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	<title>Facada Leite-Moça &#187; Machado de Assis</title>
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	<description>Nossa execução é doce...</description>
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		<title>Facada Leite-Moça &#187; Machado de Assis</title>
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		<title>A Carteira</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Apr 2008 00:32:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>facadaleitemoca</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Machado de Assis]]></category>

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		<description><![CDATA[por Machado de Assis*
&#8230; De repente, Honório olhou para o chão e viu uma carteira.
Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:
— Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.
— É [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=facadaleitemoca.wordpress.com&blog=3671264&post=8&subd=facadaleitemoca&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:justify;"><strong>por Machado de Assis*</strong></p>
<p style="text-align:justify;">&#8230; De repente, Honório olhou para o chão e viu uma carteira.</p>
<p style="text-align:justify;">Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:</p>
<p style="text-align:justify;">— Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.</p>
<p style="text-align:justify;">— É verdade, concordou Honório envergonhado.</p>
<p style="text-align:justify;">Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as quantias são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro.</p>
<p style="text-align:justify;">Endividou-se. Começou pelas contas de lojas e armazéns; passou aos empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um turbilhão perpétuo, uma voragem.</p>
<p style="text-align:justify;">—Tu agora vais bem, não? dizia-lhe ultimamente o Gustavo C&#8230;, advogado e familiar da casa.</p>
<p style="text-align:justify;">— Agora vou, mentiu o Honório.</p>
<p style="text-align:justify;">A verdade é que ia mal. Poucas causas, de pequena monta, e constituintes remissos; por desgraça perdera ultimamente um processo, com que fundara grandes esperanças. Não só recebeu pouco, mas até parece que ele lhe tirou alguma cousa à reputação jurídica; em todo caso, andavam mofinas nos jornais.</p>
<p style="text-align:justify;">D. Amélia não sabia nada; ele não contava nada à mulher, bons ou maus negócios. Não contava nada a ninguém. Fingia-se tão alegre como se nadasse em um mar de prosperidades. Quando o Gustavo, que ia todas as noites à casa dele, dizia uma ou duas pilhérias, ele respondia com três e quatro; e depois ia ouvir os trechos de música alemã, que D. Amélia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo escutava com indizível prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente falavam de política.</p>
<p style="text-align:justify;">Um dia, a mulher foi achá-lo dando muitos beijos à filha, criança de quatro anos, e viu-lhe os olhos molhados; ficou espantada, e perguntou-lhe o que era.</p>
<p style="text-align:justify;">— Nada, nada.</p>
<p style="text-align:justify;">Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da miséria.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas as esperanças voltavam com facilidade. A idéia de que os dias melhores tinham de vir dava-lhe conforto para a luta. Estava com, trinta e quatro anos; era o princípio da carreira: todos os princípios são difíceis. E toca a trabalhar a esperar, a gastar, pedir fiado ou: emprestado, para pagar mal, e a más horas.</p>
<p style="text-align:justify;">A dívida urgente de hoje são uns malditos quatrocentos e tantos mil-réis de carros. Nunca demorou tanto a conta, nem ela cresceu tanto, como agora; e, a rigor,o credor não lhe punha a faca aos peitos; mas disse-lhe hoje uma palavra azeda, com um gesto mau, e Honório quer pagar-lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da tarde.</p>
<p style="text-align:justify;">Tinha-se lembrado de ir a um agiota, mas voltou sem ousar pedir nada. Ao enfiar pela Rua. da Assembléia é que viu a carteira no chão, apanhou-a, meteu no bolso, e foi andando.</p>
<p style="text-align:justify;">Durante os primeiros minutos, Honório não pensou nada; foi andando, andando, andando, até o Largo da Carioca. No Largo parou alguns instantes, — enfiou depois pela Rua da Carioca, mas voltou logo, e entrou na Rua Uruguaiana. Sem saber como, achou-se daí a pouco no Largo de S. Francisco de Paula; e ainda, sem saber como, entrou em um Café. Pediu alguma cousa e encostou-se à parede, olhando para fora. Tinha medo de abrir a carteira; podia não achar nada, apenas papéis e sem valor para ele. Ao mesmo tempo, e esta era a causa principal das reflexões, a consciência perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro que achasse. Não lhe perguntava com o ar de quem não sabe, mas antes com uma expressão irônica e de censura. Podia lançar mão do dinheiro, e ir pagar com ele a dívida?</p>
<p style="text-align:justify;">Eis o ponto. A consciência acabou por lhe dizer que não podia, que devia levar a carteira à polícia, ou anunciá-la; mas tão depressa acabava de lhe dizer isto, vinham os apuros da ocasião, e puxavam por ele, e convidavam-no a ir pagar a cocheira. Chegavam mesmo a dizer-lhe que, se fosse ele que a tivesse perdido, ninguém iria entregar-lha; insinuação que lhe deu ânimo.</p>
<p style="text-align:justify;">Tudo isso antes de abrir a carteira. Tirou-a do bolso, finalmente, mas com medo, quase às escondidas; abriu-a, e ficou trêmulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro; não contou, mas viu duas notas de duzentos mil-réis, algumas de cinqüenta e vinte; calculou uns setecentos mil-réis ou mais; quando menos, seiscentos. Era a dívida paga; eram menos algumas despesas urgentes. Honório teve tentações de fechar os olhos, correr à cocheira, pagar, e, depois de paga a dívida, adeus; reconciliar-se-ia consigo. Fechou a carteira, e com medo de a perder, tornou a guardá-la.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas daí a pouco tirou-a outra vez, e abriu-a, com vontade de contar o dinheiro. Contar para quê? era dele? Afinal venceu-se e contou: eram setecentos e trinta mil-réis. Honório teve um calafrio.</p>
<p style="text-align:justify;">Ninguém viu, ninguém soube; podia ser um lance da fortuna, a sua boa sorte, um anjo&#8230; Honório teve pena de não crer nos anjos&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Mas por que não havia de crer neles? E voltava ao dinheiro, olhava, passava-o pelas mãos; depois, resolvia o contrário, não usar do achado, restituí-lo. Restituí-lo a quem? Tratou de ver se havia na carteira algum sinal.</p>
<p style="text-align:justify;">&#8220;Se houver um nome, uma indicação qualquer, não posso utilizar-me do dinheiro,&#8221; pensou ele.</p>
<p style="text-align:justify;">Esquadrinhou os bolsos da carteira. Achou cartas, que não abriu, bilhetinhos dobrados, que não leu, e por fim um cartão de visita; leu o nome; era do Gustavo. Mas então, a carteira?&#8230; Examinou-a por fora, e pareceu-lhe efetivamente do amigo. Voltou ao interior; achou mais dous cartões, mais três, mais cinco. Não havia duvidar; era dele.</p>
<p style="text-align:justify;">A descoberta entristeceu-o. Não podia ficar com o dinheiro, sem praticar um ato ilícito, e, naquele caso, doloroso ao seu coração porque era em dano de um amigo. Todo o castelo levantado esboroou-se como se fosse de cartas. Bebeu a última gota de café, sem reparar que estava frio. Saiu, e só então reparou que era quase noite. Caminhou para casa. Parece que a necessidade ainda lhe deu uns dous empurrões, mas ele resistiu.</p>
<p style="text-align:justify;">&#8220;Paciência, disse ele consigo; verei amanhã o que posso fazer.&#8221;</p>
<p style="text-align:justify;">Chegando a casa, já ali achou o Gustavo, um pouco preocupado e a própria D. Amélia o parecia também. Entrou rindo, e perguntou ao amigo se lhe faltava alguma cousa.</p>
<p style="text-align:justify;">— Nada.</p>
<p style="text-align:justify;">— Nada?</p>
<p style="text-align:justify;">— Por quê?</p>
<p style="text-align:justify;">— Mete a mão no bolso; não te falta nada?</p>
<p style="text-align:justify;">— Falta-me a carteira, disse o Gustavo sem meter a mão no bolso.</p>
<p style="text-align:justify;">— Sabes se alguém a achou?</p>
<p style="text-align:justify;">— Achei-a eu, disse Honório entregando-lha.</p>
<p style="text-align:justify;">Gustavo pegou dela precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo. Esse olhar foi para Honório como um golpe de estilete; depois de tanta luta com a necessidade, era um triste prêmio. Sorriu amargamente; e, como o outro lhe perguntasse onde a achara, deu-lhe as explicações precisas.</p>
<p style="text-align:justify;">— Mas conheceste-a?</p>
<p style="text-align:justify;">— Não; achei os teus bilhetes de visita.</p>
<p style="text-align:justify;">Honório deu duas voltas, e foi mudar de toilette para o jantar.</p>
<p style="text-align:justify;">Então Gustavo sacou novamente a carteira, abriu-a, foi a um dos bolsos, tirou um dos bilhetinhos, que o outro não quis abrir nem ler, e estendeu-o a D. Amélia, que, ansiosa e trêmula, rasgou-o em trinta mil pedaços: era um bilhetinho de amor.</p>
<p>.</p>
<p style="text-align:justify;">* 2008 é o ano do centenário de morte de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Machado_de_Assis">Machado de Assis</a>. Esse conto foi extraído do site Domínio Público</p>
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