 – 1894) publicou suas primeiras obras em 1878. É mais conhecido por A ilha do Tesouro, de 1883 – a princípio uma história para entreter seu enteado – e O Médico e o Monstro, de 1886. Morreu em 1894, de hemorragia cerebral, enquanto trabalhava em sua obra-prima inacabada, Weir of Hermiston. O mapa aqui publicado também é de sua autoria.

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