Facada Leite-Moça

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As cidades imaginárias de Daniel

31/12/2007 · Deixe um comentário

por Biu

Daniel era um one man band, como todos aqui. Daniel contava muitas histórias, sobre como era a vida antes de vir parar aqui, de como seria a vida quando saísse, e de como estaria tudo diferente quando voltasse para cá e nesse ponto sempre me confundia pois não parecia louco como o resto de nós, parecia que sabia do que falava, mas, sendo assim não estaria aqui, certo? E se eu achava isso das histórias de Daniel mau sinal para mim, certo?
Continuo com meus remédios, eles me deprimem, me animam, mas não me fazem esquecer das histórias de Daniel. O problema é que só eu o vi, e como que para alguma coisa tem de servir os remédios não fui estúpido de contar a eles isso. E não será agora, nem aqui, passado o pior, que vou forrar o meu caixão, não quero voltar para a sela, leia nas entrelinhas das histórias de Daniel.

Se bem me lembro a primeira vez que o vi ele atravessava a rua de olhar fixo e de mão no bolso. Ele sempre tinha ao menos uma delas escondida lá e então tinha uma no bolso e a outra levava e trazia o cigarro à boca mecanicamente, enquanto o corpo esguio atravessava decidido a rua vazia. Esta foi a primeira vez que o vi. A seguinte foi aqui, três anos depois, não lembrava mais dele, mas ele lembrou de mim e depois da ocasião, e veio até mim e contou-me uma de suas histórias, a da primeira vez que me viu.

Era domingo, pé de cachimbo, e pra resumir, o buraco é fundo, acabou-se o mundo, e entre uma coisa e outra deu-se esse dia, antes deste, depois do fim. No meio dia desse dia Daniel atravessava a rua para checar a correspondência em sua caixa postal no correio que ficava embaixo do sobrado onde eu morava quando sentiu o sol refletir em seus olhos com isso distraiu-se e parou em meio à rua vazia. E foi assim que descobriu-me na janela do outro lado já distraído com outra coisa, talvez com uns letreiros do outro lado da rua que estavam sempre mudando, anunciando uma coisa ou outra, não importa mais. E Daniel não só continuou me observando como voltou atrás, onde o ângulo favorecia mais, e concluo que foi assim que fuçou meu quarto, só pode, pois nunca esteve lá e descreveu metade dele com precisão. E era precisamente estas minúncias que me impressionavam nas histórias de Daniel, a lembrança de como estava o céu de um dia distante, ou dos livros que estavam então em minha finada estante. Bizarro. Parece que gostamos dos mesmos autores.
E Daniel lembrava especialmente desta ocasião porque ali mesmo me observando em pé junto ao poste resolveu, não me perguntem porquê, fazer um pacto com o diabo. Não perguntei e fêz-me o favor de não dizer. Mas era este o motivo pelo qual alegava me conhecer e lembrar da ocasião.

Há pouca coisa a se fazer por aqui e esses remédios me tiram o tesão, então escrevo, meu médico diz que me fará bem, pergunta-me sempre como vou com minhas histórias e quando finalmente pediu-me algo dei-lhe uma redação inofensiva que ajudou-me a diminuir alguns gramas de minhas doses diárias. Não vou a lugar algum com minhas histórias pois já estão todos aqui. Por que as pessoas tratam as outras como se fossem bois?

Não importa. Daniel como disse antes e como era meu desejo, e ainda é – quanto menos souber disso melhor – não deu-me seus motivos para o pacto, mas contou-me que estava em uma mão boa e tinha cartas na manga e um coelho na cartola, e com isso referia-se aos bolsos, imagino. Daniel achava-se esperto. Mas como aprendeu o mundo não é dos espertos que o rasgam e sim dos trouxas que o remendam. Havia uma lição em jogo e ela entrou à força na cabeça de Daniel. Foi assim que veio parar aqui. É assim com todos, não foi diferente com ele.
Enquanto Daniel embaralhava e o diabo distribuía eu de minha janela distraído pensava em jogar minha sorte prédio abaixo. Disso não preciso puxar pela memória pois não houve um dia em que olhando pela janela não pensasse isso, nenhum outro modo me atraía. Ainda penso nisso, confesso, mas não admito.
Bem, deu sete, pois naquela ocasião havia feito meu próprio pacto e dei meu primeiro pulo e foi assim que cheguei aqui. Daniel naquela ocasião em que nos encontramos pela segunda vez contou-me isso. Como me espatifei e como o sangue escorreu na calçada, como rápido juntou gente na rua vazia e de como este golpe brutal foi-lhe pertinente. Daniel achava-se mesmo muito esperto. E achando-se muito esperto, frio e calculista, acendeu outro cigarro e voltou a atravessar a rua e em seu meio distraiu-lhe novamente um reflexo e parado em meio a agora rua vazia para entender melhor aquilo viu-me novamente na janela… E entendeu que havia perdido a razão, mas não o jogo, não ainda, ainda não acabou, pensou, louco, e como uma coisa não excluía outra, juntou mais gente ainda pois agora com a carrocinha-de-doido além da polícia e da ambulância o espetáculo ficava ainda mais animado. Mais dois atos e estará completo.

Daniel mal terminado de contar de onde me conhecia passou para como sairia daqui. Nesse ponto dei-lhe as costas, paciência tem limite, e tomei a direção de um banquinho ao sol onde sempre ia quando queria ficar só. E lá estava Daniel, que permaneceu mudo, respeitosamente, o que não me fez perder de vez minhas ainda operantes quinze gramas vespertinas de calma, e como o que não tem remédio é que já está remediado ou coisa assim, ou não, sentei-me no banco ao lado de Daniel e assim passamos um bom pedaço do dia. Entendi por fim que não era sua intenção me perturbar e tendo em vista sua necessidade latente de contar histórias combinamos de que daria um sinal quando ele estivesse me enchendo e assim ficamos bem, era como ter uma tv portátil ou coisa assim. Contudo a ladainha era a mesma, de como ele escaparia daqui.

A grande fuga se daria porque ele assumiria o corpo de outro, estava trabalhando nisso naquele instante mesmo, contava, e eu o ouvia, displicente. Na transação poria fim a tudo, mas eram os ovos quebrados necessários ao omelete, detalhes, portanto, picuinhas. E quando será isso, Daniel, posso saber? Esta noite mesmo.
Claro que sim.
À meia noite daquele dia faltou luz. Isso não me impressionou, já havia acontecido antes e além do mais é impossível sair daqui, ao menos é o que sistematicamente me dizem minhas cinquenta gramas diárias disso ou daquilo e é isso que todos aqui têm em mente e é com isso que devem sonhar à noite, e Daniel não é diferente de ninguém. Quando imprevistos ocorrem aqui são prontamente sanados, não há espaço para improvisações neste lugar, nem para manifestação de nenhum tipo de nada que lembre espontaneidade, aqui há regras que devem ser seguidas, e é assim, fazendo o que mandam e pensando o que querem, que estaremos pronto para o mundo lá fora, dizem, e suas receitas ratificam. Então soaram as sirenes e logo em seguida houve a primeira explosão. E mais uma e ainda uma terceira se seguiram. Finalmente abriu-se as portas e os auto-falantes nos mandaram em fila indiana pelos corredores até o pátio, mas poucos obedeceram. Eu fui um deles, pois enxerguei nisso uma maneira de barganhar mais um tempinho de sobrevida útil fora daqui, louco que sou. E assim segui pelos corredores tateando as paredes até passar pelo grande espelho da sala de espera onde vi Daniel refletido. Virei-me e lá estava ele, sentado, calmo. Daniel, é você, O que faz aí, Você tem algo com isso, perguntei e continuei perguntando, mas ele fez-me o sinal que combinamos de quando era hora de calar a boca. Zip. Fim da história.
Saí para o pátio calmo, cabisbaixo, de mãos nos bolsos, e lá soube, não precisei que me dissessem, que essa é mais uma das histórias de Daniel.

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Isso nunca me aconteceu ontem

09/11/2007 · Deixe um comentário

por Biu, Stevz* e Roberta

Um homem. Uma mulher. Um jogo de xadrez. Enquanto os ovos ficavam prontos na frigideira.

“Não se preocupe, sua vida é passageira”.

“Em média são 20 acidentes por hora”.

com colaborações de Endrigo e Gomez.

*Stêvz é Estevão Vieira, brasiliense, ilustrador e músico. Contatos pelo e-mail stevz_vieiron@hotmail.com

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Obituário

06/09/2007 · Deixe um comentário

por Biu

1. Com os dois pés na cova: Daniel, o nome dele. Abordou-me na entrada daquele lugar e informou-me que o fim está próximo, ele me pede desculpas mas precisa me dizer isso porque me ama e quer que eu me salve, ele tem lágrima nos olhos, ele sabe que eu sei do que ele fala, eu tento não olhar no seu olho mas ele fica se reposicionando com passinhos curtos na minha frente e ficamos um bom tempo nos fitando enquanto ele destila suas verdades. Apesar de ele ser bem mais velho que eu ele tem bem mais energia, então ataco logo com um conselho de que ele tome cuidado com o que vai fazer com tanta energia, e ele me pergunta como assim. Bem, talvez esses pensamentos lhe tirem do prumo da vida quotidiana… Mas eu sou o mais normal dos homens, ele me responde. Não me entenda mal, não quero vender-lhe nada, não represento nenhuma religião, nenhum partido politico. Por que você acha que morremos? Porque nascemos, respondo perguntando. Nós não nascemos para morrer, mas há quem insista e esses morrerão, e falta pouco. Muita gente vai morrer para que o Cristo viva, mas dessa vez serão as pessoas certas, não se preocupe. Guarde esta data pois eu lhe lembrarei dela daqui a um milhão de anos, Daniel diz.
E naquela noite, quando dormi e o tempo acabou para mim, eu não sei dizer.

2. Com um pé na cova: Mas acordei feliz e disposto hoje, espero não ser atropelado ou coisa parecida. Aqui tem muito desses loucos. A quantidade de pessoas falando sozinhas nas ruas, você não iria acreditar. Muitas delas acabam te abordando, já vi piores, uma vez levei um tapa e de vingança paguei outra dose ao meu agressor, então, como dizia, há muitos loucos por aqui, valha-me Santa Daphne Padroeira dos Loucos, Possessos, Sonâmbulos, Endemoninhados e Eplepticos, faltou alguém aí??
Pois é, só eu, eu estou só, estão todos contra um, mas jamais irão me pegar com vida, ha ha ha.
Jean Baptist de Oliveira, 16, 06, 73 a 15, 05, 05.

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Terno & Gravata

17/08/2007 · Deixe um comentário

por Biu e Tiago Penna*

bzzt! diz:
e agora podemos postar o japa?
E.T. diz:
é sobre o que o vídeo?
bzzt! diz:
sobre como aproveitar bem a boa vontade dos outros, no caso o japa
E.T. diz:
esses são os bastidores, o enredo, ao meu ver, é sobre a destituição político-social que todos nós possuímos em nossa pseudo-democracia
E.T. diz:
concordas? o interessante é como o vídeo foi feito… vc se lembra? um parto às avessas
bzzt! diz:
bem, o q eu disse tem a ver como ele foi feito, não?
E.T. diz:
claro, mas vc se lembra que o compromisso durante a filmagem era diferente do mesmo quando posteriormente foi feito o roteiro, que se modificou na montagem?
bzzt! diz:
concordo com o q tu disse sobre a situação social
bzzt! diz:
bem, eu levei em conta o q tínhamos e o q dava pra fazer com aquilo
E.T. diz:
ele é um descamisado engravatado!!
E.T. diz:
sim, graças a você e seu espírito ecológico o material não foi pras cucuias
bzzt! diz:
acho realmente q o japa teve muita boa vontade
bzzt! diz:
muito
E.T. diz:
teve demais, embora ele não seja exatamente um, digamos, ator profissional
bzzt! diz:
arrumou o figurino, foi paciente…
bzzt! diz:
pagou o mico
E.T. diz:
mas emprestar o terno. ir de manhã cedo para o centro, topar da noite pro dia em assumir o papel, isso tudo foi graças ao japa, e não aos pré-produtores, que inclusive fizeram um vídeo poesia, tal qual planejado bem ruim, e não nos colocaram nos créditos, e mais vieram cobrar
bzzt! diz:
kkk
bzzt! diz:
os produtores eram muito estrelas
bzzt! diz:
foi o filme do filme
E.T. diz:
embora nao tivessem a mínima experiência com o audiovisual
E.T. diz:
mas tinham comprometimento, embora desviado, tenhamos que assumir
bzzt! diz:
eu lembro do cara dizendo – mas é assim q vou ganhar nota e é assim q eu quero
E.T. diz:
Graças a Deus nosso vídeo nunca entrou na academia
bzzt! diz:
seria queimação pra gente
E.T. diz:
demais, lyceu rulesx
bzzt! diz:
pois bem, então pra mim foi um filme de edição, uma brincadeira de dar sentido praquelas imagens.
E.T. diz:
exato, e o método do roteiro compartilhado simultaneamente também foi um exercício muito frutífero, produtivo e gratificante, deveria ser repetido mais vezes
bzzt! diz:
claro, foi um exercício de comunicação massa
E.T. diz:
fico honrado em ter feito um vídeo 200% com você
bzzt! diz:
500 com o acaso
E.T. diz:
há quem fale mal da paquerada do japa no final, mas creio que reflete uma falta de sensibilidade
E.T. diz:
1000% agora que será postado em nosso blog coletivo
bzzt! diz:
ah, falta de senso de humor. preciosismo bobo
E.T. diz:
conheço um cara que é “crítico”. além dele falar difícil pacas, sempre qualifica as obras de acordo com parâmetros e conceitos pré-estabelecidos, ou seja, um pé no saco, principalmente levando em conta esse vídeo exatamente
bzzt! diz:
ignoro
bzzt! diz:
não q exista, a existência
E.T. diz:
pois bem, que o público se divirta, reflita sobre a vida estética, e faça sua própria crítica da faculdade de julgar kantiana, como é de se esperar…
bzzt! diz:
sim, não tem q fazer sentido
bzzt! diz:
por si, digo
E.T. diz:
a leitura interpretativa das obras de arte perpassam o horizonte de conhecimento do sujeito, e por isso o fascínio das artes, falando agora em termos gadarmianos sob interpretação pensativa
E.T. diz:
divaguemos mais surrealisticamente, faz favor
bzzt! diz:
kkk
bzzt! diz:
pior q fez sentido pra mim
E.T. diz:
vc acha que este texto ficará robusto demais par aos nosso leitores dedicados do além tejo?
bzzt! diz:
acho que ficará piroso comum
bzzt! diz:
como eles dizem
bzzt! diz:
tive q olhar no dicionário
E.T. diz:
dictionarys suxs, legal, são divertidíssimos.
E.T. diz:
deveríamos brincar mais de escrever juntos
bzzt! diz:
eu gosto disso. tá lendo o q?
bzzt! diz:
tá sem tempo?
E.T. diz:
bem, eu li a metafísica do príncipe da filosofia, e agora pretendo reler o ensaio sobre o cinema
bzzt! diz:
quem é o tal príncipe?
E.T. diz:
Aristóteles, discípulo que superou o próprio Pai – Platão
bzzt! diz:
nunca li
E.T. diz:
vc deveria ler também, pra gente metamorfosear juntos
bzzt! diz:
tu gosta das tragédias?
E.T. diz:
gosto sim, embora alguns arquétipos sejam pesados para conceber da maneira usual
E.T. diz:
creio que agora já podemos postar
bzzt! diz:
sim. dá pra resumir, pr
E.T. diz:
enviemos para a redação, sil vous plait.
bzzt! diz:
kkk
E.T. diz:
bye, my friend
bzzt! diz:
. tu pode cuidar disso, plz?
E.T. diz:
até breve = cuido
bzzt! diz:
bj, véi

.
* Tiago Penna é candango, professor de filosofia, videasta, roteirista, produtor e mais outras coisas em audiovisual.

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Terminal Zero

06/07/2007 · Deixe um comentário

por Biu

Isso tudo tem a ver com tédio, também.

E só ocorreu-me há pouco que o ego é uma invenção deles, não minha, que os invento, e chega a ser cômico vê-los tentando agarrar-se a esse trambolho tão desesperadamente para não se afogarem no mar, no cold black sea. Que esse bicho flutue, é um milagre, sem dúvida. Você não acha? E seria realmente de muitíssima utilidade, se não mordesse.

Porra, que azar! Há tanto tempo sem terra firme e vagando no espaço, monologando com a bóia-cão, escrevendo no papel branco e comendo gafanhotos. De catâmbrias. Número doze: É elefante com certeza. Branco. Saco cheio de tanto esperar.

Eu quase me identifico com essas minhas crias…

E aí vem ela. A maré enche novamente, a lua esvazia, eu subo. Minhas estruturas cedem, novamente. Em suas lascas moram ratos. Não me importo, aqui estão todos de passagem. Muitos riscos em minha pele. Eles sumirão e quem os riscou também, de um jeito ou de outro. Estão todos de passagem.

Ela me seduz. E com que facilidade, com o seu vai e vem. É sempre doído desgrudar das bases, mas eu nunca ofereço resistência e deixo que me inunde. Eu gosto de seus pés, de lambê-los quando ela geme, e gosto de seu sexo quando encharca. Ela gosta de ser fodida com força, e sendo assim, assume a posição, ou segurando os tornozelos, pernas grossas esticadas, ou de quatro, quando às vezes peço para que abra seu sexo para mim, e ela o faz. Quando estou em forma ela acompanha o ritmo soprando, a marcha acelerada, e ultimamente responde todas as sacanagens com – hum hum.

Mais uma lua. Acendo outro cigarro. Dou o bilhete, passo a roleta. Vejamos o que a maré baixa nos deixou… Algumas decepções, cacos de sonhos, como sempre, e o solo fértil, onde plantar novos.

Embarco. Sem mim, a plataforma desaba. Seus ratos e homens afogam-se, mas não nessa ordem. De que adiantou tanto debaterem-se, não importa mais. Uma senhora aparece com seu filho, me explica que ele está enjoado e me pergunta se faço questão da janela. Eu respondo que sim.

Durante a viagem, apreciando a paisagem, eu sentirei a princípio alívio, respirando o ar puro, e depois prazer, e, então, no ápice de meu prazer, regozijando, de meu lado, do boy da velha, virá o jorro, eu sei, mas dou de ombros à desaprovação geral, abro a janela e inclino a poltrona. É a minha natureza.

Durmo. Acordo, e estou de volta à plataforma, que está novamente de pé. Tudo está como antes e eu acharia que tudo não passou de um sonho, não fosse o vômito em minhas calças. Confuso, pergunto ao motorista que lugar é este, ele olha curioso para mim e estira-me uma flanela. Recuso com um gesto. Francamente. Tenho mais com o que me preocupar.

Desço. Sou eu novamente, Severiano Araújo, Terminal Rodoviário Severiano Araújo, para ser exato. Edificado sobre um mangue. Agora sei como eles se sentem, estes meus hóspedes transeuntes, e juro para mim mesmo que jamais passarei por aquela roleta outra vez, mas, aí, vem ela.

… e é assim desde sempre. Festa e catástrofe. Estamos todos de passagem.

- Boa noite, eu sou quem vai levá-los de volta aonde desejam chegar. As janelas vermelhas são saídas de emergência, mas nunca funcionam, o uso do cinto é opcional. Boa viagem.

Categorias: TEXTO
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A chave das portas erradas

29/06/2007 · Deixe um comentário

por Biu e Stêvz*

Um vídeo de Biu e Stevz
Edição de Roberta AR
Música de Stevz

*Stêvz é Estevão Vieira, brasiliense, ilustrador e integrante do grupo musical Tio Onofre. Contatos pelo e-mail stevz_vieiron@hotmail.com

Categorias: VÍDEO
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Circo Bizarro de Melius Z.

25/05/2007 · Deixe um comentário

por Roberta e Biu
(em música de Estevão Vieira)


*Em exibição no Festival Guarnicê (UFMA) no dia 14 de junho.

Categorias: VÍDEO
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Soft Porn

11/05/2007 · Deixe um comentário

por Biu e Stevz*

*Stevz é brasiliense, ilustrador e integrante do grupo musical Tio Onofre. Contatos pelo e-mail stevz_vieiron@hotmail.com

Categorias: QUADRINHO
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F for Knife

13/04/2007 · Deixe um comentário

por Biu

Ali imprensado contra a parede de som ele concebeu o pior ato de vilania que jamais seria capaz de imaginar. Acendeu mais um cigarro e três tragadas depois apagou-o na cara do sujeito que o imprensava. No instante seguinte estava sendo moído pelos grandões amigos do grandão. Enquanto os grandões do grandão o moíam ele sentiu-se como se estivesse em queda livre para dentro de outra dimensão. E passou tanto tempo por lá, talvez estivesse em coma, ou talvez tivesse sonhado com aquilo, mas ele também não lembrava de ter acordado, essa questão nunca ficou bem definida para ele.
Em sua nova vida ele faz outras coisas, mas ainda é ele. Ele agora é Eletric Lady Knife e está cruzando a praça em direção a Rua das Fuers, 36, onde mora.

Eletric Lady Knife (rise and fall)

Enquanto subia pelo elevador a Senhora Uchoua pensava coisas que tinham a ver com o hiperespaço e as marcas Guinso e Tramontina.
Quando ela chegou em casa encontrou seu marido nu sentado ao rodapé descarregando eletrochoques no própio pau. Ele gostava daquilo, e por que não? Esses anos todos, ela nunca desconfiou. A conta de luz , o cheiro de queimado, o blecaute, ela nunca desconfiou.
Ela decide então, num lampejo de lucidez induzida eletronicamente, ignorar aquilo e cruzar a sala com elegância muda. E nunca mais tocar no assunto. Mas no caminho, assaltada por um ímpeto de pudor vingativo, resolve desligar a chave geral. Ela não devia ter feito isso.
Yutakai Uchoua, mais tarde conhecido como Yuta Shok, decidiu, naquele mesmo instante, não utilizar mais os fios desencapados para reprimir seus impulsos homicidas, e dar cabo de seu até então bem sucedido casamento de fachada atirando a Senhora Uchoua pela janela do sexto andar. O que Yuta Shok não sabia era que a Senhora Uchoua tinha uma foice.

Uchoua Foice, Yuta Shok (2x)

Well, a Senhora Uchoua, apesar de ter deixado o chuveiro ligado, já há algum tempo encontrava-se ajoelhada em seu quarto, remexendo as gavetas de sua cômoda vocês já sabem em busca de quê. E ela achou, com a ajuda da lanterninha do celular, que tocou avisando que a bateria estava fraca bem na hora que Mister Shok, duzentos e vinte volts de pura malícia, desligava o chuveiro e perguntava languidamente – “Já em casa, baibê?” .
A Senhora Uchoua, então, num rompante, solta a foice, fecha a gaveta e pergunta – “O que houve com a luz, Hôney?” Desperdiçando assim sua última chance de sair dessa com vida.

Uchoua Foice. Yuta Shok. Eletrofight.

Zip, zap. Miss Uchoua ainda teve tempo de dar uma ou duas apeladas e então viu sua vida passar ante os olhos enquanto caía deselegantemente. Entre sua janela e a do quinto andar ocorreu-lhe que Hulks são de Marte e Smurfs são de Vênus. Entre o quarto e o segundo andar ela viu o dia de seu casamento, o de sua morte e o de seu nascimento, puta vida tediosa, hein? Mas havia algo de errado ali pois em sua visão não era assim que ela morria, era dali há três dias, em uma cama de hospital, cheia de hematomas de uma sova dada por uns grandões. Lady Knife fechou então os olhos, desejou morrer e se estabacou.
Enquanto a calçada recebia sua ex-mulher, seis andares acima, o agora viúvo Yutakai dava as costas e voltava à sala, bzzt.

Bzzt, bzzt. Uau! Yeah…

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Bem Gostoso

31/03/2007 · Deixe um comentário

por Biu e Roberta
(em música de Zackarias Nepomuceno)

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Sirva-se Records Rádio Rock

24/03/2007 · Deixe um comentário

por Melius Z.*

* Melius Zapiranga é o desenhista, roteirista e editor do almanaque Bongolê Bongoró que teve a primeira edição com tiragem independente. Quem quiser adquiri-la por R$ 5 mais o frete é só entrar no blog oficial da edição www.bongole.blogspot.com.

Categorias: QUADRINHO
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AH! CA-BA-RAM-SE OS ZÉ-MA-NÉS. Serve Juquinhas? (ou: prabomentendedormeiapalavrabá)

08/02/2007 · Deixe um comentário

por Melius Z.* (título do Biu)

* Melius Zapiranga é o desenhista, roteirista e editor do almanaque Bongolê Bongoró que teve a primeira edição com tiragem independente. Quem quiser adquiri-la por R$ 5 mais o frete é só entrar no blog oficial da edição www.bongole.blogspot.com

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I´m dead, I´m dead, I´m dead

23/12/2006 · Deixe um comentário

por Biu

“Maybe I´m just like my mother, she´s never satisfied”. Mas eu não gostaria de escrever a ninguém mais que não você, que infelizmente não pode mais me ouvir. É próprio de quem escuta não ouvir e de quem enxerga não ver. Que importa, pois, fazer o caminho inverso e escrever aos mortos? Há um imenso vazio intransponível entre os vivos – the cold black sea – e agora que você se banha nessas águas, finalmente me sinto mais próximo à você: sinto-me morto e feliz.

Eu não fui ao festival de cinema de Quadradinho de Goiás.
Eu não passei férias em Balneário Filipéia.
Eu não vi o último trampo de Cicraninho Multimídia.
Eu não ri de tua piada, de nenhuma delas.

E no entanto fui e vi e ri, eu ri muito. Morrer é um meio de vida. E não há nada mais fácil para um morto que misturar-se aos vivos. Quando percebem que não ofereço resistência eles abrem os braços e estalam beijinhos e estiram a mão. Mas é que os vivos são enfadonhos de tão óbvios, principalmente os ruminantes, eles me enchem de um tédio mortal.

As pedras não. As pedras são gente-boa. Principalmente as que rolam.

Let´s get rolling forever, mom.

Beijão.


Caveiras, por Biu

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