por André
Escrever resenha não é fácil. A cada texto que faço, especialmente sobre os livros lançados pelos artistas que rondam o Facada, me sinto desafiado. O primeiro problema é fincar uma opinião absurdamente subjetiva. O segundo, e mais difícil, é encontrar os argumentos para racionalizar o que em princípio é uma sensação. E, não raramentem, perceber que minha opinião primeira estava enganada. No texto sobre a Samba, minha intepretação surgiu literalmente enquanto dissecava cada história e cada autor. Coisa de iluminação, mesmo.
Estava eu torcendo para que essa luz batesse de novo — e de uma maneira menos, digamos, trabalhosa –, pois tinha em mãos mais um lançamento: Beleléu, criação coletiva de Daniel Lafayette, Eduardo Arruda, Elcerdo e Stêvz, além de convidados. Esperei a visão, mas esta não veio, então vou do jeito que vou.
Sensação 1: “Que legal! Os meninos estão construindo uma carreira legal!”
Argumento 1: Antes de Beleléu, li Quebraqueixo e a Kowalski, todas com a colaboração de um ou de outro quadrinhista da trupe do novo lançamento, bem como de Bongolê 1 e 2 e Samba. A Beleléu tem sido bem comentada em blogs e twitters da vida – foi dada como um dos melhores lançamentos de outubro pelo Universo HQ.
Sensação 2: “Será que é hora desse grupo expandir a área de atuação?”
Argumento 2: Roberta AR, editora do Facada e amiga, contou no Twitter que o Beleléu já está disponível para compra em sites especializados no exterior.
Pitaco para Argumento racional 2: E se os desenhistas e escritores do Facada pusessem os originais e exemplares de seus livros debaixo do braço e seguissem o caminho que os gêmeos Moon e Bá, fazendo contatos em feiras como a Comi-Con San Diego? Ou então aproveitassem melhor os contatos feitos em Portugal?
Sensação 3: “Cacete! Eles conseguiram uma contribuição do Kioskerman!”
Argumento 3: O desenhista em questão é argentino e seu nome tem circulado na blogosfera brasileira quase do mesmo modo — e no mesmo ritmo — do também argentino Liniers. Não posso afirmar que o Kioskerman tenha a mesma projeção do seu compatriota, mas a colaboração não deixa de ser uma prova da capacidade de aglutinar talentos da trupe de Beleléu. Em tempo: Berliac, outro convidado do livreto, também é estrangeiro. Mais um ponto pros meninos.
Sensação 4: “Putz… acabei de ler e não gostei.”
Explicação para Sensação 4: Como disse, quando peguei a Beleléu, estava no pique de Kowalski e Quebraqueixo. A sensação é que faltava algo. Só descobri o que era no dia anterior ao início da redação desta resenha. Meu cunhado botou em minhas mãos uma revista que comprara numa banca por aí. Subversos 4 é uma produção de 60 páginas, cujo nome mais conhecido por mim é o do Gazy Andraus, quadrinhista do universo independente paulista que, entre outros feitos, nomeou um símbolo criado por mim, o Arrobalão (e foi parar no meu blog semi-morto e twitter). Pois bem, me perdi em devaneios. O negócio é que a revista prendeu minha leitura por mais que o acabamento em preto e branco — e muitas de suas histórias — estivesse(m) anos luz atrás do Beleléu e senti que era aquilo que estava faltando em Beleléu: histórias. O formato maior da concorrente ajuda: 28cm X 21cm contra o quadro de 18cmX18cm. É um pensamento simplista, mas quanto mais papel, mais espaço o quadrinhista tem para contar a história. A HQ mais cumprida de Beleléu tem seis páginas daquele formatinho.
Argumento 4: Peguei o livreto para uma repassada para não cometer a injustiça de etiquetar erroneamente a Beleléu. Ok. Fui um pouco injusto: Entrega (Elcerdo) e Como uma atitude precipitada pode levar a uma boa ideia quando já não é possível colocá-la em prática (Elcerdo e Arruda), Insônia (Elcerdo) e Monstro (Gomez) são belíssimos contra-argumentos para minha sensação. Em compensação, algumas histórias tem o argumento vencido ou batido, como a tira do esquilo tostado por turbinas de um jato, das orelhas decepadas de Mickey para servir de chapéu a um moleque e Lobo Mau que mostra uma versão punk da história dos três porquinhos (todas de Daniel Lafayette). As histórias dissonantes ou levemente ininteligíveis são a minoria.
Opinião formada com base em sensações e argumentos: Vale a pena ler Beleléu e vai ser melhor ainda quando o grupo tiver mais espaço para desenvolver suas histórias e perder alguns vícios das HQs independentes.




























