Facada Leite-Moça

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Sensações e fatos sobre Beleléu

27/11/2009 · 7 Comentários

por André

Escrever resenha não é fácil. A cada texto que faço, especialmente sobre os livros lançados pelos artistas que rondam o Facada, me sinto desafiado. O primeiro problema é fincar uma opinião absurdamente subjetiva. O segundo, e mais difícil, é encontrar os argumentos para racionalizar o que em princípio é uma sensação. E, não raramentem, perceber que minha opinião primeira estava enganada. No texto sobre a Samba, minha intepretação surgiu literalmente enquanto dissecava cada história e cada autor. Coisa de iluminação, mesmo.

Estava eu torcendo para que essa luz batesse de novo — e de uma maneira menos, digamos, trabalhosa –, pois tinha em mãos mais um lançamento: Beleléu, criação coletiva de Daniel Lafayette, Eduardo Arruda, Elcerdo e Stêvz, além de convidados. Esperei a visão, mas esta não veio, então vou do jeito que vou.

Sensação 1: “Que legal! Os meninos estão construindo uma carreira legal!”

Argumento 1: Antes de Beleléu, li Quebraqueixo e a Kowalski, todas com a colaboração de um ou de outro quadrinhista da trupe do novo lançamento, bem como de Bongolê 1 e 2 e Samba. A Beleléu tem sido bem comentada em blogs e twitters da vida – foi dada como um dos melhores lançamentos de outubro pelo Universo HQ.

Sensação 2: “Será que é hora desse grupo expandir a área de atuação?”

Argumento 2: Roberta AR, editora do Facada e amiga, contou no Twitter que o Beleléu já está disponível para compra em sites especializados no exterior.

Pitaco para Argumento racional 2: E se os desenhistas e escritores do Facada pusessem os originais e exemplares de seus livros debaixo do braço e seguissem o caminho que os gêmeos Moon e Bá, fazendo contatos em feiras como a Comi-Con San Diego? Ou então aproveitassem melhor os contatos feitos em Portugal?

Sensação 3: “Cacete! Eles conseguiram uma contribuição do Kioskerman!”

Argumento 3: O desenhista em questão é argentino e seu nome tem circulado na blogosfera brasileira quase do mesmo modo — e no mesmo ritmo — do também argentino Liniers. Não posso afirmar que o Kioskerman tenha a mesma projeção do seu compatriota, mas a colaboração não deixa de ser uma prova da capacidade de aglutinar talentos da trupe de Beleléu. Em tempo: Berliac, outro convidado do livreto, também é estrangeiro. Mais um ponto pros meninos.

Sensação 4: “Putz… acabei de ler e não gostei.”

Explicação para Sensação 4: Como disse, quando peguei a Beleléu, estava no pique de Kowalski e Quebraqueixo. A sensação é que faltava algo. Só descobri o que era no dia anterior ao início da redação desta resenha. Meu cunhado botou em minhas mãos uma revista que comprara numa banca por aí. Subversos 4 é uma produção de 60 páginas, cujo nome mais conhecido por mim é o do Gazy Andraus, quadrinhista do universo independente paulista que, entre outros feitos, nomeou um símbolo criado por mim, o Arrobalão (e foi parar no meu blog semi-morto e twitter). Pois bem, me perdi em devaneios. O negócio é que a revista prendeu minha leitura por mais que o acabamento em preto e branco — e muitas de suas histórias — estivesse(m) anos luz atrás do Beleléu e senti que era aquilo que estava faltando em Beleléu: histórias. O formato maior da concorrente ajuda: 28cm X 21cm contra o quadro de 18cmX18cm. É um pensamento simplista, mas quanto mais papel, mais espaço o quadrinhista tem para contar a história. A HQ mais cumprida de Beleléu tem seis páginas daquele formatinho.
Argumento 4: Peguei o livreto para uma repassada para não cometer a injustiça de etiquetar erroneamente a Beleléu. Ok. Fui um pouco injusto: Entrega (Elcerdo) e Como uma atitude precipitada pode levar a uma boa ideia quando já não é possível colocá-la em prática (Elcerdo e Arruda), Insônia (Elcerdo) e Monstro (Gomez) são belíssimos contra-argumentos para minha sensação. Em compensação, algumas histórias tem o argumento vencido ou batido, como a tira do esquilo tostado por turbinas de um jato, das orelhas decepadas de Mickey para servir de chapéu a um moleque e Lobo Mau que mostra uma versão punk da história dos três porquinhos (todas de Daniel Lafayette). As histórias dissonantes ou levemente ininteligíveis são a minoria.

Opinião formada com base em sensações e argumentos: Vale a pena ler Beleléu e vai ser melhor ainda quando o grupo tiver mais espaço para desenvolver suas histórias e perder alguns vícios das HQs independentes.

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Sinais

06/03/2009 · 1 Comentário

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A revista do crioulo doido

30/01/2009 · 2 Comentários

por André

É feio começar uma resenha elogiando os aspectos técnicos da publicação? Bah… Duvido que o leitor – ou os autores – de uma revista que tem um luchador na capa seja tão sensível a ponto de se incomodar com uma indelicadeza dessas. Então aqui vai: SAMBA, HQ feita por oito desenhistas e três escritores, tem um acabamento como raras vezes vi em edições independentes ou não. Belíssimas cores. Belíssimo papel. Pode falar palavrão no Facada, não pode? Pode: puta acabamento!

Bão, depois de justificar o jabá que o Sr. William Expresso da Expresso Gráfica forneceu ao escriba, vamos à programação normal. Samba é uma bela compilação de histórias (pô, se eu não dedicasse um “belo” aos autores, iria ser linchado ou teria que devolver meu exemplar!), então vamos por partes:

Capa – Tá lá: Samba, el luchador. O homem. O mito. A lenda, em toda sua suada glória. Gabriel Góes é responsável pela pintura. Não dou para crítico de pinturas que não sejam de pequenos quadros sucedidos por outros em temas lineares, sequencialmente. Só posso então elogiar o talento, porque a capa ficou muito bonita e marcante. Vale a reflexão: quantos quadrinistas também não são ótimos artistas plásticos, não? Se não me engano, o Dahmer também pinta, bem como o Kipper (saudade da Escola de Deusinhos) e Orlando.

Daqui pra frente, então, vão comentários por autores, ok?

André Valente escreve um engraçado manual sobre como um menino pode, digamos, satisfazer seus instintos mais primitivos e proporcionar prazer a si mesmo em cinco lições. O ponto alto são as variações das posições manuais para a execução do ato sexual solitário: o “Spock” e “A Surpresinha de Gengibre”.

Biu é o biógrafo do homem, do mito e da lenda. É ele quem acompanha os últimos suspiros do homem, do mito e da lenda. Talvez porque conheço essa figuraça, mas Biu é um dos poucos escritores que ao ler seu texto é como se o próprio estivesse falando dentro da sua cabeça. Outro assim, só o João Ubaldo Ribeiro. Não sei se já escrevi sobre isso, mas aqui foi de novo.

Eduardo Belga ilustra o que parece ser o fim do monstro que matou o Capitão Átomo (de Gabriel Mesquita). Em amplos painéis que tomam a página toda, Belga disseca uma espécie de Godzilla em ritual xamânico. Apesar da referência pop de Bob Esponja e da estrela-do-mar Patrick em franco processo de digestão, o traço me lembrou Geiger e Goya. E ele também usa uma figura de linguagem que outro desenhista da Samba usou e me deixou intrigado. Mais sobre o assunto, pule para o verbete, Gabriel Góes.

Gabriel Góes é o desenhista que mais páginas têm na revista. Suas histórias vão de uma perseguição policial a uma ficção-científica digna de Métal Hurlant. Não deixo de associar Epílogo ao mote do conto Cartas a uma senhorita em Paris, de Cortázar – e aqui está o ponto que o liga a Belga. Na história do escritor argentino, o personagem vomita coelhinhos. Góes ilustra um personagem que vomita um pássaro e que, por sua vez, vomita um diamante. Por mais nojento que seja, a metáfora é interessantíssima e linda à sua maneira. Na última página de Belga, uma figura semelhante é usada: o monstro expele o Bob Esponja que expele o Patrick que expele uma ostra que expele uma pérola. Será uma necessidade dos artistas mostrar que no fundo de seus argumentos mais pesados e traços mais brutos há uma mensagem bonita? Não sei, mas que faz pensar, isso faz.

Gabriel Mesquita faz o Capitão Átomo, uma inspirada HQ da Era de Ouro dos Quadrinhos. A coisa toda é tão bem feita que até agora não consegui descobrir se o material é original ou se é uma paródia sobre alguma revista já publicada – segundo o Universo HQ, o personagem original é uma criação de Joe Gill, um quadrinista que faleceu em 2007, aos 87 anos. As cores reticuladas lembram demais as pulps e os primeiros gibis impressos coloridos por essas bandas. O único ponto dissonante, claro, é o triste fim do personagem principal, que é literalmente frito pelo monstro que depena e devora mocinhas indefesas.

LTG é o segundo artista mais frequente de Samba. Desenhista de traço solto, LTG segue uma linha urbana de quadrinhos, mais o menos a Escola dos gêmeos Moon e Bá. Os personagens são possíveis. As conversas são possíveis. Você pode encontrá-los nas ruas, nas baladas. Particularmente, gosto muito desse tipo de HQ. A última capa também é dele e quem aparece novamente é o monstro aquático que matou o Capitão Átomo e foi dissecado pelo Belga. Nota pessoal: interessante como à primeira leitura esses temas recorrentes não apareceram!

Luda traz as cores mais vistosas em suas aquarelas – chutei a técnica (Luda, me desculpe se não for!). Acho que não tem outra palavra para definir a estilo dela a não ser “burlesca” (Tá, Luda, é quase o título da sua história, mas foi o que me ocorreu… aliás, foi uma palavra que me ficou de uma conversa com Roberta AR exatamente sobre… sim, você!). A quadrinista faz um desfile de pinups apetitosas (em todos os sentidos), exceto por um(a).

Mateus Gandara ataca outro daqueles temas recorrentes e retoma o beduíno e a paisagem desértica de Rockets de Gabriel Góes (aquela que parece Métal Hurlant). Só que Gandara faz uma conexão ainda mais clara com o dia-a-dia das cidades. Nota pessoal II – o retorno: CAZZO! Claro! Brasília é o deserto… lembre-se da pág. 47 do LTG! Cara, o Samba tem camadas e mais camadas!

Roberta AR narra um conto de Florinda, uma espécie de neomaso (googlei já) Macabéa. Passista frustrada que dedica uma vida ao sonho de se tornar mulata do sargentelli. Talvez pela formação de jornalista, Roberta é substantiva o suficiente para que não se apague a criatividade daqueles que tiram histórias e personagens do chapéu. Coisa que, pessoalmente, acredito que perdi entre uma matéria e um artigo, o que é um tanto triste.

Stêvz desenha os dois quadrinhos que me fizeram entender toda a temática da revista. Esqueça figuras de linguagem do realismo fantástico e o monstro aquático. O insight veio da penúltima frase do one man band que inveja o sapateador Alfredinho (seu alter-ego): “Seria trágico se não fosse patético!” Claro! Estava lá na capa o tempo todo! O que Samba traz é o embate entre essas duas forças: a tragédia e a comédia. Essa história deveria encerrar o álbum. Um twist ending digno de Shyamalan (em seus áureos tempos). Genial!

Tiago Lacerda é dono de um traço sexy. Ou terei me deixado levar pelas beldades que dominam duas das suas três páginas? Fiquei com vontade de ler histórias mais longas de Lacerda.

Vitor Brandt ilustra ou desenha junto com Gabriel Góes a segunda revista dentro de Samba (a primeira é Capitão Átomo, você não leu a notinha sobre o Gabriel Mesquita?). Billy Soco é um Menino Super-Poderoso from hell que enfrenta um mecha do Homem de Ferro do Mal. A história parece ter sido desenhada por um menino de 12 anos, mas que não deixa nada a desejar em ritmo e estilo. E aqui de novo o pega entre o trágico e o cômico, mais na técnica do que no enredo.

Samba, enfim, é só (tudo) isso.

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Rio à vista

12/12/2008 · 1 Comentário

por André

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Facada na Mônica

05/09/2008 · 2 Comentários

por André

Arrependei-vos! O Dia do Juízo Final está próximo, senhoras e senhores! O Cascão tomou banho. A Magali abandonou a melancia. Cresceu cabelo no Cebolinha. A Mônica aplacou sua fúria. E, sim, o Facada se rende a um meme da blogosfera: descer a boca no lançamento de Maurício de Souza. A Turma da Mônica Jovem é a revistinha que mostra a adolescência dos personagens e cuja leitura pode justificar uns bons anos de análise. Convenhamos que não é sempre que vemos o Cebolinha entre as pernas de uma sinuosa Mônica – fora de uma tijuana bible.

Para falar a verdade, eu desisti da versão clássica há algum tempo: as histórias tinham se tornado muito repetitivas. Nesta retomada generalizada de interesse, resolvi peitar meu preconceito e no mesmo dia em que comprei a versão adolescente, puxei um gibi do Chico Bento para ver a quantas andava. O que li: Dona Marocas encara, sem susto ou medo, a Mula-sem-cabeça, o Saci e o Lobisomem. Aí chega em casa e se põe a corrigir provas. O Chico tira dez e ela cai desmaiada.

Quantas vezes, meu dileto facada-boy, você já leu algo semelhante nos últimos 30 anos?

A Turma da Mônica Jovem tenta renovar os batidos enredos e no traço. Vamos para a briga: para começar, vejo um certo erro de estratégia comercial. A turma criança é uma leitura unissex e isso funciona para o tipo de história que a HQ se propõe. Agora, quando o foco é adolescência, a coisa muda de figura.

Um moleque quer ver a cinturinha definida da mãe da Mônica (a MILF mais famosa dos gibis brasileiros) e de quebra encontrar alguma aventura com poderes mágicos sendo evocados com papiros. As meninas querem uma companhia para adolescer, personagens com quem rir a cada constrangimento do processo – coelhadas no pai que entra no quarto sem bater – e que suspire com amores platônicos. Ou vice-versa. Tempos loucos os nossos. O problema é que tudo isso está na Turma Jovem e não vejo muita harmonia em todos esses elementos.

O traço mangá também cai nesse problema. Pela escola japonesa, os quadrinhos para meninos e para meninas têm diferença no traço. Enquanto os primeiros (shonen) forçam a mão em personagens mais musculosos e erotizados, os segundos (shojo) usam figuras mais alongadas e românticas. A nova revista também não fica nem lá nem cá e abusa muito dos recursos gráficos do humor mangá.

Em favor do lançamento está o editorial em que se assume o caráter experimental da coisa e, particularmente, a reverência a alguns poucos elementos dos personagens clássicos – adorei a primeira cena em que só se vê uma mecha de cabelo da Mônica já crescida dormindo, mas que levava a crer que estávamos ainda na criança.

A solução para o imbróglio já está nas mãos dos criadores do estúdio Maurício de Souza. Os caras que criaram o Lostinho (paródia do seriado com os personagens da turma) e subverteram tantos clichês da série clássica, com tanta criatividade, poderiam repetir a dose. É só querer.

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Haicais

08/08/2008 · 1 Comentário

por André

Mini-saia
a menos um
vira cocar?

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Ô, Fortuna!
Vi. Tá detestabilis…
Rô? Tá tu volubilis?

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Ex-cara-velho
vi um japonês
num fusca amarelo

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Humor científico

04/07/2008 · Deixe um comentário

por André

Castelo Branco. Rodovia de alta velocidade. 100 km/h… 120 km/h… Ele pára no acostamento. Talvez tocasse algo no rádio. Talvez um programa jornalístico, contando como o trânsito fluía bem naquela manhã de domingo. Tinha algo a provar. Olhar perdido. Pela janela aberta sentia o vento dos carros que passavam ao seu lado. Se fumasse, aquele seria o momento ideal para acender um. Só mesmo depois de jogar a bituca na estrada, a mente teria a frieza científica para provar a graça da piada. Estava calmo, mesmo assim. Olhou no retrovisor e esperou um intervalo para voltar à pista. Entrou e pegou a contramão. Não atravessou o canteiro. Foi pela que veio. O rádio ainda ligado daria uma nota sobre um escândalo de Brasília. Sobre ele, nada. Um carro assovia na faixa ao lado. A sensação de velocidade é maior quando se segue em sentido contrário. Deve ter se lembrado das aulas de física: as forças assim se somam. Um quilômetro e, no rádio, nada dele. Outro passa. A buzina de alerta segue num crescendo, fortíssimo e diminuendo. Palavrão. E ele lá e uma propaganda. Dois quilômetros. Os motoristas, ao vê-lo, freiam e jogam para o acostamento. Três quilômetros e começa a procurar onde pode estar seu erro e onde o português acertou. Um ônibus quase o acerta em cheio. Faltava o último fator da equação. Em condições normais de pressão e temperatura, deveria escutar, no jornal, o repórter aéreo avisar: “- Atenção motoristas que trafegam pela Castelo Branco. Tem um louco correndo na contramão”. Ceticamente retrucaria: “Um não, são dezenas”, registrando qualquer alteração do seu humor e  a eficácia de sua blague. Quatro quilômetros. Um caminhão que vinha a oitenta com barras de aço, não conseguiu sair. O comediante cientista morreu poeta atrapalhando o tráfego.

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09/05/2008 · Deixe um comentário

por André

Vídeo experimental
de André Rafaini

Edição: Roberta AR
Música: Going Back, Queen
Brasil – 2008

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“Diga que isso não é verdade, Plucky” ou Porque deixar de assistir ao CQC

25/04/2008 · Deixe um comentário

por André

Em um episódio do Tiny Toon Adventures, um ratinho, que tinha verdadeira adoração pelo Plucky Duck (versão mirim do Patolino), descobria que seu herói não era tão perfeito como pensava. Ao testemunhar um acesso de baixeza do ícone, arrasado pelo fim da ilusão, pedia com lágrimas nos olhos: “Diga que não é verdade, Plucky! Diga que não é verdade!”.

Pois eu estou meio assim. Explico: o Marcelo Tas quebrou meu coração. Explico ainda mais: como fã do genial Ernesto Varela e ex-aluno do Prof. Tibúrcio, vibrei com a volta do Tas à televisão com o Custe o que Custar (CQC), na Bandeirantes. Formato criado pela televisão argentina, o CQC é um Pânico com muito mais inteligência, acidez, graça e menos garotas de biquini. O programa é realmente impagável.

Bem, foi até que começassem a brincar com coisa séria. Na edição de 14 de abril, com o visível sucesso de audiência (parece que atingiram a meta de 3 pontos no Ibope muito antes do previsto), veio o olho grande da publicidade. Nesse dia, uma vinheta com toda a identificação visual do CQC estampava, antes mesmo dos comerciais, a logo de uma cerveja. Não é preciso muito para entender que a tal bebida quer associar todas as qualidades de inteligência do programa com suas propriedades etílicas e vender aos jovens a idéia de que beber é legal.

Tá, a opinião é careta pra caramba. Eu não poderia ter outra ao saber ao saber que 16% dos adolescentes entre 14 e 17 anos já bebem muito (cinco doses diárias ou mais) e que o índice sobe para 40%, entre 18 e 24 anos. Ora, desses 40%, 53% disseram que por isso enfrentaram problemas de ordem familiar, profissional, etc. Está tudo lá na pesquisa da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), que dá para ser baixada aqui. Isso é muito sério.

Agora vamos à parte “Diga que não é verdade, Plucky”. Como raios, o Marcelo Tas, engajado do jeito que é e tendo princípios tão sólidos como os tem, poderia apresentar um programa que direta ou indiretamente contribui para esse quadro? Não costumo me manifestar, mas pelo estranhamento, fui ao Blog do Tas. Deixei lá meu comentário. A resposta: “André, nada temos contra cerveja. Nem contra o fato da TV necessitar de patrocinadores para podermos ser remunerados para levar o programa até vocês.” Só. Ponto e vamos seguir em frente. Retruquei no mesmo dia. Outra saída pela tangente: “André, não defendemos ‘causa’ alguma. É apenas um patrocinador do programa. Não vejo mal nenhum em tomar cerveja. Qualquer coisa em excesso é prejudicial. Até ficar navegando na internet.” (Comentários do post
http://marcelotas.blog.uol.com.br/arch2008-04-01_2008-04-15…)
Por tudo o que o caso representa, pensei em fazer a minha parte. Comentários no blog não resolveram. E-mail para a emissora, tampouco. Vou parar de assistir e torcer para que mais o façam.

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Resenha – Pessoas que usam bonés-com-hélice

14/03/2008 · Deixe um comentário

por André

Dizem por aí que todos temos um preço. O meu atende pelo nome de Pessoas que usam bonés-com-hélice (às vezes muda para a coleção completa de tiras do Calvin ou o Playstation 3, assumo). De modos que fiquei um par de minutos acariciando o livro de José Carlos Fernandes (Editora Asa, 46 páginas), assim que tirei a belezinha do envelope. É verdade. Ganhei assim de mão beijada da editora-amiga deste Facada e cá está a resenha – outras virão!

Sou fã deste autor português há algum tempo. Não me lembro bem quando encontrei o primeiro número da Pior Banda do Mundo – o quiosque da Utopia. Demorou um pouco para me conquistar. Não é uma HQ (ou BD) fácil. Fernandes tem a capacidade única de cruzar referências e de tirar da cartola personagens escalafobéticos. É fácil encontrar conceitos de física, lingüística, música e filosofia escondidos nas entrelinhas e isso me toma lá uma certa energia para decifrar. Não raramente é preciso ler bem mais de uma vez todo o livro para apreender todo o humor sutil e ácido.

Assim, foi uma surpresa ler Pessoas que usam bonés-com-hélice, um livro leve e um tanto mais acessível. As referências cruzadas estão lá – tenho certeza de que encontrei algum componente da Banda –, bem como os conceitos trans-disciplinares (fui longe?), mas é bem mais palatável especialmente para mim que geralmente reservo as horas pré-sono para botar a leitura em dia. Pessoas… é um exercício de coesão. Fernandes desfila sua galeria de freaks em quadros que ocupam toda uma página, dedicando este espaço para piadas fechadas isoladas sobre cada um dos seus personagens de estranhas manias – como um tal que odeia tanto cachorros a ponto de se comportar como um – e invenções escabrosas ¬– como o impagável capacete que avisa segundos antes do impacto de um meteoro, mas não diferencia asteróides de “caganitas de pombas”. O desenho faz jus aos outros trabalhos do desenhista, mas exagerando sensivelmente no tamanho das cabeças. Seria uma tentativa de desvendar onde as pessoas armazenam tantas idiossincrasias, pequenas manias, obsessões e estranhezas? Em certo momento, aqueles olhões começam a te mirar de volta. Será que eles estão nos lendo também?

Bom, tudo isso para concluir: é uma legítima obra-prima de Fernandes? Sim, senhor – o cara já é um clássico, convenhamos. Vale a segunda e terceira leitura? Yup. O problema é um: como conseguir essa perolazinha sem que uma querida amiga traga de Lisboa?

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A salvação pelos zumbis

01/12/2007 · Deixe um comentário

por André

Ao meu lado, a afilhada pálida de uma amiga. Não é difícil perceber que algo não vai bem com ela. Como se não bastasse o sangue coagulado na roupa, de sua barriguinha sai a ponta de uma broca que perfura a pele fina. “Engoliu uma furadeira”, me explicam. A menina, todavia, caminha, acompanhando a marcha manca e capenga de um exército. Bom a denominação não é tão pertinente, pois de um exército se exige uma certa ordem e hierarquia. Os únicos pontos consensuais do grupo eram a direção da marcha, o apetite por carne viva, gemidos e ocasionais grunhidos: “Miooooooooooooolos”.

Imagino qual não seria a reação das pessoas que ainda não tinham sido mordidas por um zumbi e viam o desfile em plena Avenida Paulista. Ah, sim… faltou dizer que aquelas centenas de pessoas eram mortas-vivas. Todas com sua causa mortis um tanto aparentes. Ossos fraturados, olhos pendurados por fiapos de carne, membros enrijecidos, pescoços degolados, pulsos cortados, peitos arrombados. Elvis estava lá, bem como Cristo, Jason, Freddy Krueger e o Ash, que na verdade chegou um tanto atrasado e teve de correr atrás do grupo. Vejam aqui

e aqui

Assim foi a segunda Zombie Walk, que aconteceu no último Dia de Finados, na Avenida Paulista, reunindo zumbis, recém-infectados e simpatizantes. Só vendo. Quem acompanha o Facada deve lembrar uma resenha de 18/11/05, em que contava minha descoberta desse filão do terror. Três anos depois, virei fã.

No mais, a parada dos zumbis me acendeu outra luzinha. Sou meio afeito a um certo otimismo deslavado, então eu vi a luz: enquanto tiver gente disposta a se fantasiar de morto e parar uma faixa da Paulista na paz, o mundo estará salvo. Conclusão a que chegou – por outras vias, frisa-se – Marcelo Coelho, colunista da Folha de S.Paulo e ex-professor de dois colaboradores do Facada, ao comentar os nomes inventivos com os quais a Polícia Federal (PF) batiza suas operações:

Nada seria mais chato do que um código alfanumérico qualquer para identificar as operações da PF. No fundo, o que há de bom nesses nomes tão arbitrários e subjetivos é a rejeição, que todos temos em certa medida, a um mundo feito exclusivamente de abstrações.
O pensamento “figurativo”, por assim dizer, que prefere imagens a letras e números, constitui sempre um sinal de vida – mesmo que venha acompanhado de um certo mau gosto.

(texto completo aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2305200720.htm – para assinantes UOL)

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São Paulo – pessoas.

11/10/2007 · Deixe um comentário

por André

Atração e repulsão. Proporcionalidade. Centro (marisa e cores), Radial Leste (alturas) e Itaim Bibi(guarda-chuva).

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São Paulo – texto e contexto

21/09/2007 · Deixe um comentário

por André

São Paulo – texto e contexto. Camada sobre camada. Mensagens para quem quiser ler no Centro (luta e internet), Itaim Bibi (shit) e 23 de Maio (gambiarra).

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