Facada Leite-Moça

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Isto também é Brasília

11/12/2009 · 4 Comentários

por Roberta

Evandro Esfolando

Experiência de videorreportagem com Evandro Esfolando, escritor, quadrinista, músico e demiurgo de Brasília. Ele fala sobre livros, discos, gibi, filmes…

Realizado com o auxílio luxuoso do Biu.

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CONIC

O que é o CONIC? Ponto cultural? Centro histórico? Zona?

Conversas com Alex Vidigal, Natinho e Lima, figuras lendárias do pedaço que tentam explicar o que afinal é o CONIC.

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Salvem a Roberta!

17/07/2009 · Deixe um comentário

por Roberta

A colônia se estabeleceu naquela região. O ambiente era propício. Relevo e clima, adequados. Eram os 16 anos de Roberta, na segunda fase de sua Era Fisiológica.

No início eram poucos, que, rapidamente, se tornaram milhões, nas sucessivas gerações que habitavam a fronte. “A civilização!”, os expansionistas exultavam em seus discursos inflamados, que empolgavam a população, em especial a que vivia nos seios da face.

- Temos que chegar ao topo do osso nasal! Esse será o nosso legado às futuras gerações!

Porém este não era um discurso que convencia a todos. Roberta não era mais um ambiente tão abundante em recursos quanto no início da colonização. Os ambientalistas previam um colapso iminente no corpo, que já estava no fim da sua terceira fase fisiológica.

- Não podemos esgotar todos os recursos. Corremos o risco de provocar um aquecimento global e tornar toda a Roberta inabitável.

Marchas “Salvem a Roberta” foram realizadas nos seios da face e no osso frontal. Em represália, atos de violência foram comandados pelos expansionistas, que controlavam as forças armadas.

Exatamente neste período, a umidade aumentou consideralvemente, e os ambientalistas afirmavam que já eram os efeitos do aquecimento global. Glóbulos brancos passaram a ser mais freqüentes e dizimavam grande parte dos germes, para a ira dos expansionistas, que decidiram pelo controle total do corpo.

- Salvem a Roberta! Salvem a Roberta! – gritavam os que queriam preservar aquele ecossistema.

Mas os germes passaram a habitar em toda a parte, exaurindo os recursos rapidamente. Roberta começou a aquecer de maneira drástica, pegando toda a população de surpresa. Chegou aos 42 graus centígrados, o que gerou um tsunami fleumático, que eliminou praticamente toda a colônia.

O resultado final: o ocaso. Era o fim de Roberta, como nas previsões mais pessimistas.

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Cinema de classe

10/04/2009 · Deixe um comentário

por Roberta

Toda a arte é carregada de ideologia. Não seria diferente com o cinema. Mas, apesar de toda obra ser permeada das idéias políticas, sociais e filosóficas de seus autores, algumas tratam disso de maneira bem explícita. É sobre o cinema que trata da causa operária, um cinema de classe, que se tratará aqui, numa espécie de mini-guia do gênero.

Não se pode falar de cinema sobre a causa proletária sem citar o Cinema Revolucionário Soviético. Sergei Eisenstein foi o principal representante do gênero e é mais conhecido pelo seu Encoraçado Potemkim (1925), que trata da rebelião dos marinheiros deste navio por maus tratos. A cena do massacre nas escadarias de Odessa é uma referência para o cinema ainda hoje.

Antes, Eisenstein realizou A Greve (1924), que conta a triste história do movimento grevista que antecedeu a revolução de 1917. Uma fotografia impecável, numa história que traz no seu trágico final as justificativas para a revolução bolchevique.

Em 1964, o cineasta Mikhail Kalatozov concluiu Soy Cuba, numa parceria entre a União Soviética e Cuba. Este épico relata os acontecimentos que desencadearam na ascensão de Fidel Castro ao poder. O filme, falado em espanhol e russo, não agradou nenhum dos dois países e foi engavetado, apesar do enorme gasto e tempo dedicado para sua execução. O documentário brasileiro Soy Cuba – o mamute siberiano (2004), de Vicente Ferraz, recupera a história desta fita, que se tornou um clássico tardio do gênero.

O cineasta britãnico Ken Loach dedicou sua carreira a realizar filmes sobre as condições de vida da classe operária. Seu filme mais conhecido no Brasil é Terra e Liberdade (1995), que conta a história da Revolução Espanhola e das atividades do grupo anarquista Poum, que uniu forças da esquerda para derrotar o franquismo e foi traída por Stalin.

Segunda-feira ao sol (2003) conta a história de um grupo de estivadores desempregados que buscam ocupar seus dias ao sol conversando no bar. O filme, dirigido por Fernando León de Aranoa, relata os tempos do desemprego em massa e a desorientação pela falta de trabalho, aquilo que seria o suporte para a dignidade. O filme foi premiado em Gramado.

Do Brasil, podemos citar o filme Eles não usam black-tie (1981), baseado na peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri e dirigido por Leon Hirzman. Um conflito familiar acontece em meio a um movimento grevista, um cenário comum nos bairros operários na década de oitenta.

Também brasileiro, o documentário Terra para Rose (1987) relata a história da companheira Rose, militante sem-terra e sua luta pela reforma agrária no Rio Grande do Sul. A história do sonho de transformar a realizada sofrida e a perseguição que isso resulta.

Muitos outros filmes poderiam entrar nesta lista, mas creio que aqui temos um bom começo. Para encerrar, uma dica de quem “nasceu no subúrbio operário”: Rota ABC (1991), de Francisco César Filho. O filme conta a história de filhos de operários ao som dos Garotos Podres.

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Enfim: o homem-máquina

27/02/2009 · Deixe um comentário

por Roberta

A humanidade tem demonstrado, nas últimas décadas, uma grande preocupação com o avanço tecnológico que pode desencadear na inteligência artificial independente. Dizer “a humanidade” pode parecer um tanto exagerado, pois o tema tem sido tratado principalmente pela literatura de ficção científica e pelo cinema. Apesar disso, é provável que todo mundo já tenha pensado no assunto e ter sentido um princípio de pavor.

Máquinas que começam a tomar decisões por conta própria é algo realmente assustador. HAL é o computador que tomas as rédeas de uma missão espacial em 2001, Uma Odisséia no Espaço. Em Matrix, a humanidade é escravizada para gerar energia para as máquinas que dominam a terra. Esses são apenas alguns exemplos do que seria esse tal futuro iminente.

Pensar no caminho inverso, entretanto, não é tão comum. Mas é o caminho que temos trilhado. Hoje, homens são tratados como máquinas com naturalidade, sem que ninguém se dê conta do fato. Aliás, quase ninguém.

Em Aprender a Rezar na Era da Técnica, do português Gonçalo M. Tavares, o personagem principal, Lenz Buchmann, é um médico que trata a humanidade racionalmente e com indiferença para atingir seus objetivos pessoais. Sua relação com os doentes e com a doença é puramente técnica: “a sua aproximação do sofrimento era individual; não aceitava o sofrimento emprestado de outros; a compaixão era um sentimento desnecessário, ou, como o próprio Lenz referia, uma ferramenta inútil para a existência, que tecnicamente nada resolvia; alguém segurava num martelo para unir dois tecidos” (p.66).

Com o avanço tecnológico e científico, somos tratados como coisas que podem ser divididas em pedaços. Assim a medicina consegue se especializar em partes do corpo e não somos mais algo vivo e uno, mas uma máquina com engrenagem a ser estudada. Essa indiferença ao indivíduo é demonstrada de maneira divertida, e bastante crítica, pelo grupo inglês Monty Python, quando o barulho das máquinas é mais importante que a ação complexa da natureza, nesse trecho do filme O Sentido da Vida:

É, então, com naturalidade que aceitamos e nos submetemos a uma avaliação antes feita às máquinas. Conceitos como desempenho, eficiência e resultado, antes aplicados pela engenharia a maquinários, agora são usados para avaliar (ex) seres humanos, que precisam competir com seu próprio invento, já que são inúmeros os postos de trabalho que são mecanizados e extintos. Temos que otimizar nossa existência e nosso tempo, pois tempo é dinheiro e dinheiro é o que mede tudo.

Em Manifesto Contra o Trabalho, o Grupo Krisis estuda essa adoração ao “deus” trabalho, que está cada vez mais escasso, em vias de extinção, segundo os autores, o que pode ser o reflexo dessa crise internacional que estamos passando hoje. E quanto menos trabalho há, mais eficientes precisamos ser, assim vestimos a camisa da empresa e agimos “para o trabalho” quando estamos em casa, de férias, com amigos. Somos neo-máquinas prontas para sermos indispensáveis ao sistema. “Cada segundo é calculado, cada ida ao banheiro torna-se um transtorno, cada conversa é um crime contra o fim autonomizado da produção” (p.34).

Nos submetemos a isso, porque precisamos ser os melhores. Não melhores pessoas hoje do que fomos ontem, mas melhores que os outros. Se é o dinheiro que mede tudo, na prática, para sermos melhores, precisamos nos apresentar como os mais eficientes. Temos que ter a família mais aparentemente adequada, essa obsessão da classe média, não é possível dizer feliz, porque isso não está em questão. Somos melhores quando vivemos no primeiro mundo, somos brancos, homens, adultos, temos o carro do ano mais caro e exclusivo, além de todo o tipo de acessório top de linha e de marcas caras que nos tornarão capazes de desempenhar de maneira mais eficiente nossos papéis nas engrenagens sociais.

Mas isso gera consequências nefastas nas pessoas. Solidão, ansiedade, depressão são as companheiras de grande parte da população mundial. Como novos mecanismos produzidos pela tecnologia, buscamos a cura em “manuais de instrução”, daquele mesmo tipo que procuramos quando o liquidificador enguiça. E são manuais que te ajudam a se auto-ajudar com processos simples e eficazes. Você aprenderá a ser alguém vencedor e ter amigos, a otimizar seu tempo, a educar seu filho para um desempenho de sucesso e assim por diante.

Caso os manuais não ajudem, a indústria farmacêutica o fará. Com muita facilidade desajustes que podem diminuir seu desempenho serão eliminados por algum medicamento. Uma cápsula para dormir, outra para acordar. Um comprimido para deixar de ficar ansioso, outro para eliminar a tristeza. Crianças com seus distúrbios de atenção controlados e domesticados. Homens com total controle de suas ereções. Num futuro próximo, poderemos até eliminar os traumas com apenas uma pílula.

Inventamos as máquinas porque éramos seres frágeis diante da natureza selvagem, e desde o uso da primeira lança de madeira, nos primórdios da humanidade, as coisas perderam um tanto o controle. No livro Cabeça de Ferro, editado pela Imprensa Canalha, Luiz Luiz afirma que “com a máquina metamorfoseando-nos. De animal subjugado e indefeso fomo-nos gradualmente nos tornando em ser dominante.(…) Admirados pelas suas capacidades e pelo nosso engenho, acabamos por vezes submetidos a ela. Depois de vencidos pela Máquina num jogo de xadrez, parece estarmos agora a perder o jogo da Humanidade (…)”.

É neste ponto que estamos. Ao invés das máquinas pensarem como homens e dominarem o mundo, são os homens que passam a (não) pensar como elas e se subjugam por livre espontânea vontade. É tão grande a carência de humanidade, que isso passa a se refletir até na ficção comercial. A animação vencedora do Oscar este ano conta a história de um robô emotivo, que sente saudade do tempo em que o planeta era habitado por seres vivos. Wall-e pode ser apenas mais uma projeção do que já é real e está instaurado entre nós, mas ainda não estabelecido, por enquanto.

O filósofo alemão Martim Heidegger manifestou sua indignação com os rumos que o homem escolheu para si, preferindo ser um “monstro da técnica” e se afastar daquilo que devia importar e que faz do homem, homem. No livro Introdução à Metafísica, de 1953, ele escreve algo que resume um pouco tudo isso e é esse trecho que uso como conclusão. Que fique como uma reflexão:

“Quando o mais afastado rincão do globo tiver sido conquistado tecnicamente e explorado economicamente; quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com qualquer rapidez: quando um atentado a um Rei na França e um concerto sinfônico em Tóquio puder ser ‘vivido’ simultaneamente; quando tempo significar apenas rapidez, instantaneidade e simultaneidade e o tempo, como História, houver desaparecido da existência de todos os povos; quando o pugilista valer, como o grande homem de um povo; quando as cifras em milhões dos comícios de massa forem um triunfo, – então, justamente então continua ainda a atravessar toda essa assombração, como um fantasma, a pergunta: para quê? para onde? e o que agora?”(p. 64).

UPDATE – Entre as milhões de coisas que esqueci de citar neste texto, não poderia deixar de fora a música Man Machine, do Kraftwerk, que é a posição do grupo sobre este assunto. Vídeozinho da tour Minimum-Maximum que encontrei no youtube.


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Delirium tremens

23/01/2009 · 1 Comentário

por Roberta

Sala escura, mais ou menos uma hora e meia de espetáculo. Não tão bom quanto ela esperava, mas naquele exato instante algo ficou diferente. Estranheza no momento em que saiu na claridade do saguão. A sensação de que o veria novamente, daí a poucas horas.

Saiu, bebeu, esqueceu tudo. Chegou na festa e em poucos minutos o encontrou. No bar.

Começou a beber desesperadamente para aquela sensação sair de corpo. “Já não tenho mais quinze anos para sentir dessas coisas”. Se virou e o olhando para ela. “Loucura, alucinação, isso é só minha imaginação”. Tenta se convencer de que não é verdade. Mas ele insiste, ela vê isso. “Não importa onde esteja, seus olhos estão sempre em mim. O que é isso?”.

Bebe. Bebe para não prestar atenção, mas o álcool a abre para o seu olhar. Precisa desesperadamente dele para viver. E ele está sempre lá. Um calor desesperado a invade, ela está transpirando. Corre até o banheiro e se masturba, pensando no seu corpo branco nu. No gosto da sua… Goza para esquecer, mas não esquece.

Sai para o salão. Cruza novamente com seus olhos. Finge que não vê. Uma outra se aproxima, fala algumas palavras com ele. Ela vira o rosto, volta para procurá-lo e ele não está mais lá.

Ela, completamente bêbada, sente doloridamente sua falta. “Seus olhos se voltaram realmente para mim?” Sente a paixão por alguém que eu mal conhece.

Volta para casa, procura por ele na internet. “1800 amigos. O que que eu estou fazendo?”

Liga a TV, programa meia hora, o suficiente para dormir e o aparelho não ficar muito tempo ligado. Pega no sono e alguns minutos depois acorda sobressaltada. “É a voz dele. Seu rosto tão lindo. Sua boca úmida”. Ele encerra o programa com uma música que ela adora.

Ela dorme, desta vez com a certeza de que é ela quem ele deseja.

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Eu sei

21/11/2008 · 1 Comentário

por Roberta

Moravam juntos havia alguns meses, depois de estar separados por alguns outros meses.

- Estou com febre – disse ele ao acordar de manhã.

- Gripe? – ela respondeu se arrumando para ir ao trabalho.

- Não sei.

- Beba bastante água, tome um analgésico e durma, se for gripe, vai melhorar – ela fez a recomendação já saindo do quarto, estava atrasada.

O dia se passou cinza e frio, como era característico da cidade. Ela o dia inteiro preocupada com a qualidade total do seu trabalho, necessário para sustentar a faculdade. Na hora do almoço deu uma volta pela rua, olhou para o céu e perguntou a si mesma quando tudo isso teria fim.

Quando chegou em casa, descobriu que ele não iria passar a noite com ela, precisava terminar um trabalho e passaria a noite por lá.

Na tarde do dia seguinte ela recebe uma ligação no trabalho:

- A febre voltou, não sei o que fazer. Estou me sentindo muito mal.

- Você já foi ao médico?

- Você sabe que eu não tenho plano de saúde, nem dinheiro. O que faço?

- Eu vou para casa e te levo no Hospital das Clínicas. Tiro a tarde pra isso. Fica calmo.

- Por favor, vem logo, eu não aguento mais…

Foram para o hospital. Na porta descobriram que somente o doente poderia entrar. Ela ficou do lado de fora, cuidando dele da maneira que podia. Olhava e desejava que tudo passasse logo.

Ele demorou muito a voltar. Ela saiu. Quando voltou, ela o encontrou na cama muito nervoso.

- Como foi lá?

- Estou com pneumonia. E muito forte.

- Já tomou remédio?

- Eles me medicaram e estou com os comprimidos para continuar o tratamento em casa.

- É muito grave, por que essa cara?

- Fiz um exame que preciso pegar ainda hoje. Quero que você vá lá comigo, estou com muito medo.

- Medo?

- Sim… eles disseram que essa pneumonia é muito comum em quem tem uma doença bem mais grave. Fizeram um exame para saber se é esse o meu caso. – ele já não conseguia mais olhá-la nos olhos – Eu jamais vou me perdoar se eu fizer algo do tipo acontecer com você…

- E você acha que pode ser? – ela não deixava transparecer sua angústia.

- Você sabe que sim.

No tempo em que não estavam juntos ele viveu sua fase mais promíscua. “Gastando seu corpo”, como gostava de dizer. Meninos e meninas passaram por sua vida e, neste momento, era isso o que passava por suas cabeças. Na vida dela também, mas ela costumava se cuidar.

Pegaram o taxi em silêncio. A caminho do hospital só se ouvia o suspiro dos dois e os comentários mal humorados do taxista. Ela pagou a corrida ao motorista, enquanto ele descia.

Sentada na recepção de entrada do prédio, ela esperava acabar a entrevista que ele tinha com o médico. Foi rápida. “Graças a Deus!”, ela pensou. Ele voltou com o rosto leve e disse simplesmente:

- Não é nada.

- Que bom. Vamos pra casa.

Na cama ele se virou para ela e disse, num desses momentos tão raros entre os dois:

- Eu te amo, sabia?

- Eu sei.

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Ao som das cigarras

17/10/2008 · Deixe um comentário

por Roberta

Faz pouco mais de uma semana que a trilha sonora da vida aqui no cerrado tem sido as cigarras. Pelo menos da minha vida.

No caminho de casa pro trabalho, que faço a pé, elas estão por toda a parte. Parece uma rave, com uma batida eletrônica constante de fundo. Dia e noite. Às vezes elas me acordam às quatro da manhã, como se quisessem dizer algo.

Não é a primeira vez que tenho essa impressão, de que há uma mensagem oculta no cri-cri que elas fazem em vários tons. É como num filme de suspense em que algo de muito sério está para acontecer e a música vai se tornando cada vez mais tensa.

Para elas, é só o momento de acasalarem, pouco antes da chuva começar definitivamente por aqui. Para mim, ainda não sei, mas estou com a sensação de algo está prestes a acontecer . E acho que vai ser como num filme: a música fica mais tensa; o monstro aparece e bu; fade out; tela preta; fade in; dia, um quintal, crianças brincando.

O ciclo de vida da cigarra
(fonte: Wikipedia)

* Fêmeas põem seus ovos e morrem logo depois. Os ovos eclodem.
* Os insetos jovens (ou “ninfas”) caem no chão e entram na terra.
* As ninfas vivem na terra por 4 a 17 anos (depende da espécie) se alimentando da seiva de raízes.
* Depois desse período, elas cavam túneis, sobem nas árvores e sofrem uma metamorfose, a ecdise, se tornando adultas e prontas para o acasalamento.
* O acasalamento ocorre geralmente durante os meses quentes do ano, o que varia de acordo com a região geográfica. Neste período, que dura cerca de um mês, elas gritam.

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Outra coisa

12/09/2008 · Deixe um comentário

por Roberta

“Para onde vão os trens meu pai? Para Mahal, Tami, para Camiri, espaços no mapa, e depois o pai ria: também para lugar algum, meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti.”
Hilda Hilst. Tu não te moves de ti
.

“Quero outra coisa!”, pensava lembrando da Dulce Veiga. “Queria ser Caio Fernando Abreu, pelo menos eu não estaria mais aqui”, olhava pela janela e via a chuva cair. Uma chuva que já dura quatro meses. “Estou embolorando”.

Saiu, decidiu encarar o temporal, que vai e volta o dia inteiro. “Estou embolorado”. Caminhava em direção ao Conic, gesto mecânico. “O que vim fazer aqui? Droga!”. Foi para o Conjunto Nacional. “Porra de chuva!”.

“Um café com leite, por favor”. A garçonete entrega o pedido, “mais alguma coisa, senhor?”. “Eu quero outra coisa…”. “O quê? Sei…”, coloca o indicador para cima e o olha nos olhos, “…quem não quer?”.

Olhava as nuvens que passeavam em cima do Teatro Nacional. Nuvens pretas carregadas, como se um faraó enfurecido quisesse de volta os seus domínios. “Puta tédio”. O dia ficou cinza quando a chuva parou. Lembrou de São Paulo, sua casa a vida toda. “Tô aqui agora, enfrentando lama”. Dois anos já. É tempo pra burro.

“O que deve estar passando no cinema?”. Pôs o casaco e saiu andando por aí. “Um Ibirapuera que não acaba nunca…”. Essa foi a impressão que teve no primeiro dia na cidade. Neste tempo nem pensava nos trinta anos que estava prestes a completar. Trinta anos de inutilidade. “Um cinema no meio de uma praça, só aqui mesmo”. A sala estava fechada. “Isso nunca aconteceu antes, que será?”

Como fazia pelo menos três vezes por semana, sentou-se na casa de chá em frente ao cinema. “Um mate gelado com tangerina e uma torta de frango, por favor”. Gostava de freqüentar aquela sala de projeção, apesar da fama do lugar receber uma horda de culturetes. “Ver um filme iraniano de vez em quando não faz mal a ninguém”. Terminado o filme gostava de descer a Rua Augusta, sentido Jardins. “Quem sabe eu encontro alguém conhecido e troco um oi”. Mas nunca encontrava, coisa típica desta cidade. Quebrava à direita até chegar num bar da Consolação, onde ficava até a hora em que as Drags chegavam, sinal de que o metrô logo ia fechar.

“Vontade de outra coisa”. Estava cansado desta cidade, do tudo ao mesmo tempo agora. Conhecer gente nova. Construir uma nova vida. A idéia amadurecia a cada dia.

O mar mais azul que já tinha visto. Diferente de qualquer outro que já tivesse experimentado. “Realmente o nordeste tem dos seus encantos”, acaba admitindo, mesmo com seu espírito ranzinza de cidade grande. Olhava a Ponta do Seixas tomando um lapada de Serra Limpa, como diziam os nativos. Sentado naquela praia com a areia branca e sob os pés.


EM REFORMA, dizia a placa instalada na porta de vidro que dá acesso ao hall do cinema. “Porra, justo hoje que eu não tenho nada para fazer. Em shopping, nem pensar!” Uma exposição na 508 foi a alternativa que encontrou para ocupar seu tempo, para atingir a meta de não pensar em nada.

Sentou no café do Espaço Cultural:

- Um expresso com conhaque, por favor. – Não servimos com conhaque, apenas café com leite, capuccino e expresso simples. – Um expresso grande, então. “Porra de lugar em que ninguém gosta de café”. Da cadeira onde estava dava para ver a exposição do vão livre.

Enquanto olhava os quadros, não conseguia evitar a conversa do grupo que estava na mesa ao lado. – Estamos montando uma peça genial; o diretor do H8 vai trabalhar com a gente, dizia um. – Será uma sátira de costumes; o Gilvan vai fazer a tia Maricota, que representa as mulheres entrando na menopausa, completa outro. – Uma esquete clown vai dar todo o colorido ao projeto, concluía um terceiro. “Caralho, tinha que cair do lado de um grupinho de comediantes meia bomba!” Levantou-se antes do café chegar e saiu.

Passou o dia olhando par aquele azul que ainda não conseguia entender. Agora via a lua nascer, redonda, enorme, laranja. E vinha sobre aquele mar…

“O que fazer agora que a noite chegou?”. Uns poucos conhecidos pela cidade. Um café freqüentado por pseudo-artistas e mulheres malucas: – vamos para a feirinha, fazer o quê? Música eletrônica e um sotaque estranho a seus ouvidos acostumados a “erres” cortantes e “esses” sibilantes.

- Nosso roteiro será bancado pela Secretaria de Cultura do Estado e em breve vamos viajar pelo Brasil inteiro às custas dos festivais de cinema. – Passei os últimos meses na Europa me especializando na adaptação de literatura ibérica para o cinema.

- Minhas aquarelas estão em três exposições pela cidade, na loja do Jorge e nos dois estúdios de tatuagem do Germano; afinal de contas eles são meus irmãos… A necessidade de um café bem forte o fazia suportar as asneiras que os “pseudos” insistiam em cacarejar uns para os outros. – Meu filho, me traz logo o café e uma dose dupla de conhaque, pediu, angustiado, para o barman. “Um calor dos infernos, esses caras falando de si mesmos e se lambendo. Definitivamente meu ouvido não é penico”

Pegou o último trem da noite e desceu na estação Vila Madalena. Pensou em descer pra casa, mas acabou dando meia volta e entrou na casa noturna que freqüenta desde o começo dos anos 90. “Som retrô é uma boa hoje”. Algumas caras conhecidas, pessoas com quem nunca conversou, mas que vê pelo menos uma vez por semana há dez anos. “Estamos envelhecendo e continuamos na mesma merda”.

Uma garota passa pela porta de entrada. A mesma garota. “Já faz dez anos”. Sozinha. – Você está sozinho? – Sempre estou. Passam o resto da noite juntos, como há dez anos. Acordam ofegantes, uma pontada de paixão nos olhos, como há dez anos. Despedem-se com um beijo, como há dez anos. Esquecem de trocar telefones, como há dez anos.

“Eu quero outra coisa. Amanhã embarco para a terra onde o sol nasce primeiro”.

“Ainda preciso do café”. Só se lembra disso quando já está longe do Espaço Cultural. Caminha pelo menos quatro quadras até encontrar um café expresso, que bebe de um gole. “Agora saio até a 204, alugo um filme e volto pra casa”. Meia hora de caminhada e nenhuma esquina, nenhuma rua. Quadras residenciais e quadras comerciais se intercalam sem fim, nas asas desse pássaro que saiu da cabeça de um megalomaníaco.

Nada aconteceu a noite toda. Amanheceu o dia com os pés molhados e cheios de areia. “Acho que preciso dormir. Mais tarde decido para onde vou. Aqui nunca vai dar pé”.


No avião, a caminho do mar, observa sua cidade. “Em breve te vejo de novo”, pensou, sabendo que não voltaria tão cedo. Agora era um cidadão do mundo.

Saiu da locadora com alguns filmes que ainda não tinha visto. Olhou para cima, como já não fazia há muito tempo. “Realmente o céu daqui é lindo”.

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Outra Coisa foi o quinto lugar no Prêmio SESC de Contos Machado de Assis, em 2004, e é integrante da antologia publicada pelo concurso.

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Respirando em canudinhos

18/07/2008 · Deixe um comentário

por Roberta

Subitamente perdi o medo da morte. Sentir o coração acelerado, fruto de alguma disfunção que carrego há algum tempo, já não me assusta mais. Às vezes parece que pulsa descompassado, mas sei que isso é apenas fruto da respiração difícil, conseqüência inevitável deste clima desértico a que me exponho por anos seguidos e que seguidas vezes já me levou ao PS.

Pontos distintos do corpo doem. Sei que é porque me encolho no esforço de que o ar entre no peito. Penso nos fumantes que chegam a um ponto da vida que seus pulmões decidem limitar a quantidade de ar que entra. “É como respirar por um canudinho de refrigerante, daqueles fininhos”, alguém me disse uma vez.

Tive um pesadelo: “uma guerra, estou na trincheira. Minhas canelas estão geladas, pois meu pé está na lama fria, e me sinto febril. Uma bomba e a fumaça toma conta de tudo. Eu não consigo respirar”.

Acordo no meio da fumaça com a canela gelada. A janela ficou aberta tentando dissipar o ar venenoso. A colônia de bactérias no meu rosto parece estar em pleno carnaval, é o que a dor fina na base da nuca quer anunciar.

“Frescura”, minha mãe disse na sala de espera do otorrinolaringologista, pouco antes do médico informar que eu teria que tomar antibióticos por três meses para combater a placa de bactérias nos “seios da face”, causa do meu sono constante e da labirintite.

O que não é visível não incomoda o outro e falar é sempre dar-se importância demais. Que tal ficar assim, em silêncio. O ar entrando cada vez em menos quantidade até. Daí, fim.

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Groovie Records – o rock brasileiro em Portugal

20/06/2008 · Deixe um comentário

por Roberta

A primeira vez que ouvi falar da Groovie Records foi em 2006. Era uma nova gravadora independente portuguesa, que só edita em vinil e que, já no seu início, trabalhava com um pé no Brasil. Literalmente. Foi quando conheci Edgar Raposo, um dos homens por trás do selo, em sua primeira viagem ao país, o outro é Luís Futre. Trocamos figurinha sobre rock brasileiro e português, apresentei umas bandas obscuras dos anos 80, o difícil foi achar algo novo, o cara já conhecia até Akira S. e As Garotas Que Erraram!

Naquele tempo, começaram as parcerias no nosso país. A partir dali, a Monstro Discos se tornou distribuidora da Groovie Records, no Brasil, e a Groovie da Monstro, em Portugal. Logo depois veio a gravação de um vinil split 7” com os Autoramas de um lado e Green Machine, de Portugal, do outro. Em seguida foi lançado o LP Brazilian Surf A-Go-Go volume 1, com mais de vinte bandas brasileiras, entre elas de novo os Autoramas, Pata de Elefante, The Dead Rocks, Estrume’N'Tal, Cochabambas, Super Stereo Surf, Los Tornados e Capitao Parafina e Os Haoles.

A série Fuck CD Sessions, do MQN, impressa em vinil, também faz parte do catálogo do selo. Mas isso é só o começo.

Em 2007, foi lançado o vinil de 10” The Jam Messengers, de Rob K. e Uncle Butcher. Rob K é estadunidense e está na estrada desde os anos 70 e Uncle Butcher atualmente se apresenta com sua monobanda (And His Oneman Band) e é ex-integrante do Thee Butchers’ Orchestra, de São Paulo

Mas foram Os Haxixins a grande aposta do selo ano passado. O grupo é da zona leste de São Paulo e tinha feito pouquíssimos shows quando fechou contrato com a gravadora. Eu cheguei a fazer uma entrevista com eles nessa época, para o programa Plano B, da Rádio Castrense, em Portugal, apresentado pelo Edgar.

A banda acabou virando grande revelação para o público de garagem, de acordo com diversas publicações e podcasts europeus, entre elas a Luv Radio, em que Gary Wilde afirmou ser “uma das mais autênticas bandas de garagem que ouvi em muito tempo”. No início de abril deste ano, Os Haxixins partiram para uma turnê em quase trinta cidades de Portugal, Espanha e Itália, produzida pela Groovie Records.

Os Autoramas também já fizeram pelo menos três turnês por lá com o apoio do selo e devem fazer mais uma em 2008. Além disso, muitos músicos acabam tendo guarita na casa do Edgar. No Bananada 2008, bati um papo com o Kuti, o Lendário Chucrobillyman, que esteve hospedado por lá ano passado, quando fez alguns shows em Lisboa com sua monobanda.

Recordar é viver
Nem só de revelações vive a Groovie Records. Eles têm apoiado todo o tipo de trabalho de registro histórico do rock português. A exposição Nova Vaga – O Rock em Portugal, uma de suas produções, é um passeio no Rock’n'roll, Pop Music, Garage e Psych Rock produzido em Portugal entre 1955 e 1974.

A Groovie também editou um compacto do primeiro roqueiro português, Joaquim Costa, que faleceu no começo deste ano, além de ajudar na distribuição dos LPs Portuguese Nuggets, que editam clássicos do rock daquele país.

Mas o que o Brasil tem a ver com isso? Não são só os clássicos portugueses que estão na mira do selo. Em 2008, foram editados dois LPs de bandas brasileiras dos anos 60: Baobás, “para muitos eles são uma das melhores bandas de garagem já gravadas no Brasil no final dos anos 60”, e The Brazilian Bitles, “a mais prolífica banda dos anos 60 no Brasil. Eles lançaram muitos EPs e alguns LPs, gravando mais de 30 músicas”.

E não deve parar por aí. Há alguns meses mandei para Lisboa um LP de uma banda que gravou nos anos 70, em Natal. Vamos ver o que rola.

Um braço no quadrinho
Uma das atividades do Edgar é seu trabalho com ilustração. Ele é um dos colaboradores do almanaque Bongolê Bongoró #2, que traz trabalhos de mais três portugueses, uma estadunidense e mais dezoito brasileiros. Em fevereiro deste ano, quatro representantes da revista, entre eles, eu, foram convidados para o Brucutumia 2008- Encontros de Arte Urbana Luso- Brasileira, que teve uma feira de fanzines com várias publicações brasileiras.

O evento foi promovido pela Groovie Records e pela Associação Chili com Carne (CCC), em Lisboa. Viajamos com o apoio do Ministério da Cultura e fomos gentilmente hospedados por Edgar e Flávia Diab, a esposa brasiliense. Deste encontro resultaram parcerias de trabalho e de distribuição da CCC pela Kingdom Comics, em Brasília, além da venda da Bongolê #2 e algumas outras revistas brasileiras pela CCC.

Integração continua
A banda portuguesa Born a Lion fez um turnê no Brasil com o MQN, em meados de 2007, por conta dessas parcerias encabeçadas pela Groovie Records, principalmente com a Monstro Discos, e que deverá continuar nos próximos anos. Assim, mais bandas brasileiras irão para a Europa e mais bandas portuguesas virão ao Brasil. O Edgar falou um pouco sobre isso no programa da Tramavirtual que tratou da produção internacional e que foi ao ar no último mês de abril:

Mais sobre a Groovie Records em:
Site: www.groovierecords.com
Myspace: www.myspace.com/groovierecords

(texto originalmente publicado no Overmundo)

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Bananada 2008

26/05/2008 · Deixe um comentário

por Roberta

Como no ano passado, não consegui chegar no primeiro dia do Bananada, que teve 42 bandas, metade delas de Goiânia. Muita gente pode pensar que é um exagero ter tanta banda local no evento. Não é. O rock goiano tem deixado sua marca e tem uma cara bem definida. Percebi, durante os inúmeros shows, que é possível identificar uma banda da cidade sem mais referências prévias, apenas ouvindo.

O Bananada é um festival que, além de prestigiar a cena local, é aberto a tudo o que há de novo e experimental no rock brasileiro, talvez por isso tenha se tornado o meu favorito. Fico sempre surpresa com algumas atrações escolhidas para integrar o evento.

A primeira banda que assisti foi Abesta, uma dupla de noise nervoso de Florianópolis (!). O show durou cerca de quinze minutos de ruído ensurdecedor e, apesar das manifestações irritadas da platéia, quase ninguém saiu antes da apresentação acabar. Eu adoro noise, curti bastante, mas confesso que tem que ter muita coragem para colocar um show desses no mesmo dia que ia rolar Mallu Magalhães.

Aliás, Mallu foi um show à parte. Trocentas e tantas pessoas lotaram o Martim Cererê só para ver o novo prodígio da música brasileira. Entendo que ela até toque bonitinho e tudo (apesar de não ter conseguido ver o show mega lotado), mas a maioria das pessoas que foram ver o show estavam naquele espírito “atração de circo”. “Tão novinha’, muita gente repetia. Acho uma pena. Tive que rebolar para não ser esmagada por uma turba de adolescentes histéricos que se espremiam achando que o show do Cérebro Eletrônico que estava para começar era o da Mallu. Bem…

Para os desavisados, o Cérebro Eletrônico é composto pelos mesmo integrantes do Jumbo Elektro e fazem um som tão competente quanto. A apresentação teve o som mais perfeitinho do festival e teve aqueles efeitos lúdicos que lembram Flaming Lips.

O último show que vi nesta segunda noite do festival foi o de Diego de Moraes e o Sindicato. Considerado pela organização do evento como a grande promessa de Goiânia, fez um show muito bom. Influências sertanejas, Raul Seixas, Rolli’n Chamas, Hang The Superstars, tava tudo ali no que ele mesmo intitula como rock goiano/cuiabano. Gostei bem mais das músicas dele com a banda, ele tem algumas gravações na internet só voz e violão.

No último dia do festival, comecei minhas audições com Orquestra Abstrata, que é a banda formada pelo Sindicato, com alguns integrantes diferentes, que acompanha o Diego de Moraes. Som instrumental, com influências psicodélicas.

Show divertido, em que dancei à beça, foi o d’A Grande Trepada, rock à billy “origem”. Em seguida foi a vez do Lendário Chucrobillyman, uma monobanda, ou one man band, como preferir. Muito bom! Tem que ser muito rock’n roll para dar conta de um som de responsa sozinho.

Esses foram praticamente todos os shows que vi, outras coisas boas rolaram, outras nem tanto. Mas o melhor do festival foi mesmo A Banda da Eline. Eline é ex-integrante do Hang The Superstars (melhor-banda-goiana-de-todos-os-tempos), que acabou ano passado. Na verdade não é uma banda, mas uma jam session com gente de praticamente todas as bandas da cidade e o repertório foi um tributo ao rock goiano. Teve MQN, Rolli’n Chamas, Mechanichs e, claro, muito Hang The Superstars. Excelente fim de festa.

(do Trabalho de Parto)

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Entrevista com Satanique Samba Trio

20/05/2008 · Deixe um comentário

por Roberta

No ar, em www.myspace.com/robertaar, entrevista com Munha, do Satanique Samba Trio, banda de Brasília que, na verdade, é um quinteto. Ele nos fala sobre o processo criativo do grupo e sua concepção de samba, já que o som da banda está longe do convencional do estilo. Como declaram em sua página na internet, a música instrumental existe porque “o deus traíra dos seus amigos ricos vai rodar. Prepare-se para jogar o Buda de bronze da sua mãe janela abaixo e sacrificar seus animais de estimação: celebremos, também, o que há de indescritível”.

Contatos do Satanique Samba Trio:
Site:
www.sataniquesambatrio.net
MySpace
www.myspace.com/sataniquesambatrio

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Machado na tela grande

18/04/2008 · Deixe um comentário


por Roberta

Fundador da Academia Brasileira de Letras tem sido grande fonte de inspiração para o cinema brasileiro

Esse ano é o centenário da morte de Machado de Assis. Reconhecido como o mais importante expoente do realismo brasileiro, talvez de toda a literatura brasileira, que tem no seu legado a fundação da Academia Brasileira de Letras, não é inspiração apenas para ensaios literários em revistas especializadas ou em livros didáticos brasileiros. Sua obra tem sido grande influência no cinema brasileiro. São muitos os filmes em curta e longa metragem que são adaptações de seus trabalhos.

Seus primeiros livros foram fortemente influenciados pelo romantismo, que teve um grande número de representantes no Brasil. Deste período são Iaiá Garcia e Helena, para citar os mais conhecidos. Mas apenas quando se rendeu ao realismo é que sua obra se tornou revolucionária.

Os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro são os mais conhecidos e admirados. Não é por acaso, portanto, que ganharam versões no cinema. Quincas Borba, de Roberto Santos, cineasta representante do cinema novo brasileiro, foi produzido em 1987 e traz o ator Paulo Vilaça, de Bandido da Luz Vermelha, no papel título do filme. Uma adaptação de qualidade, que buscou manter a ambientação original do livro.

Com duas adaptações para o cinema, Dom Casmurro traz versões bem diferentes do romance entre Bentinho e Capitu. A mais recente delas é Dom, de Moacyr Góes, realizada em 2003, com um olhar contemporâneo sobre relacionamentos e ciúme. Marcos Palmeira é Bento, nome que recebeu dos pais em homenagem ao livro de Machado, que se casa com sua amiga de infância Ana, personagem de Maria Fernanda Cândido, que recebeu do amigo o apelido carinhoso de Capitu. Mais fiel ao livro é o filme Capitu, de 1968, dirigido por Paulo Cesar Saraceni e que traz Othon Bastos no papel de Bento.

Memórias Póstumas de Brás Cubas tem também dois registros em película. O primeiro deles foi realizado por Julio Bressane, com Luis Fernando Guimarães no papel título do filme. Brás Cubas foi realizado em 1985 e é uma das melhores adaptações do escritor para o cinema. Este filme faz uso de uma das maiores inovações promovidas por Machado neste romance, a metalinguagem, mostrando os bastidores da filmagem com total naturalidade. Já Memórias Póstumas, de André Klotzel, é uma adaptação comercial, com um Brás Cubas quase desprovido da a malícia característica do personagem.

Contos
Os contos de Machado de Assis são quase tão importantes em sua obra quanto seus romances. Todo mundo que cursou o ensino médio no Brasil já deve ter lido ao menos um. Muitos deles também chegaram ao cinema.

Sergio Bianchi, conhecido pelo seu filme Cronicamente Inviável, pegou emprestado o nome do único conto naturalista de Machado, A Causa Secreta, para fazer um de seus filmes mais contudentes. O filme capta toda a sensação de desprezo pela vida exposta no conto e reproduz sua cena mais incômoda, a de um rato sendo torturado num fogareiro.

A divertida novela O Alienista , também ganhou uma versão no alegórico filme Azylo Muito Louco, de Nelson Pereira dos Santos, com uma interpretação quase circense da história.

A lista de filmes é enorme, muitos deles muito bons, outros nem tanto, mas definitivamente nada se compara a ler as obras deste escritor genial. Adptar é pegar emprestado para realizar uma obra totalmente nova, que pode se aproximar ou se afastar da original. Experimentar as várias possibilidades pode ser bastante divertido.

Confira:

Capitu (1968), direção de Paulo Cesar Saraceni, adaptação de Dom Casmurro

Azyllo Muito Louco (1970), direção de Nelson Pereira dos Santos, adaptação de O Alienista

Um Homem Célebre (1974), direção de Miguel Faria Jr., adaptação de conto com mesmo nome

Confissões de Uma Viúva Moça (1976), direção de Adnor Pitanga, adaptação do romance com mesmo nome

Que Estranha Forma de Amar (1977), direção de Geraldo Vietri, adaptação do romande Iaiá Garcia

A Missa do Galo (1982), direção de Nelson Pereira dos Santos, adaptação de conto com mesmo nome

Brás Cubas (1985), direção de Júlio Bressane, adaptação de Memórias Póstumas de Brás Cubas

Quincas Borba (1987), direção de Roberto Santos, adaptação de romance com mesmo nome

A Causa Secreta (1994), direção de Sérgio Bianchi, inpirado no conto de mesmo nome

Um Homem Sério (1996), direção de Dainara Toffoli e Diego de Godoy, livre adaptação do conto Um Homem Célebre

Memorias póstumas (2001), direção de André Klotzel, adaptação de Memórias Póstumas de Brás Cubas

Dom (2003), direção de Moacyr Góes, inspirado no romance Dom Casmurro

A Cartomante (2004), direção de Pablo Uranga e Wagner de Assis, baseado em conto de mesmo nome

Quanto Vale Ou É Por Quilo? (2005), direção de Sergio Bianchi, livre adaptação do conto Pai Contra Mãe

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