(trecho)
por Biu e Gabriel Mesquita*





…
*Gabriel Mesquita é brasiliense, desenhista e quadrinista.
A HQ completa estará na coletânea portuguesa Seitan, Seitan, Scum, a ser lançada no final de Novembro pela Edições El Pep, em parceria com a CCC.
(trecho)
por Biu e Gabriel Mesquita*





…
*Gabriel Mesquita é brasiliense, desenhista e quadrinista.
A HQ completa estará na coletânea portuguesa Seitan, Seitan, Scum, a ser lançada no final de Novembro pela Edições El Pep, em parceria com a CCC.
Categorias: QUADRINHO
Etiquetado: Biu, Gabriel Mesquita
Prólogo:
No momento mesmo em que você começou ler este texto, Digitus Linhares, que por ora chamaremos de Sr. Finados, abriu os olhos e viu que havia uma faca peixeira cravada até a metade em seu bucho. Algumas tripas suas tinham dado uma saidinha pela porta que a lâmina deixou aberta quando lhe trespassou e fizeram amizade com umas moscas varejeiras que passeavam por ali. O sangue havia coalhado na faca. Estava uma linda tarde de outono.
Ao tentar sacar a faca de suas entrelinhas expostas, com as cócegas que isso lhe provocava, rindo baixinho, Sr. Finados entendeu que estava morto. Escavacando um pouco sua chaga terminou por achar melhor deixar a faca lá, ao menos por enquanto, afinal ela deve estar aí por alguma razão, não é mesmo? Descobriu também, remexendo em seus bolsos, que foi vítima de um crime passional – sua carteira ainda estava lá, com um monte de cédulas dentro. E que se chama Digitus Linhares, trinta e três anos, registro geral número um cinco oito cinco dois dois cinco, natural de…
Não importa. Digitus Linhares está morto e livre deste nome embaraçoso.
Sr. Finados, então, levantou-se e foi fazer a única coisa que resta a alguém em sua atual condição: Assombrar. Estar morto não é nada de mais, mas todo mundo tem direito a um enterro, e ele também quer o seu.
“É como se eu estivesse morto”, pensou o Sr. Linhares com seus miolos em decomposição, fumando um careta que catou no chão, observando as pessoas passarem impassíveis por ele na rua. Ele está já a algum tempo se esforçando por lembrar-se de alguém ou alguma coisa, mas não consegue lembrar de nada nem de ninguém. Levantou-se e foi tentar achar o próprio nome na lista telefônica. Não havia mais ninguém com esse nome na cidade. Digitus Linhares achou-se a pessoa mais solitária do mundo. E no mesmo instante sentiu que estava sendo observado. Havia mais alguém ali com ele, alguém que o via, que lhe podia ver, alguém com respostas, talvez.
E no entanto o mundo ao seu redor girava de soslaio.
Digitus Linhares decidiu ir fundo nessa questão, ir mais fundo até que o própio fundo, a la crack. E depois de meditar por horas a fio chegou a conclusão de que aquilo era sem condição, não podia ser, que sua situação era absurda, ou ele existia ou não, não havia meio termo para isso. Ou havia? E se até existir é relativo?
Deu um pulinho em uma mãe de santo pra ver qual é. Não pegou nada. Dona Maria de Xangô, uma novata, não soube entender o Sr. Linhares em toda sua complexidade, rolou um frevinho momentâneo, todos passam bem.
Digitus Linhares sonhou que caminhava com uma pá a tiracolo em meio a um enorme parque de diversões. A terra encantada, o castelo de cristal, o navio pirata, a cidade adormecida, a floresta de fogo que consome almas… Entre a caverna do dragão e o país dos duendes ele parou e começou a cavar uma cova rasa onde deitou-se e começou esperar pacientemente que algo acontecesse. Esperemos…
Mais um pouco…
Nada aconteceu. Digitus Linhares acordou. A faca ainda estava lá, ele ainda estava morto: Alguém ainda o está vigiando. Talvez você. Talvez o Sr. Linhares esteja profundamente equivocado, talvez ele esteja, em sua busca pela morte, vivo, e em sua ignorância pela vida, morto, de maneira que não são os outros que não podem vê-lo, é ele que se esconde em si dos outros, que assim acabam irrelevantes nessa história, a história do funeral do Sr. Linhares. Mas os outros são os outros, e você é você, que passou até aqui a discorrer sobre as vísceras literárias de Digitus Linhares, vítima de escrutínio.
Tenha, pois, dó desse coitado e pare de esfaqueá-lo com os olhos, abandone o texto, interrompa o aruspício de Digitus Linhares, e deixe cair enfim a última pá de cal sobre a memória oblíqua desse andarilho de linhas retas em sua viagem infinita até o ponto final, deslizando em espiral pelo ralo de um buraco negro de sete palmos luz de profundidade, descendo cada vez mais fundo para dentro da próxima frase.
Epílogo:
Aqui Jaz Digitus Linhares. Sua vida foi um livro aberto.
por Biu e Stevz*
1. Eu consigo ouvir o tilintar dos segundos que escorrem do relógio de parede quando caem quicando no chão atrás de mim. Em breve a sala estará cheia deles e será difícil transitar, mais um pouco e o lugar estará inundado, e sufocaremos todos.


2. Lá embaixo o tempo vai ficando cada vez mais curto à medida que avança, a sala afundou até a medida dos pés do cristo pendurado na parede, até os pés da cruz – o cristo não está mais lá, despregou-se e saiu andando sobre as águas do tempo, não sei se volta. Lá embaixo, agora, a sala vazia, cheia de si, em seu meio boia o esquife, muda testemunha desse estranho naufrágio. Lá fora crianças brincando na rua…
Cá em cima eu espero a minha hora tocando uma valsinha, uma que compus especialmente para o Manoel Manco, mas que é dedicada a todos os que vieram aqui hoje, vieram porque quiseram, não os convidei, nem fui convidada, nem eu nem minha irmã, tenho certeza, e agora ela está lá embaixo com os outros, submersa, como os outros. Chegaram, entraram, foram se sentando e se servindo e nem sequer para perguntar quem é o morto. E afinal quem é o morto? – Pergunta-me Johnny.
Eu páro a música. Ou a música me pára, não estou bem certa.
- Bem, eu tenho uma teoria sobre isso, meu caro Johnny, e ela é a seguinte:
Você sabe o endereço daqui?
- Não.
- Esse casarão onde estamos, você observou alguma janela?
Várias – Respondeu Johnny.
- E você já tentou apreciar a paisagem? Não? É porque não há paisagem. Estamos aqui morrendo de medo da morte enquanto nos velamos uns aos outros, Johnny. E você me pergunta quem é o morto…
- E volto a perguntar: Quem é o morto?

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* Stevz é brasiliense, ilustrador e músico. De vez em quando ele escreve.
Minha dúvida, minha única dúvida, eu já superei a morte, passei incólume por esse presépio, aleluia, eu já superei toda essa merda existencialista, My shit is perfect, já caguei toda a merda do mundo, um mundo de merda… Minha única dúvida era se derretia ou se explodia.
Não estou bem certo se o que então percorria minha espinha era eletricidade ou apenas calafrios, tanto faz, por pura ironia, haja visto minha situação, vocês em breve entenderão, por pura ironia minha única preocupação era se o tamborete em que trepei me aguentaria, uma vez que a corda já havia me certificado que sim. Ao contrário do que se pode imaginar, o nó nem é tão importante assim, uma ponta atei a uma viga, a central, tudo bem espetaculoso, a outra ponta ateia-a ao meu pescoço, e esse nó que me desatasse a vida.
E é engraçado, não se pára de ser. De todas as formas que há para se fazer isso essa me era a mais alienígena, mas era o que estava à mão, fazer o quê?
Boa pergunta, a propósito…
Seria um pequeno passo para a humanidade, seria um nada, e no entanto, para mim, um salto gigantesco. O que me afligia nem é se veria mamãe novamente, por assim dizer, era o que os outros iriam pensar, acho que vão pensar… Sei lá o que vão pensar, o tamborete aguenta? Era isso que me afligia. Achei meio bamba uma de sua perninhas, “Isso tudo pode subitamente vir abaixo”, pensei, vai que o “cão atenta”, como dizia minha avó… Será que ela vai estar por lá também?
Acho que não. Eu acho que vou explodir.
E de qualquer maneira foi isso mesmo, uma explosão, mijei-me todo, caguei-me, ora veja você, mesmo com toda aquela merda… Retesei-me…
A corda estirou, estalando em sol maior sustenido, acho, uma blue note, definitivamente, e minhas canelas também estiraram.
Antes de meu pequeno passo fatal surgiu-me esse monstro metafísico em forma de Besta, um Leviatã de mil olhos chamado Morte, ele arrastou-se melindrosamente até mim, estirou-me a língua de fogo, e ficou nisso. Fala, véi, ou vai ficar só dando pinta, indaguei, ao que me respondeu – Creck!
Esperava mais de uma Besta-Fera de mil olhos, devo admitir, mas foi o suficiente.
Shit happens, Shits Happen? Shit Happy. Perdi minha vida, maldito tamborete paralítico de merda. Mas não perdi o senso de humor. Restou-me o que no final resta a todos: Uma boa, gostosa e contagiante gargalhada.
Bum, explodi.
Morri de pau duro. Agora é com vocês.
Eu não morri nem escapei, eles estão mortos. Eu tentei tirá-los de lá, os que restaram, mas eles não queriam mais viver. Quando cheguei lá, parecia estar tudo como antes, então fiz o que fui fazer, eu fiz o que tinha de fazer, mas, o que foi que fiz?
… agora tanto faz.
E quando saía, da rua, abri mais uma vez a janela… Lá estava como antes, tudo calmo, na penumbra, como antes, mas aos poucos meus olhos foram acostumando-se à escuridão e vi uma criança brincando com uma arma, tentando brincar, pois estava movendo-se muito lentamente, apesar de estar se empenhando ao máximo naquilo, então entrei correndo novamente, assustado, e a ajudei a levantar-se, ela parecia preocupada só em escrever uma história sobre um homicídio e vinha daí seu interesse pela arma, explicou-me, mas eu só ficava cada vez mais confuso, aí chequei a arma, estava quase completamente descarregada, lembro-me bem das balas girando no tambor, duas das seis, piedade e culpa, eram seus nomes, e a tomei dela. Foi quando da cozinha veio o segundo, sangrando, e percebi que ela também estava ferida, e entendi que algo horrível aconteceu ali.
Eu tentei arrancá-los de lá, mas eles pareciam zumbis, eles não escaparam, foi ainda pior para eles não terem sido mortos com os outros, e como então não entendia nada, e como queria viver, voltar a sorrir acho que nunca mais, mas viver, definitivamente, corri de volta para cá, deixei os dois que restaram no caminho depois que um deles tentou me arrastar junto para a vala onde se meteu, pois é ainda pior para quem escapa, a culpa por terem sobrevivido torna-os como buracos negros, não há mais salvação para os que estavam lá e não compartilharam do mesmo destino que seus semelhantes, entenda: se você vai à guerra, se decidiu-se por isso, é melhor morrer por lá, aliás, não há escolha, se você não morre como e quando deve morrer você vira um zumbi, ou um vampiro. Eu não fui à guerra, nem ela veio até mim, como para eles, os que restaram, eu só caminhei pelos escombros, foi o suficiente, eu não escapei de meu destino, eu, aliás, acabo de olhá-lo nos olhos, eu, agora, sei exatamente o que tenho de fazer, e eu não procurei por essa informação, ela chocou-se comigo, assim: quando entendi que não haveria sobreviventes, e dei as costas aos que restaram, ouvi mais um disparo, na verdade o percebi, pois ele zune já desde tempos imemoriais, um tiro seco, oco, monótono e infinito, que ecoará por toda minha vida e que vai me arrancar de meu sono muitas vezes ainda enquanto viver… Ele estava em minha cabeça enquanto corria e chorava e rezava para encontrá-los como os deixei, felizes, ou ao menos vivos, e está em minha cabeça agora enquanto lhes conto isso: eles estão mortos. Foi uma chacina. Nós não podemos mais voltar para casa, ela não é mais nossa casa, suas paredes azuis estão vermelhas do sangue de inocentes que pagaram pelos crimes da guerra de seus pais e voltar lá agora significa morrer, ou algo ainda pior, pois, olhem para mim, decidam-se de uma vez: esse disparo, que é a trilha de meu desastre, é o meu canto da sereia, será o do cisne. Não há volta, eis o que diz o tambor enquanto gira, e eu repito, e vocês, que restaram, entendam enquanto é tempo, enquanto recarrego, antes que faça mira, engatilhe e volte a explicar…
E se em minha jornada passar por tua casa e resolver te visitar…
Bem, meu amigo, é melhor você se armar.
Descendo a Rua da Aurora, atravessando a Rua do Comércio, à esquerda, há a Travessa Sta. Rita, que vai dar na Rua Sta. Rita, que vai dar na Rua da Praia. Duas esquinas antes está a Rua do Fogo, também chamada da meretriz, um trocadilho infame com sua paralela sacra, a da Matriz, também uma homenagem à senhora M., a cafetina do lugar. A Rua do Fogo, apesar do nome conveniente às atividades que por lá se instalaram, chama-se assim devido a um incêndio há muitos anos, que começou por lá e foi até a Igreja de Sta. Rita, mas não entrou, e teve como única vítima o padre da cidade.
Naquele tempo só havia no lugar a Igreja de Sta Rita, e a Rua do Fogo era uma estrada cortando um gramado onde aos poucos foi surgindo um sobrado onde aos poucos foi juntando gente, em sua maioria párias. O prefeito não gostava de párias, mas eles votavam por qualquer trocado. A população não gostava de párias, mas eles se vendiam por qualquer trocado. O padre Z. não gostava de párias, e foi deixando isso cada vez mais claro em seus sermões. A população se indignava, o prefeito se comprometia, mas isso tudo só durava até a comunhão. Então, um belo dia, depois de ler sobre Gomorra e discursar sobre Pompéia, o padre Z. simplesmente cansou de esperar pelo bom senso de todos e terminada a missa foi pessoalmente à Rua do Sobrado, no segundo andar no qual morava uma viúva e suas duas filhas, a morena e a ruiva. Pária é tudo igual, esses servem. Penso nisso nesses termos e sorrio enquanto desço a Aurora…
Apesar de sua raiva e do espanto da viúva eles começaram a se entender. A viúva ofereceu-lhe água, apontou-lhe um banco, contou como chegara ali, como era difícil sua vida, de seu desejo de saber mais das coisas de Deus e de como preocupava-se com a educação das filhas, principalmente da mais jovem, a ruiva, que passava a maior parte do dia e boa parte da noite na rua, e nesse ponto começou a chorar. O padre voltou-se para a mais jovem, para a mais velha, para a viúva, passou algum tempo calado, olhando para uma vela sobre a mesa, e então, perguntou à viúva se podia falar com sua filha em particular. E logo em seguida arrependeu-se, pois a casa era só aquele quarto, e o resto da família foi saindo calada quase que imediatamente, sobrando subitamente apenas o padre e a garota.
Qual sua idade, minha filha? – Quis saber o padre. Uns dezessete – Foi a resposta da garota. Uma mentira.
O que tanto você faz na rua o dia inteiro? – Quis saber o padre.
A ruiva estava sentada em uma cadeira ao lado de uma mesa em frente a um armário, tinha cabelos longos, olhos claros e corpo de mulher. Ela olhou para frente, para além do padre, depois à sua direita, depois levantou a perna esquerda e apoiou o pé na cadeira, depois, começou balançar os joelhos, dobrou uma perna sob a outra, apoiou ambos os pés no assento, uma de suas mãos segurava uma coxa, a outra fazia cachos, seu olhar passeou pelo teto, depois por ela mesma, e, finalmente, quando tornou a encarar o padre, este estava de joelhos, perplexo, rendido. E então, algum vesúvio, e o holocausto, não se sabe como. A garota sai correndo, a mãe entra gritando, logo volta, mas não se afasta, até ser retirada pelos vizinhos, que mal têm tempo de salvar suas próprias coisas e a si mesmos, nesta ordem. Em pouco tempo a Rua do Sobrado virou a Rua do Fogo, a Rua dos Párias, apesar desses terem a partir daí espalhado-se como brasas pela cidade, em um incêndio latente que sempre volta ao foco para celebrar seu estopim.
Finda a Aurora, atravesso a Rua do Comércio, dobro à esquerda na Travessa, desço pela Sta. Rita em direção à praia, paro duas esquinas antes, cá estou novamente. Entro na casa, dirijo-me ao balcão, peço algo, olho ao redor, lá está a velha M. em um canto, observando o lugar com olhos faiscantes.
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extraído do Sirva-se Records
Ya, baby, here comes Mister Fuck, dezoito centímetros de pura raça, ele quer te traçar. Mais uma de suas histórias, dessa vez uma cheia de anões dominatrix, ninfetas lésbicas, travecas algemadas pagando boquete suspensas no ar em uma suruba ergométrica, assim, sem sintaxe, nem par. Coisa fina. Muito couro, todos muito loucos, e tudo muito divertido até chegar a polícia, e, claro, ele se safar na hora H. Muito foda esse cara. Mister Fuck is the man, Mister Fuck é o que há.
Well, Mister, you is a sock.
Foi assim que pensei, não sei se a gramática está correta, mas meu pensamento não é muito ordenado, e em português ele soa assim: Blitzig, e as vezes: Plink. Então, em uma tentativa de elucidação bizarra, apesar de pensar em português neoarcaico, e, aliás, pouco saber de outra língua, e vai que justamente por isso, vou tentar transmitir minhas impressões nesta língua bárbara, o inglês, por assim achar que melhor as expresso. Orever. Pois bem, aqui estou eu por inteiro, minhas elucubrações e impressões, diferentemente de Mister Fuck, estirado na rua de minha imaginação, atropelado por seu próprio ego inflado, todo tripas e escoriações. Yeah. Mister Fuck go over there. Já vai tarde.
À noite bateu um remorso, mas quando pensei que amanhã não ouviria mais uma de suas ladainhas… Oh, man, nevermind. E foi o que fiz. Dormi como uma pedra. Sonhei com um homem das cavernas vestido num bikini asa delta conjugando o verbo to be.
Mister Fuck never dies, Mister Fuck está em mim.
Acordei meio dolorido, mas muito bem humorado, achando o dia bonito, sentindo-me mais elevado, uns dezoito centímetros a mais, e falando só em inglês: Hello, how are you? What´s your name? Here, my card, call me anytime, I´ll love you anyways…
Continuou o dia todo e só parou quando me masturbei.
- Perdão, Padre, eu pequei.
- Yo?
- Well, acho que estou possuído.
- Serious?
- Só pode.
- This is not a sin, man.
- Eu gostaria que o senhor me expurgasse, Mister Fuck está em mim.
- What?
- Ele vai, mas sempre volta, deixa-me avolumado, confuso e agringalhado, e só sossega quando gozo.
- Ok. Let´s pull out this demo do teu couro, bro. Get out, mothafucka, it´s tied. Xô!
E foi assim. Ele subiu, finalmente, mas me deixou todo doído, um pouco ressentido, dezoito centímetros no prejuízo. Mister Fuck is really dirt.
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9. A coisa toda começou no início de maio e durou quase até seu final – Escreveria mais tarde em meu diário – e ainda não estou bem certo do que me aconteceu. Em parte é por isso que registro aqui o ocorrido, ao menos de como acho que foi, e em parte para que, se eu não conseguir entender, que outro entenda, ao menos, e me explique.
Estive fora do ar por um tempo, não sei quanto tempo, essa é uma das questões que me afligem, inclusive, não exatamente quanto, eu tenho relógio, mas aquilo tudo não pode ter ocorrido em apenas… Bem, eu fui agredido, acho que perdi a consciência, talvez para sempre. Eu não consigo discernir muito bem as coisas, parece que vivi mais em um mês que em minha vida inteira, contando os anos que estão por vir. Em um mês eu vivi várias vidas, algumas delas concomitantemente, por sinal, fui orador e interlocutor de mim mesmo, eu fui o fato e seus desdobramentos, todos os seus desdobramentos possíveis, e era como se tentasse fugir de uma situação que me devorava, de mim mesmo, portanto, e em minha fuga acabasse de volta à boca do lobo, sem nunca, no entanto, ser por ele devorado de vez. Um Karma Instatâneo. Uma prisão que chamei Monstro de Mil Olhos. Eu era então o mundo todo, e o mundo estava em seu estado primordial, o caos. E quando o caos partiu-se ao meio foi aí o dia de meu juízo e também o dia em que nasci novamente. Eu nasci sabendo muita coisa e com uma capacidade enorme de esquecer vinda de outra maior ainda, a de deduzir, só comparável em sua magnitude à de imaginar, daí o ciclo vicioso inevitável, o Monstro, que veio à luz comigo e que aqui, à luz desta outra realidade, chamo de Estado, e de Igreja, uma variação sua, uma I-2 situacional, para os braços da qual corri em meu desespero, reproduzindo assim, mais uma vez, aqui como ali, o karma. Aqui como lá, o Status Quo, a Besta, e o que o legitima, a caguetagem, a pilantragem, o ego inflado, o 6×1, o que em minha inconsciência aprendi a chamar de Os Libélulas. Hoje mesmo topei com eles, me trancaram na rua, à caminho do banco, onde ia justamente pagar minhas contas, o dízimo, para que me deixem em paz, os indigentes, seis deles, armas apontadas para minha cabeça, me apalparam, me cheiraram, mexeram em minha mochila, e me deixaram ir, não acharam o que queriam, os cães, claro que não, eles teriam que ter morrido mais vezes do que eu, eles teriam que saber mais de mim do que eu deles.
– Corpo estreito, dois pares de asas membranosas muito transparentes, carnívoras e voracíssimas. Senhoras blindadas da gravidade pairando absolutas sobre nossas vidas. Ok. This is it.
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Para mim.
1. Eu sou um desses caras com esqueletos no armário e cobras nos bolsos e uma faca na cabeça. Antes arrastava cadáveres, mas aí me estabeleci e agora meus mortos têm um lugar só deles. É como um aquário, eu vou lá, dou uma sacada, certifico-me de onde vim, para onde vou, e relaxo. E tirando a faca, que resolvo com analgésicos e um chapéu, pois ela não sai de lá, considero-me o mais normal dos seres ordinários, o animal perfeito para um grupo controle de DL50 e por isso contarei minha história: Em nome da ciência. O que precisamos é de mais ordinários como eu, nem preto nem branco, nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem forte nem fraco, para completarmos um grupo controle representativo, mais noventa e nove voluntários e formamos um chat de discursão para testes em duplo cego, onde quem gritar mais alto é guia. Ando pensando nisso. Recentemente fiquei sabendo que fármaco etimologicamente, além de remédio e veneno, também significa linguagem escrita e seu radical também designa bode expiatório. Com esses dados em mãos facilmente reconhecemos as regras de um jogo onde a mesa sempre leva a melhor, não é mesmo? Arrombadores biológicos, Pignarre os chama em sua versão moderna. Você precisa ir ao Youtube e ver a imagem de um Bacteriofago invadindo uma célula, que seresinhos brilhantes, assassinos altamente refinados como nós nunca seremos e com os quais temos de aprender a conviver se quisermos durar por aqui. Não, senhores, o homem não é o lobo do homem, o homem é o homem do homem, e o lobo é o lobo do lobo, e um terremoto mata ambos, e um vírus sobrevive aos três, noves fora, rabinho entre as pernas, senhores, sejamos medianos, vamos ao teste…
Consiste em ficarmos os cem em uma sala onde a ciência nos provará mas não a todos, apenas cinquenta serão os escolhidos, contudo, nem os cem nem a ciência saberá quais dos cem são os cinquenta, e se, ao cabo, sessenta se salvarem significa que há algo errado com nossa crença na ciência, mas isso logo se resolve, com vinte e cinco miligramas disso ou daquilo duas ou três vezes ao dia, todo dia.
Analgésicos, esqueletos, aquário, cobras, um chapéu e um cão. Meu cão chama-se Fait Divers, ele é peludo, babão e rola no chão. Eu me chamo Ismael, quanto a você, chamai-me como quiser: Call Anything, eis um bom nome para uma música caótica cuja ordem incompreensível só pode ser insinuada e subentendida. A Love Supreme é um bom nome para esse acorde mágico, o Fármaco, a Blue Note, o trítono com a tônica, segundo Stevz e colaboradores: Quarta com sexta aumentada e que já foi chamada Diabulos in Música e proibida na Idade Média por gerar a tensão que exige resposta imediata, e é outra a cada música.
Mais palavras, portanto.
O Fármaco age por sedução, afirmou Derrida. Ele precisa do diálogo e de um tema e de uma trama, teatro.
Vá ao Teatro. Diga ao balconista que precisa de algo para dor de cabeça, algo mais forte que o usual, diga isso a ele, diga-lhe que estou disposto a pagar o preço, pisque-lhe um olho, pergunte se o que indica é do bom, pergunte se não é um similar, de farinha, um placebo, comprimido, cheio de solvente, peça dois gramas, diga-lhe que deixe um espaço no livro, a receita vem depois, como sempre, já datada, em qualquer cor. O caô do caô do caô…
2. Eu nasci muito longe daqui, muito tempo atrás.
Quando nasci a lua incendiou-se, juro. Na floresta escura brilhou os olhos da pantera, e fez-se luz. E você deveria lembrar-se disso, pois também estava lá.
Como estamos todos carecas de saber, mas não custa passar uma navalha só para garantir, estrelas de neutrons não colidem todo dia, agora temos esta floresta de luz, ficou claro que há uma pantera lá fora, gravitando nosso espaço. O que fazer?
Auto-Trepanação. Distúrbio de personalidade, ou apenas uma solução fácil?
Gagueira, má formação congênita, ou indício de mutação?
Jesus, rei dos reis ou ET?
Questões pertinentes que nossa época ainda não conseguiu responder. Grandes dilemas antropomórficos amplamente discutidos e estudados diariamente em escolas, filas de supermercados e programas de televisão. Depois perceberemos que o buraco é mais embaixo, mas estou me adiantando, e o compasso é importante.
Segundo Thomas Pynchon, que segundo Bráulio Tavares é Bob Dylan, havia esse cara com um parafuso no umbigo, e isso, naturalmente, o incomodava, mas nenhum médico era capaz de livrá-lo daquilo, então, em um sonho, um místico o mandou a uma árvore de chaves de fenda, nesse dia ele acordou feliz, levantou-se de um pulo e sua bunda caiu no chão. Então, deixo a faca aonde está. Faz tanto tempo que já nem sei como ela foi parar aí. É uma faca do tipo peixeira, cabo de madeira, lâmina reluzente que dilata em dias quentes como hoje. Em dias assim o meu juízo latejando ressoa em meu crânio como folhas de alumínio em um pomar de motosserras, eu fico meio grogue e ligeiramente gago e costumo errar na concordância, mas não me surre ainda, amigo, sei que o compasso é importante. É preciso respeitar a cadência. Em nome da governabilidade de se matar e roubar à vontade, às vezes se caindo no ridículo, mas nunca na prisão, é preciso observar a marcha e não destoar do coro. Os bois, depois a boiada.
Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância è Sapiência. Ordem é Progresso. Amor de Cu é Rola.
É o que venho tentando fazer. Acho que sim. Desculpe qualquer coisa. E por isso me considero o mais mediano dos homens, e como o mundo é feito de gente medíocre como eu em sua maioria, acho de interesse dos clínicos sociais estudarem a mola mestra dessa máquina peluda por mim tão bem representada, sob pena dessa geringonça degringolar. Povo, esse desconhecido. Onde vive, o que faz? Estará em um shopping na Paulista, em uma cabaça em Cabaceiras? Quá, quá, quá. E como é também de meu interesse saber onde porra isso tudo va-vai dar, continuo escrevendo, em nome da ciência.
Desconfio que não vá dar em nada. É muita impunidade, saca?
3. É só dar uma olhada lá fora: A tempestade descasca as árvores com espocadas numinosas de luz. Primeiro os frutos, aos borbotões, depois os galhos e finalmente as próprias árvores quedam. O vento rebate a chuva que se quebra com estardalhaço nas varandas dos prédios, os bueiros estouram, os postes apagam, o comércio fecha, o trânsito pára. A cidade capitula, cheia de si.
Talvez seja o fim do mundo chegando, como disse minha traficante, tomando café e comendo pamonha. Talvez sim, eu respondi, tomando conhaque e fumando maconha. “Nossas pernas nunca estão abertas o suficiente na hora do bacu”. Eu vi a hora ter que tirar a roupa para acalmar a vizinhança na janela. Dessa vez por capricho dos homens tivemos que ficar descalços, e eu imagino que depois eles se esconderam em algum lugar e se masturbaram fumando nossa baga e pensando em nossos pés, bizarro. Tinha o com cara de porquinho, tinha o mimadinho e tinha até o intelectual, tinha o bonzinho e o mauzinho, tudo muito surreal: Uó! Sai do carro, mão na cabeça, é bom colaborar, apaga esse cigarro, que falta de respeito, vem ver eu te revistar. Sabia que eu podia te levar pra delegacia…
O que falou comigo tinha os olhos de china e as bochechas rosadas, parecia um garoto que a mãe acabara de pôr talquinho, e tinha o careca, muito feliz em seu papel de malvado nervosão. Nenhum deles sabia argumentar e respondiam às nossas perguntas mudando de assunto, mas mesmo assim foi o bacu mais esclarecedor que já tive o prazer de tomar. Meus agradecimentos sinceros ao soldado porquinho do mal e ao soldado bochechinhas rosadas.
Voltando ao fim do mundo, Auxiliadora acha que vai piorar, disse-me para acertar as contas com a lei o quanto antes, vejam só a ironia, pois ainda vão chegar dragões com chifres, pragas, filho matando pai matando filha matando mãe estuprando filho roubando pai vendendo filha, cavaleiros galáticos e um banho de sangue. Eu acho que o mundo já acabou, mas como não desanimo de uma boa festa, continuo muito bem sentado em minha cadeira, fumando meu cigarro, bebendo meu conhaque e olhando pela janela, aguardando o dragão chifrudo e seus cavaleiros voadores, sorvendo meu apocalipse em doses homeopáticas. Então, nada tema, siga em frente, eu estarei aqui rezando por você, alguém tem que fazer o trabalho sujo e você não tem tempo para isso, tempo é dinheiro, o mundo é dos espertos, é por isso que está esta beleza. Vida em Marte, morte em toda parte, deu na News. A Vida é Bélica, passou na TV. Uma mão lavra a outra, como diz o ditado, e juntas lavam o corpo delito, como dizia minha vó, se é que você me entende. Eu explico: Nada vale a pena quando a alma se apequena. Com vocês o fim do mundo, em primeira mão só aqui.
“De longe dá pra ver as balizas, decrépitas, medonhas. Segue-se a elas aleijados, anões, moribundos em suas camas, lunáticos e alienados, miseráveis de todos os tipos. Eles arrastam-se para frente, zumbis, cadenciados pela banda que vem atrás tocando um tema militar. Um garotinho de bochechas rosadas e cabelos encaracolados muito negros, fardado e de luvas carregava preocupado uma bandeira escandalosa. Os que iam na frente, a medida que sucumbiam, iam ficando pelo caminho e eram pisoteados por quem vinha atrás, às vezes com crueldade, às vezes com indiferença. Havia umas bailarinas descalças com seus pés sangrando, sorridentes, e uns caras de capuz esguichando óleo quente nos espectadores. Nada fazia muito sentido. O sol estava parado no meio dia e os sinos repicavam, havia uns altares, muita gente praguejando, eu não sabia se aquilo era uma marcha ou uma procissão. Pernas de pau de fraque cuspindo fogo uns nos outros, fogos de artifício e salvas de tiros. Sodomia, onanismo e felação. Diante da igreja a banda parou e começou a fazer uma evolução bizarra, epiléptica. Houve um fuzilamento e um batizado. Uma tuba descompassada marcava o tempo, as caixas repicavam um toque de suspense, mas não acontecia nada, dava para perceber a ansiedade de muitos crescendo até explodir em crises de violência mútua, alguns suicidavam-se. Pude reconhecer várias daquelas pessoas, eu vi você por lá, baby, você caminhava sobre minha juventude com saltos de pontas muito finas, eu parecia gostar, hoje não gosto do que vejo, mas tenho as pálpebras pregadas, os olhos esbugalhados, e não posso me mexer.”
É, acontece.
4. Eu sei que venho me distraindo do assunto principal e perdendo o prumo desta narrativa que vem a ser eu mesmo – desse jeito que está escrito. Mas este é um assunto que se come pelas bordas para não se queimar a língua. Eu não me deixaria pegar fácil por mim mesmo, alguém que conheço tão bem. Além do que assim é mais gostoso.
Contudo, e ainda nesse glorioso quarto capítulo, e sempre em nome da ciência, tentarei despir-me de vez de meus pudores e me revelar por inteiro, medíocre que sou. Assim este passa a ser o último capítulo, e na iminência de acabar abruptamente, uma vez que não tenho lá muito controle sobre essas cascavéis que carrego nos bolsos, adiós. E muito obrigado pela atenção.
…Nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem gênio nem estúpido, nem empregado nem patrão, nem certo nem errado, nem daqui nem de lá, nem rico nem pobre, nem preto nem branco, nem bonito nem feio, nem velho nem novo, nem rápido nem lerdo, nem de direita nem de esquerda nem de centro, eu não me destaco na paisagem. Nem quero, irmão.
Esse bem que podia ser o final. Mas não é. Eu não poderia, nem as cascavéis, encerrar esta narrativa sem falar deles:
Os Esqueletos.
São alvos, têm o mesmo número de ossos brancos adultos, duzentos e seis, a mesma expressão vazia e pesam toneladas, de maneira que, na impossibilidade de abandoná-los, deixa-se para trás um rastro fóssil onde fica impresso a história do viajante e sua cruz, mais um motivo pelo qual os cientistas, sempre eles, devem escrutinar esta minha narrativa medíocre.
As cascavéis que trago nos bolsos dão-se muito bem com eles, apesar de não se darem bem entre si, daí carregá-las sempre em bolsos diferentes e andar sempre com muitos bolsos. Minha vida é deveras muito malabarística, possas crer.
Na porta do armário onde os guardo, colei um espelho e hoje ao acordar de sonhos do fim do mundo com o martelar da reforma no apartamento vizinho, caminhei até ele, olhei para um homem de meia idade com olheiras que em nada se parece comigo, mas que sou eu, ainda que sem a faca incrustada na cabeça, e mandei-o à merda, abrindo de súbito o armário de onde rolou um crânio, era mamãe descarnada a me dizer ser ou não ser. Deixei-a falando sozinha, como sempre, e tranquei-me no armário com minhas cobras, caveiras e minha personal excalibur, meu exoesqueleto, disposto a reconhecer-me na saída, ou viver de vez aqui. Fait Divers montou guarda à porta.
Aqui é escuro e úmido e confortável, passo a maior parte do tempo em posição fetal, admirando meus recém formados testículos. Comigo estão Clara e Charlie – minhas cascavéis, seus chocalhos me ninam, e também todos os meu mortos – os que matei e os que morreram, e também Ismael, de cujo crânio tirei a faca metafísica que agora empunho. Eu me chamo Severino.
(do Sirva-se Records)
por Biu
-E pra provar que falo sério vou queimar muito dinheiro em notas de dez, em praça pública.
A massa humana deu uma sacolejada, em pouco tempo apareceu alguém com a gasolina, ele tinha fósforos, saiu pra sacar a grana, a multidão o acompanhou.
Foi até o banco, sacou, trocou, saiu todo feliz. Apareceu a TV. Perguntaram ao povo o que era aquilo. -Alguém vai queimar dinheiro. -Por quê? -Pra provar que não vale nada. -É louco? -Só pode.
Não teve paciência de esperar a praça chegar e mesmo andando o mais rápido que podia começou a queimar as notas de dez ainda no caminho.
-Com licença, como o senhor se chama? Por que faz isso? O homem seguia queimando, deu-se mesmo ao luxo de acender um cigarro com duas de dez flamejantes. Alguém saiu do meio da turba, arrancou-lhe o maço e saiu correndo. O homem disparou atrás, o povo atrás do homem. Encontraram-no mais à frente, já com o dinheiro na mão e os pés no ladrão, chutando-o. -A gasolina! Vai ser aqui mesmo. Chegou a polícia. O homem sacou uma arma. Começou a correria. A polícia disparou. Gente corria pra longe do homem, pra se salvar, gente corria pra cima do homem, pra salvar o dinheiro, a polícia correu pra cima da gente, começou o quebra-quebra. O homem não sobreviveu. O dinheiro passa bem.
D. Maria viu pela TV Sr. Zé no meio da confusão. Naquela noite ele chegou em casa tarde, manco, cheirando a gasolina e feliz, estranhamente feliz.
-Mulher, você não vai acreditar, eu estava na praça jogando xadrez quando chegou esse cara, pediu uma informação, pediu um cigarro, pediu um cartão telefônico, saiu, voltou, devolveu o cartão, agradeceu e começou uma conversa de que dinheiro não vale nada, e que queria gasolina pra queimar dinheiro. Ele até que tinha uns argumentos coerentes, mas ele queria qieimar dinheiro, entende? E era muito pidão. Mas daí que parece que falava sério… -Ah, parece? -É. Ele dizia que dinheiro é um pedaço de papel que a gente acredita que pode comprar tudo e por isso vale tanto. Ele disse que havia ganho muito, mas que pra isso perdeu tudo. E pra provar que estava falando sério ia queimar muito dinheiro em notas de dez ali, na praça. Daí em diante foi uma loucura só. -Eu vi, passou na TV. Você sabia que o dinheiro era roubado?
A campainha tocou, o telefone também. D. Maria foi atender a porta, Sr. Zé começou suar frio.
-Alô? -Papai? -Sim? -D. Maria? Detetive Marins. -Alô. -Papai? -Pois não? -Seu marido está? -Papai? -José?
No hospital, Sr. Zé soube que infartara. Medicado, ao lado da esposa e do filho, começou aos poucos a relaxar, mas não muito: “Ainda falta o tal Marins.”
-Muito bem, Sr. Zé, vou direto ao ponto, onde está o dinheiro? -Que dinheiro? -Nós sabemos que o Sr. estava lá, sua esposa confirmou. -Ela também disse onde está o dinheiro? -O Sr. a acusa de cúmplice? -Eu a acuso de ignorante, mas isso não é da sua conta. -Então não vai colaborar? -Já colaborei muito, agora aposentei. -Não saia da cidade. -Não pretendia.
Em casa, após a janta, a sós com o filho, Sr. Zé começou uma conversa esquisita e curta. -Preciso que pegue algo pra mim, mas não quero que faça perguntas. -E o que ganho com isso, papai?
Zé não respondeu. Não conseguiu recuperar o dinheiro. Nunca conseguiu sequer dar uma conferida, e começou a desconfiar de sua memória, se todo aquele dinheiro existiu mesmo… Piorou, por fim morreu, pobre, meio louco, estranhamente feliz.
Era uma noite fria quando cheguei ao Hotel Velho Mundo. Um labirinto barroco. Suas tábuas rangem a história de três civilizações.
No céu a velha lua cheia eclipsou.
Não há ascensorista, tampouco elevador. Eu arrastei a velha mala que foi de meu avô e depois de minha mãe por seus batentes e corredores até meu quarto, o de número 43, e lá me tranquei e sentei na cama, cansado da viagem. E então dormi um sono sem sonhos.
Quando acordei examinei melhor o quarto: Uma TV, um espelho, uma cama, um criado-mudo, um abajur, um telefone, uma escrivaninha, um carpete, uma toalha, um sabonete, um banheiro, cortinas abertas e uma janela por onde entrou a luz do dia que me acordou.
Ergui-me e caminhei até ela, para fechá-la, para voltar a dormir. Espiei lá fora e lembrei-me onde estava, mas não porque estou aqui.
Eu ouvi muitas histórias sobre este lugar, e tantas que já mesmo estava aqui antes de aqui chegar.
Foi por isso que vim, lembrei.
Eu conto histórias e por elas sou contado, assim sinto-me vivo, só assim. Viver é para mim uma viagem eterna movida à blá-blá-blá, uma digressão. Desacelerar é, portanto, aproximar-se da morte, não se vive à meia-embreagem. E tendo não sei porquê começado a tratar da vida como um mecânico, resolvi desistir de voltar para a cama, engatar logo uma terceira marcha e descer para um café.
Forte, sem açúcar. A garçonete não me olha, não pára de fazer o que está fazendo, e ainda assim está a me atender. O café vem, forte, sem açúcar. Considerados os oito mil quilômetros de distância que ele viajou desde o novo mundo, minha casa, até chegar à minha mão aqui no velho mundo, foi o melhor atendimento que tive na vida. Não há café como o do velho mundo, modéstia à parte.
Recomposto, reabastecido, de tanque cheio, por assim dizer, ponho-me em marcha. Tenho um compromisso, estou atrasado, três horas atrás, mas não é culpa minha, é do mundo, que gira, como as rodas de meu verbomóvel.
Marcos Raposão, é o nome do homem. Ele é topetudo, tem as sobrancelhas pregadas, como as minhas, e me considera um egoísta. Bem, ele está certo, como sempre.
Ele está agora em seu gabinete, anunciaram que tem alguém à sua espera, ele termina o que estava fazendo, levanta-se, caminha sem pressa, o que passa por sua cabeça nessa hora, Marcos?
- Olá, prazer.
- Oi, como vai?
- E então, fez boa viagem?
- Sim. Tinha TV no avião.
- Uau.
- Não sei porque disse isso.
- Não importa.
- …
- Trouxe a mala?
- Sim, está no hotel.
- É o que importa.
- O que há na mala?
- Isso também não importa.
- Você também não sabe?
- Não.
- Nem quer saber?
- Não. Este negócio depende de confiança mútua. Você cumpre sua parte, eu cumpro a minha, é tudo.
Eu ouvi muitas histórias sobre este lugar, e tantas que já mesmo estava aqui antes de aqui chegar.
Foi por isso que vim e é por isso que volto. Na mala, histórias.
Daniel era um one man band, como todos aqui. Daniel contava muitas histórias, sobre como era a vida antes de vir parar aqui, de como seria a vida quando saísse, e de como estaria tudo diferente quando voltasse para cá e nesse ponto sempre me confundia pois não parecia louco como o resto de nós, parecia que sabia do que falava, mas, sendo assim não estaria aqui, certo? E se eu achava isso das histórias de Daniel mau sinal para mim, certo?
Continuo com meus remédios, eles me deprimem, me animam, mas não me fazem esquecer das histórias de Daniel. O problema é que só eu o vi, e como que para alguma coisa tem de servir os remédios não fui estúpido de contar a eles isso. E não será agora, nem aqui, passado o pior, que vou forrar o meu caixão, não quero voltar para a sela, leia nas entrelinhas das histórias de Daniel.
Se bem me lembro a primeira vez que o vi ele atravessava a rua de olhar fixo e de mão no bolso. Ele sempre tinha ao menos uma delas escondida lá e então tinha uma no bolso e a outra levava e trazia o cigarro à boca mecanicamente, enquanto o corpo esguio atravessava decidido a rua vazia. Esta foi a primeira vez que o vi. A seguinte foi aqui, três anos depois, não lembrava mais dele, mas ele lembrou de mim e depois da ocasião, e veio até mim e contou-me uma de suas histórias, a da primeira vez que me viu.
Era domingo, pé de cachimbo, e pra resumir, o buraco é fundo, acabou-se o mundo, e entre uma coisa e outra deu-se esse dia, antes deste, depois do fim. No meio dia desse dia Daniel atravessava a rua para checar a correspondência em sua caixa postal no correio que ficava embaixo do sobrado onde eu morava quando sentiu o sol refletir em seus olhos com isso distraiu-se e parou em meio à rua vazia. E foi assim que descobriu-me na janela do outro lado já distraído com outra coisa, talvez com uns letreiros do outro lado da rua que estavam sempre mudando, anunciando uma coisa ou outra, não importa mais. E Daniel não só continuou me observando como voltou atrás, onde o ângulo favorecia mais, e concluo que foi assim que fuçou meu quarto, só pode, pois nunca esteve lá e descreveu metade dele com precisão. E era precisamente estas minúncias que me impressionavam nas histórias de Daniel, a lembrança de como estava o céu de um dia distante, ou dos livros que estavam então em minha finada estante. Bizarro. Parece que gostamos dos mesmos autores.
E Daniel lembrava especialmente desta ocasião porque ali mesmo me observando em pé junto ao poste resolveu, não me perguntem porquê, fazer um pacto com o diabo. Não perguntei e fêz-me o favor de não dizer. Mas era este o motivo pelo qual alegava me conhecer e lembrar da ocasião.
Há pouca coisa a se fazer por aqui e esses remédios me tiram o tesão, então escrevo, meu médico diz que me fará bem, pergunta-me sempre como vou com minhas histórias e quando finalmente pediu-me algo dei-lhe uma redação inofensiva que ajudou-me a diminuir alguns gramas de minhas doses diárias. Não vou a lugar algum com minhas histórias pois já estão todos aqui. Por que as pessoas tratam as outras como se fossem bois?
Não importa. Daniel como disse antes e como era meu desejo, e ainda é – quanto menos souber disso melhor – não deu-me seus motivos para o pacto, mas contou-me que estava em uma mão boa e tinha cartas na manga e um coelho na cartola, e com isso referia-se aos bolsos, imagino. Daniel achava-se esperto. Mas como aprendeu o mundo não é dos espertos que o rasgam e sim dos trouxas que o remendam. Havia uma lição em jogo e ela entrou à força na cabeça de Daniel. Foi assim que veio parar aqui. É assim com todos, não foi diferente com ele.
Enquanto Daniel embaralhava e o diabo distribuía eu de minha janela distraído pensava em jogar minha sorte prédio abaixo. Disso não preciso puxar pela memória pois não houve um dia em que olhando pela janela não pensasse isso, nenhum outro modo me atraía. Ainda penso nisso, confesso, mas não admito.
Bem, deu sete, pois naquela ocasião havia feito meu próprio pacto e dei meu primeiro pulo e foi assim que cheguei aqui. Daniel naquela ocasião em que nos encontramos pela segunda vez contou-me isso. Como me espatifei e como o sangue escorreu na calçada, como rápido juntou gente na rua vazia e de como este golpe brutal foi-lhe pertinente. Daniel achava-se mesmo muito esperto. E achando-se muito esperto, frio e calculista, acendeu outro cigarro e voltou a atravessar a rua e em seu meio distraiu-lhe novamente um reflexo e parado em meio a agora rua vazia para entender melhor aquilo viu-me novamente na janela… E entendeu que havia perdido a razão, mas não o jogo, não ainda, ainda não acabou, pensou, louco, e como uma coisa não excluía outra, juntou mais gente ainda pois agora com a carrocinha-de-doido além da polícia e da ambulância o espetáculo ficava ainda mais animado. Mais dois atos e estará completo.
Daniel mal terminado de contar de onde me conhecia passou para como sairia daqui. Nesse ponto dei-lhe as costas, paciência tem limite, e tomei a direção de um banquinho ao sol onde sempre ia quando queria ficar só. E lá estava Daniel, que permaneceu mudo, respeitosamente, o que não me fez perder de vez minhas ainda operantes quinze gramas vespertinas de calma, e como o que não tem remédio é que já está remediado ou coisa assim, ou não, sentei-me no banco ao lado de Daniel e assim passamos um bom pedaço do dia. Entendi por fim que não era sua intenção me perturbar e tendo em vista sua necessidade latente de contar histórias combinamos de que daria um sinal quando ele estivesse me enchendo e assim ficamos bem, era como ter uma tv portátil ou coisa assim. Contudo a ladainha era a mesma, de como ele escaparia daqui.
A grande fuga se daria porque ele assumiria o corpo de outro, estava trabalhando nisso naquele instante mesmo, contava, e eu o ouvia, displicente. Na transação poria fim a tudo, mas eram os ovos quebrados necessários ao omelete, detalhes, portanto, picuinhas. E quando será isso, Daniel, posso saber? Esta noite mesmo.
Claro que sim.
À meia noite daquele dia faltou luz. Isso não me impressionou, já havia acontecido antes e além do mais é impossível sair daqui, ao menos é o que sistematicamente me dizem minhas cinquenta gramas diárias disso ou daquilo e é isso que todos aqui têm em mente e é com isso que devem sonhar à noite, e Daniel não é diferente de ninguém. Quando imprevistos ocorrem aqui são prontamente sanados, não há espaço para improvisações neste lugar, nem para manifestação de nenhum tipo de nada que lembre espontaneidade, aqui há regras que devem ser seguidas, e é assim, fazendo o que mandam e pensando o que querem, que estaremos pronto para o mundo lá fora, dizem, e suas receitas ratificam. Então soaram as sirenes e logo em seguida houve a primeira explosão. E mais uma e ainda uma terceira se seguiram. Finalmente abriu-se as portas e os auto-falantes nos mandaram em fila indiana pelos corredores até o pátio, mas poucos obedeceram. Eu fui um deles, pois enxerguei nisso uma maneira de barganhar mais um tempinho de sobrevida útil fora daqui, louco que sou. E assim segui pelos corredores tateando as paredes até passar pelo grande espelho da sala de espera onde vi Daniel refletido. Virei-me e lá estava ele, sentado, calmo. Daniel, é você, O que faz aí, Você tem algo com isso, perguntei e continuei perguntando, mas ele fez-me o sinal que combinamos de quando era hora de calar a boca. Zip. Fim da história.
Saí para o pátio calmo, cabisbaixo, de mãos nos bolsos, e lá soube, não precisei que me dissessem, que essa é mais uma das histórias de Daniel.
Um homem. Uma mulher. Um jogo de xadrez. Enquanto os ovos ficavam prontos na frigideira.
“Não se preocupe, sua vida é passageira”.
“Em média são 20 acidentes por hora”.
com colaborações de Endrigo e Gomez.
*Stêvz é Estevão Vieira, brasiliense, ilustrador e músico. Contatos pelo e-mail stevz_vieiron@hotmail.com
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1. Com os dois pés na cova: Daniel, o nome dele. Abordou-me na entrada daquele lugar e informou-me que o fim está próximo, ele me pede desculpas mas precisa me dizer isso porque me ama e quer que eu me salve, ele tem lágrima nos olhos, ele sabe que eu sei do que ele fala, eu tento não olhar no seu olho mas ele fica se reposicionando com passinhos curtos na minha frente e ficamos um bom tempo nos fitando enquanto ele destila suas verdades. Apesar de ele ser bem mais velho que eu ele tem bem mais energia, então ataco logo com um conselho de que ele tome cuidado com o que vai fazer com tanta energia, e ele me pergunta como assim. Bem, talvez esses pensamentos lhe tirem do prumo da vida quotidiana… Mas eu sou o mais normal dos homens, ele me responde. Não me entenda mal, não quero vender-lhe nada, não represento nenhuma religião, nenhum partido politico. Por que você acha que morremos? Porque nascemos, respondo perguntando. Nós não nascemos para morrer, mas há quem insista e esses morrerão, e falta pouco. Muita gente vai morrer para que o Cristo viva, mas dessa vez serão as pessoas certas, não se preocupe. Guarde esta data pois eu lhe lembrarei dela daqui a um milhão de anos, Daniel diz.
E naquela noite, quando dormi e o tempo acabou para mim, eu não sei dizer.
2. Com um pé na cova: Mas acordei feliz e disposto hoje, espero não ser atropelado ou coisa parecida. Aqui tem muito desses loucos. A quantidade de pessoas falando sozinhas nas ruas, você não iria acreditar. Muitas delas acabam te abordando, já vi piores, uma vez levei um tapa e de vingança paguei outra dose ao meu agressor, então, como dizia, há muitos loucos por aqui, valha-me Santa Daphne Padroeira dos Loucos, Possessos, Sonâmbulos, Endemoninhados e Eplepticos, faltou alguém aí??
Pois é, só eu, eu estou só, estão todos contra um, mas jamais irão me pegar com vida, ha ha ha.
Jean Baptist de Oliveira, 16, 06, 73 a 15, 05, 05.
por Biu e Tiago Penna*
bzzt! diz:
e agora podemos postar o japa?
E.T. diz:
é sobre o que o vídeo?
bzzt! diz:
sobre como aproveitar bem a boa vontade dos outros, no caso o japa
E.T. diz:
esses são os bastidores, o enredo, ao meu ver, é sobre a destituição político-social que todos nós possuímos em nossa pseudo-democracia
E.T. diz:
concordas? o interessante é como o vídeo foi feito… vc se lembra? um parto às avessas
bzzt! diz:
bem, o q eu disse tem a ver como ele foi feito, não?
E.T. diz:
claro, mas vc se lembra que o compromisso durante a filmagem era diferente do mesmo quando posteriormente foi feito o roteiro, que se modificou na montagem?
bzzt! diz:
concordo com o q tu disse sobre a situação social
bzzt! diz:
bem, eu levei em conta o q tínhamos e o q dava pra fazer com aquilo
E.T. diz:
ele é um descamisado engravatado!!
E.T. diz:
sim, graças a você e seu espírito ecológico o material não foi pras cucuias
bzzt! diz:
acho realmente q o japa teve muita boa vontade
bzzt! diz:
muito
E.T. diz:
teve demais, embora ele não seja exatamente um, digamos, ator profissional
bzzt! diz:
arrumou o figurino, foi paciente…
bzzt! diz:
pagou o mico
E.T. diz:
mas emprestar o terno. ir de manhã cedo para o centro, topar da noite pro dia em assumir o papel, isso tudo foi graças ao japa, e não aos pré-produtores, que inclusive fizeram um vídeo poesia, tal qual planejado bem ruim, e não nos colocaram nos créditos, e mais vieram cobrar
bzzt! diz:
kkk
bzzt! diz:
os produtores eram muito estrelas
bzzt! diz:
foi o filme do filme
E.T. diz:
embora nao tivessem a mínima experiência com o audiovisual
E.T. diz:
mas tinham comprometimento, embora desviado, tenhamos que assumir
bzzt! diz:
eu lembro do cara dizendo – mas é assim q vou ganhar nota e é assim q eu quero
E.T. diz:
Graças a Deus nosso vídeo nunca entrou na academia
bzzt! diz:
seria queimação pra gente
E.T. diz:
demais, lyceu rulesx
bzzt! diz:
pois bem, então pra mim foi um filme de edição, uma brincadeira de dar sentido praquelas imagens.
E.T. diz:
exato, e o método do roteiro compartilhado simultaneamente também foi um exercício muito frutífero, produtivo e gratificante, deveria ser repetido mais vezes
bzzt! diz:
claro, foi um exercício de comunicação massa
E.T. diz:
fico honrado em ter feito um vídeo 200% com você
bzzt! diz:
500 com o acaso
E.T. diz:
há quem fale mal da paquerada do japa no final, mas creio que reflete uma falta de sensibilidade
E.T. diz:
1000% agora que será postado em nosso blog coletivo
bzzt! diz:
ah, falta de senso de humor. preciosismo bobo
E.T. diz:
conheço um cara que é “crítico”. além dele falar difícil pacas, sempre qualifica as obras de acordo com parâmetros e conceitos pré-estabelecidos, ou seja, um pé no saco, principalmente levando em conta esse vídeo exatamente
bzzt! diz:
ignoro
bzzt! diz:
não q exista, a existência
E.T. diz:
pois bem, que o público se divirta, reflita sobre a vida estética, e faça sua própria crítica da faculdade de julgar kantiana, como é de se esperar…
bzzt! diz:
sim, não tem q fazer sentido
bzzt! diz:
por si, digo
E.T. diz:
a leitura interpretativa das obras de arte perpassam o horizonte de conhecimento do sujeito, e por isso o fascínio das artes, falando agora em termos gadarmianos sob interpretação pensativa
E.T. diz:
divaguemos mais surrealisticamente, faz favor
bzzt! diz:
kkk
bzzt! diz:
pior q fez sentido pra mim
E.T. diz:
vc acha que este texto ficará robusto demais par aos nosso leitores dedicados do além tejo?
bzzt! diz:
acho que ficará piroso comum
bzzt! diz:
como eles dizem
bzzt! diz:
tive q olhar no dicionário
E.T. diz:
dictionarys suxs, legal, são divertidíssimos.
E.T. diz:
deveríamos brincar mais de escrever juntos
bzzt! diz:
eu gosto disso. tá lendo o q?
bzzt! diz:
tá sem tempo?
E.T. diz:
bem, eu li a metafísica do príncipe da filosofia, e agora pretendo reler o ensaio sobre o cinema
bzzt! diz:
quem é o tal príncipe?
E.T. diz:
Aristóteles, discípulo que superou o próprio Pai – Platão
bzzt! diz:
nunca li
E.T. diz:
vc deveria ler também, pra gente metamorfosear juntos
bzzt! diz:
tu gosta das tragédias?
E.T. diz:
gosto sim, embora alguns arquétipos sejam pesados para conceber da maneira usual
E.T. diz:
creio que agora já podemos postar
bzzt! diz:
sim. dá pra resumir, pr
E.T. diz:
enviemos para a redação, sil vous plait.
bzzt! diz:
kkk
E.T. diz:
bye, my friend
bzzt! diz:
. tu pode cuidar disso, plz?
E.T. diz:
até breve = cuido
bzzt! diz:
bj, véi
.
* Tiago Penna é candango, professor de filosofia, videasta, roteirista, produtor e mais outras coisas em audiovisual.
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